Vitorino Silva entrou em direto no programa Vichyssoise, da rádio Observador, esta sexta-feira, para uma entrevista à distância — pandemia oblige — do candidato presidencial que anda com agenda preenchida. Entre um almoço e uma ação de campanha, o homem também conhecido por Tino de Rans disponibilizou-se para esta conversa que acabou por ser tensa com o candidato a incomodar-se com as perguntas e a desviar-se em muitas respostas.

Foi desafiado a dizer o que vetaria se fosse Presidente, não quer falar nessa qualidade, mas ainda assim admitiu que vetaria a eutanásia porque preferia que a matéria fosse a referendo. Discordou de Marcelo no caso de Tancos em que disse que era impossível o Presidente da República não saber do encobrimento do roubo de armamento. E disse que o seu primeiro acto presidencial, se fosse eleito, seria “continuar a respirar”.

Que leis promulgadas por Marcelo Rebelo de Sousa teria vetado se fosse Presidente nos últimos cinco anos?
Aquela que ele ainda não promulgou e eu não promulgava, a eutanásia. Não vou responder pelo trabalho dele, mas pelo que ele não fez e com a eutanásia não andava aqui com medos.

Se lhe cair a eutanásia em Belém antes das eleições Marcelo vai adiar para depois para não se comprometer?
É muito fácil adiar e estar bem com gregos e troianos. Se eu for Presidente não vou tomar partido nem pelos gregos nem pelos troianos.

O que faria então? Vetaria?
Eu sou a favor da eutanásia, agora não mando no voto nem na cabeça de ninguém. Eu queria era um referendo e que todos os portugueses pudesse votar, ok? Só que tirava os 50%, ok? Nem que fossem só dois portugueses ou só eu a votar seria vinculativo na mesma.

Mas repare uma coisa, essa não é uma capacidade do Presidente, teria de ser o Parlamento a fazê-lo.
Eu dei a minha opinião como candidato, nunca falarei como Presidente da República sem o ser. Poderei vir a ser a partir do dia 24.

Mas um candidato a Presidente tem de falar dos poderes que o Presidente tem, a menos que defenda que sejam alterados.
O meu poder é ter um voto e o que eu tenho é o mesmo que tem o Marcelo ou os meus adversários. E neste momento falo pelo o meu voto, não ponho o carro à frente dos bois e quando for Presidente aí poderei falar como Presidente da República. Neste momento falo apenas pelo meu voto que significa liberdade, na minha cabeça ninguém manda e tenho a minha opinião e já lhe disse.

Mas já pensou, enquanto Presidente, no que fará em determinadas situações. Que pessoas escolheria na quota do Presidente para integrar o seu Conselho de Estado?
Pelo menos dois jovens meteria. Uma jovem e um jovem. Temos muito a aprender com os jovens, os políticos têm virado as costas aos jovens.

Tem nomes concertos?
Um pode-se chamar Manel e o outro pode ser Maria. Há muitos jovens com capacidades que têm muito para ensinar os portugueses.

Não consegue indicar ninguém?
Vocês estão dois a fazer perguntas…

Estamos quatro.
Até podem ser 40, agora perguntem e deixem-me responder. Eu estudei comunicação e a primeira coisa que aprendi foi que a resposta não pode estar à frente da pergunta. Isto é assim: se quiserem respeitar o que aprendi, perguntem mas deixem-me responder. E não ponham a resposta antes de eu ter falado porque vocês não sabem o que eu vou responder. O que estou  dizer é que tenho direito a um voto e que o meu voto é tão importante como o de todos os outros portugueses. E eu falo como candidato e não como Presidente da República porque o povo ainda não decidiu. Acho que no dia 24 vai haver um tomba gigantes, não tenha dúvidas que às vezes ele aparece, e o povo português está à espera de um tomba gigantes. O país está farto de gigantes. Quando eu dizia, há cinco anos, que os peixinhos iam engolir os tubarões, isso é possível.

