O Bloco desertou ao votar contra o último Orçamento? O PCP devia ter desertado? “Eu não estou a dizer isso”. De um lado e do outro da mesa do debate, transmitido pela RTP3, entre Marisa Matias e João Ferreira, custou fazer o ataque ao adversário. Esse golpe final, de tentar deitar o adversário ao tapete, foi evitado por cada um dos candidatos presidenciais que entraram no modo não-agressão. Quase pareceu um pacto.

Saltou à vista este incómodo quando Marisa Matias falava do SNS, do que ainda era preciso fazer para robustecer esta área e afirmou ter “pena que esta situação de crise não seja usada para suprir já dificuldades que temos identificadas” e que isso teria sido possível “se toda a esquerda tivesse sido mais firme”. Quem não foi firme? Marisa não quis dizer, mas nas entrelinhas estava o PCP que se manteve ao lado do Governo no Orçamento do Estado para este ano, ao contrário do Bloco que, segundo já defendeu António Costa, “desertou” ao votar contra (pela primeira vez desde que é ele o primeiro-ministro). A candidata empurrou antes a crítica para o Governo avisando-o que “em breve terá de vir mais à esquerda”.

E desertou mesmo? “Eu valorizo os que não desistem a meio de um combate, e os que conseguem incluir no Orçamento investimento no SNS, contratação de mais profissionais, mais infraestruturas, valorizo muito que tenhamos incluído essas verbas. Não foi suficiente? Estou de acordo”, atirou João Ferreira em cheio contra o Bloco de Esquerda. Mas isto também só nas entrelinhas, porque quando confrontado sobre se esta era uma crítica o BE, recusou.

Era um debate de definição de espaços à esquerda, entre o que é do Bloco de Esquerda e o que é do PCP nesta eleição que aí vem, mas os candidatos tiveram pudor em cavar esse fosso. E o que foi tentado, foi logo tapado. Como quando Marisa Matias começou a dizer que não há diferenças entre os dois sobre questões laborais, mas levantou as “muitas lutas” em que muitos chegaram a dizer que a sociedade ainda não estava preparada para elas, mas o BE e o PCP não estiveram do mesmo lado. Quais? Marisa nomeou algumas, como o casamento entre pessoas do mesmo sexo ou a adoção ou ainda a lei da paridade.

Mas João Ferreira veio logo dizer a seguir que nos últimos 11 anos os direitos dos homossexuais têm sido “uma luta” do PCP, aliás, disse até que os dois partidos estão “do mesmo lado”. “Também estivemos do mesmo lado quando se tratou de alargar a adoção por casais do mesmo sexo e a procriação medicamente assistida”, disse. Na primeira vez que o tema do casamento entre pessoas do mesmo sexo foi ao Parlamento, em 2005, o PCP ainda não estava nessa luta, a primeira vez que foi favorável a esta alteração legislativa foi quando ela foi aprovada, em 2010. “Existirão diferenças mas não vale a pena cavar diferenças onde elas não existem”, atirou ainda a Marisa Matias.

Marisa também disse que “na questão do clima e nas alterações climáticas, temos tido posições diferentes”. Mas também aí foi difícil identificá-las, pelo menos neste debate, tendo os dois acabado a falar em tons semelhantes sobre este mesmo tema. “Custa-me um bocadinho ver as questões ambientais e climáticas a ser usadas, não digo que Marisa Matias o faça, como bandeirinha de propaganda ou emblema que dá jeito usar em algumas campanhas”, disse João Ferreira. E logo depois Marisa Matias veio concordar que a questão é “usada como um slogan vazio quando o país tem mesmo de fazer a transição energética”. Por mais que se separem, até na forma acabam por acertar passo.