Estamos aqui para as perguntas, vamos seguir em frente. Acha que o país deve cumprir as metas concretas do défice previstas pelo Programa de Estabilidade. deve privilegiar ao rigor das contas públicas?
Claro que deve, eu tenho uma família, se tenho uma casa e um ordenado ao fim do mês, eu tenho de ter pelo menos 20 ou 30 euros até ao dia 30 ou o dia 31. Se o país se governasse como se governam as famílias normais, ok. Só que normalmente os políticos e os gestores públicos, o dinheiro não é deles e é muito fácil gerir o dinheiro dos outros. Difícil é gerir o dinheiro de uma família. Quem sabe gerir o dinheiro 30 dias é muito melhor gestor do que os que são pagos a peso de ouro e estudam e têm grandes, grande diplomas mas não sabem o que é o mais e o menos. Mais importante do que tudo na economia é saber o que é o zero. As faculdades neste momento ensinam a falar de milhões e ninguém sabe o que são os milhões. Eu se for político e um dia poder dar uma aula de economia vou explicar a esses políticos que têm governado este país o que é o zero. O zero é o ponto de partida. O zero é o separa o mar e a terra, é onde está o deve e o haver.

É ex-militante socialista e diz que é um candidato de esquerda às direitas. O que é que isto quer dizer? O que é que faz de si um político de esquerda, e não de direita?
Eu quando digo que a minha casa quando subo fica à esquerda e quando desço fica à direita, quando digo que para caminhar preciso do pé de direito e do pé esquerdo, eu quando digo que para lavar a cara preciso da mão direita e da mão esquerda, eu quando digo que às vezes temos uma mão para poder agarrar quem mais precisa, isso é a direita e a esquerda. Mais importante do que ser de direita e ser de esquerda é ser de 360 graus. Eu nasci num embrião, o embrião é redondo e gosto muito de sol que é o girar para gerar e para mim o girar para gerar é vida. A vida é 360 graus.

Acha que seria útil uma solução de Bloco Central?
Cada caso é um caso, cada coisa tem o seu tempo certo. Neste momento houve governos minoritários que fizeram bons trabalhos e governos maioritários que fizeram maus trabalhos. Às vezes a maioria, quando é muita gente ali, é para dificultar. Costumo dizer que a força da minha candidatura é um relógio com poucas peças. Pode ter a certeza que um relógio com muitas peças, quanto mais peças tivesse mais fácil era de avariar. E às vezes o problema é que há grande confusão, peças a mais e nos governos peças a mais avariam mais facilmente e quando o relógio avaria quem não tem horas é o povo que quer saber as horas.

Deixe-me falar de uma peça concreta deste Governo. Neste caso do procurador europeu, António Costa tem razão quando diz que a ministra da Justiça agiu correctamente e só dá relevância ao tema quem tem uma campanha internacional orquestrada contra Portugal?
Ó menina, menina, eu nunca fiz um currículo. Eu sou candidato a Presidente da República e nunca fiz um currículo na vida e porque nunca ia deixar que ninguém mandasse um currículo meu para o caixote do lixo. Vivemos num país em que as pessoas passam a vida a mandar currículos e depois vão para o caixote do lixo. Nunca ninguém vai fazer pouco da minha história e não nunca ninguém vai mandas a minha história para o caixote do lixo. As pessoas em Portugal dão muita importância ao currículo e para mim isso não conta para nada.

Aqui a questão não é o currículo…
[Interrompe] Não, não, não, há uma coisa que é verdade eu andei na faculdade, faltam-me duas cadeiras para ter o curso e nunca disse que sou doutor. Mas não tenho curso nenhum, não passei porque não sabia e não sabia e se não sei não devo passar. E há muita gente que não vai à faculdade e nunca foi às aulas e tem diplomas. Mais importante que ter um diploma pendurado numa parede…

Deixe-me só interromper porque gostava de o ouvir sobre o caso concreto que não é só a questão do diploma, mas sobre o que provocou. Havia um nome que tinha sido apontado pelo comité para o cargo de procurador europeu e quem acabou por ser indicado por Portugal foi quem estava em segundo lugar. Depois houve essa parte do currículo reencaminhado ter sido falso, mas houve aqui uma tentativa de ingerência na justiça?
Eu respeito quem tira 19 e 20, lembra-se daquele caso do Concorde que caiu? Quando caiu foi por causa de um parafuso mal apertado. E quem aperta os parafusos? É um mecânico, ok? Todas as pessoas que entravam para a Concorde tinham de ter 20 a química, a física…

Queria que respondesse à questão concreta. O candidato a presidente acha que está a haver ingerência do Governo na Justiça ou não?
Se quiser responde por mim eu calo-me e desligo. Vale mais uma pessoa que tenha 10 e que saiba apertar parafusos e o avião não cai, a pessoas que tenham 20 e não saibam o que é um parafuso. A mim não me interessa se tem diploma ou não, se for a pessoa mais qualificada… Eu nunca na vida fazia um casting, o dia mais triste na condição de pai que tive foi que um dia a minha filha foi a um casting do La Feria e veio embora a chorar e queria morrer. “Ó pai, eu não sou bonita?” Há muita gente que às vezes vai para o casting, vai ser usado e a pessoa que vai para o lugar nem para o casting vai.

Muito diretamente, neste caso, o Governo está a tentar ingerir na Justiça?
Não. Um Governo não pode, porque cada macaco no seu galho.

Disse que se fosse Presidente não vivia em Lisboa, mas em Mogadouro, Pinhel ou Sabugal.
Não foi isso que eu disse. Vocês estão muito distraídos. Viram o debate que eu tive? Eu estive lá. Não sei se viram. O que eu perguntei foi à Ana Gomes a dizer: a descentralização. Porque é que tem de estar em Belém? Porque é que o Presidente da República tem de viver em Belém? Belém não é Portugal. Portugal tem montes e montes de palácios e, quando o país está inclinado, está todo no litoral, porque não nivelar o país.

Está a dizer o mesmo que eu. Que disse nesse debate que se fosse Presidente ia viver no Mogadouro, Pinhel ou Sabugal. Se fosse Presidente mudava-se para lá e ficava viver no interior sem problema? Em Rans ou noutro local? 
Eu vivo em Rans há 49 anos e sou uma pessoa feliz. Uma pessoa é feliz não é onde põe a cabeça no travesseiro, é onde põe o coração no travesseiro pode ter a certeza. E o meu coração está em Rans e eu não tenho problemas nenhuns em ter um palácio [em Rans]. Quem é que vive no palácio? Não é o Presidente da República, aquele palácio simboliza onde é que o povo vive. Porque aquela casa não é do Marcelo, não é do Tino, não é da família do Marcelo nem do Tino, aquele palácio é do povo e eu acho que um dia o povo tem de ter a chave daquele palácio.

Também criticou Marcelo dizendo que está há 5 anos a viver numa casa do Big Brother, num reality show. O que é que faria diferente do atual Presidente? No lugar dele não seria o Presidente dos afetos? Acha que Marcelo fala de mais?
O problema não é o Marcelo falar de mais. O problema é quando ele se cala.

Em que momentos é que Marcelo devia ter falado?
Em muitos momentos. Não posso falar pelo Marcelo. Eu apenas sou um português normal, um português atento, um português que sabe. Porque as pessoas pensam que o povo que vota não está informado nem é informado. Hoje a informação chega para todos.

Mas, em concreto, em que momento é que sentiu falta de ouvir o Presidente da República e ele não falou?
Tantas vezes. Eu quero ser Comandante Supremo das Forças Armadas, mas também quero ser comandante das Forças Desarmadas. Ele é o comandante Supremos das Forças Armadas e quando roubaram aquelas armas de Tancos ele tinha de estar informado, tinha de ser o primeiro a fazer porque não acredito que o Presidente não tinha informação. Eu sou calceteiro, não tenho de saber onde é que estão aquelas fisgas e aquela folheta, mas ele tem porque é o comandante supremo.

Dois reparos feitos ao mandato do Presidente da República. A questão da eutanásia, também a questão de Tancos. Vitorino Silva vamos avançar da entrevista para os debates que tem tido. No debate por exemplo com André Ventura disse a certa altura que os ciganos não são burros, que são pessoas, mas depois disse que concorda na parte que acha mal os ciganos terem Ferraris, mas diz também que a culpa não é deles. Já viu algum cigano com um Ferrari?
Eu nunca disse isso da minha boca. E tudo o que sai da minha boca é pensado e é pensado por mim. Nunca ninguém pensou, nunca ninguém mandou dizer aquilo. Eu sou candidato a Presidente da República e estou sozinho. É apenas uma cabeça. Se alguém pensa que desta cabeça sai aquilo que você quer que eu diga, eu não digo. Eu digo que é uma candidatura individual. Eu nunca na vida quero tocar em nenhuma etnia. Nunca na vida.

O Vitorino Silva também já disse que ia a prisões dar palestras e que em algumas delas havia jacuzzis. Em que prisões é que há jacuzzis?
Eu não disse jacuzzis? Algum dia eu disse que há jacuzzis? Eu que eu estive a dizer foi que estive num programa de televisão e em que estive num jacuzzi. E toda a gente viu. Não sei se já ouviu falar num programa chamado Big Brother.

Já ouvi, claro.
Já ouvi, já. Há pessoas que nunca viram. Veem, mas depois têm complexos e dizem que não veem. Toda a gente vê. Há muita gente complexada. Eu estive naquele programa e estive no jacuzzi e quando estive no jacuzzi havia lá um botão, que eu carregava no dedo e carregava no mais e a água começava a aquecer mais um bocadinho. E depois estava quente de mais e eu pegava no outro dedo, no dedo do meio. Sabe o que é dedo do meio? Sabe o que é a força do dedo do meio. Eu muitas vezes vejo o povo português a pegar no dedo do meio e ali a mostrar o dedo do meio e carregava no menos. Sei muito bem o que é o mais e o menos e quem domina o mais e o menos sabe o que é o tempero. Há muita gente deste país que gere milhões e milhões e milhões que não sabe o que é o zero.

Vitorino Silva, pegando na ideia do dedo e do botão, queria-lhe perguntar uma coisa. Se fosse Presidente da República, se fosse eleito qual seria a primeira coisa que faria como Presidente da República tendo esse poder de carregar no botão? Quando carregasse no botão qual era a primeira coisa que faria?
A primeira coisa que faria era respirar. Porque eu tenho de respirar o ar que procuro, não o ar que me metem à frente. Continuar a respirar porque é preciso um Presidente da República que respire o ar que procura, não o que lhe metem à frente e há muito ar que lhe metem à frente.

Mas isso quer dizer o quê? Porque respirar fazemos todos a todo o momento?
Eu sou calceteiro. E o calceteiro não fala só com pedras, também fala com palavras. Você estudou comunicação e sabe o que é as palavras. E eu falo em português e, quando falo em português, há uns que me percebem e há outros que não percebem. E há uns que me percebem e querem fazer de conta que não me percebem. Há uma coisa que a minha mãe sempre me disse: “Tino, nunca respondas a armadilhas e há uma coisa que nunca te vai faltar à tua frente, que é a hipocrisia”. E há uma coisa que eu tenho a certeza é que neste momento o que há mais é hipocrisia à minha frente.

Portanto, o seu primeiro ato presidencial seria respirar, é isso?
Continuar a respirar. O ar que procuro, não o que me metem à frente porque há muito ar envenenado.

Já escreveu no seu caderno de pensamentos hoje?
Já. Eu nem me preparei para os debates. Comecei a preparar há 49 anos. O que está ali naquele caderno foi tudo aquilo que eu registei. E registo para quê? Para não se evaporarem. São as migalhas, tudo aquilo são as migalhas e migalhinhas é pão. Se eu botasse as migalhas fora, agora chegava aos debates e não estava preparado. E tenho estado mais ou menos, segundo diz o povo, porque eu não vi nenhum debate. Não vi nenhum debate dos meus adversários nem sequer vi os meus. Porque se revisse, deixava de ser eu. O amanhã também sou eu.