O dia de Marisa Matias terminou na Estufa Fria, em Lisboa, numa noite gelada, para se falar sobre alterações climáticas. Com uma plateia de 30 pessoas, separadas como mandam as regras, e com o restante público online, a candidata do Bloco de Esquerda abriu as portas para um debate sobre a “luta das nossas vidas”. É um tema “urgente” e que serviu para voltar a criticar o Presidente da República, depois de já o ter feito durante a tarde, em Abrantes a propósito do rio Tejo.

A eurodeputada considera fundamental a existência de uma “ligação entre justiça social e ambiental” por serem “parte integrante do mesmo tema” e permitirem um “encontro de gerações”: aqueles que nunca desistiram de lutar pelo ambiente e os jovens que têm enchido o espaço público. E se os mais novos receberam elogios de Marisa, serviram de ataque ao Presidente, porque participaram numa “autêntica revolução” nos últimos anos com a defesa de vários direitos, mas “são pouco escutados por quem de direito”.

É “estranho”, diz, que haja “uma certa sobranceria de representantes políticos sobre as gerações mais jovens”. Se Marisa fosse Marcelo faria bem diferente. “Se eu fosse Presidente da República teria ido ao encontro dos milhares de jovens pelo clima que responderam ao apelo de Greta Thunberg. É um alerta de sobrevivência e era preciso ter estado lá”, atira.

Sobraram ainda críticas ao Governo devido ao encerramento da refinaria de Matosinhos, com Marisa Matias a recusar que a transição energética seja “temida” como uma “ameaça ao emprego”. “Em vez de fazerem uma política de emprego para salvar o clima e a economia, o Governo usa a transição energética para branquear as decisões da Galp, aumentar os lucros e despedir trabalhadores”, afirma. Falta desenvolver e eletrificar o transporte público, ferroviário e rodoviário, diz, bem como apostar numa nova política agrícola e florestal, proteger os recursos hídricos e eliminar os plásticos descartáveis de uso único. A candidata apela aos “empregos de qualidade em setores com futuro” que permitam a sustentabilidade e a sobrevivência.

De Portugal, a candidata foi até aos EUA para falar de Trump e de “negacionistas” das alterações climáticas que perderam força com a derrota do Presidente norte-americano e principalmente para dizer que “também os temos em Portugal e nas eleições”. “Negar as alterações climáticas é ridículo”, alerta.

A mulher que entrou na política pelas mãos do ambientalismo não abdica da causa, insiste em iniciativas ‘verdes’ e apela ao voto daqueles que querem uma revolução no setor ambiental e em todas as alterações que isso implica na economia e na sociedade.

Marisa atirava adversários ao rio Tejo? Não, mas “ideias poluentes” podiam cair à água

“Os rios não podem ser pilhas para produzir energia para os lucros das grandes empresas hidroelétricas ou caixotes do lixo para a indústria.” As queixas foram ouvidas por Marisa Matias, esta tarde, nas margens do rio Tejo, em Abrantes, quando vários ambientalistas alertavam para os problemas de poluição, utilização abusiva e falta de fiscalização.

Um Tejo sujo e poluído destaca-se na paisagem do local escolhido por Marisa Matias para o encontro com ambientalistas, mas na hora de escolher um adversário para ‘atirar’ ao rio, a candidata opta pelo politicamente correto, dizendo esperar que “estas eleições sejam sobre debate político, argumentário, disputa política, programa”, mas não se ficou por aqui. Marisa não deseja “assim tanto mal a ninguém que os queira ver no meio da poluição do Tejo”, mas deixa cair uma opinião: “Há ideias poluentes e contaminantes nesta campanha e o nosso trabalho é eliminá-las.”

O momento fez recordar o famoso mergulho de Marcelo Rebelo de Sousa no rio Tejo, em 1989, quando se candidatou à presidência da Câmara Municipal de Lisboa. Um dos ambientalistas lembra-se bem e até ironiza: “Dizemos muitas vezes que agora Marcelo já não se podia atirar ao rio Tejo de tão poluído que está.”

Esta iniciativa marca um regresso às origens neste primeiro dia de campanha na estrada. O percurso de Marisa Matias na vida política começou como ambientalista e, agora como candidata a Belém, diz ser “incompreensível” a forma como as instituições tratam o assunto e, por isso mesmo, quer que este esteja no “centro da agenda política nacional” e que Governo, Parlamento e Presidente da República lhe deem o devido valor. “O chefe de Estado tem de ser o primeiro a assumir e a exercer influência” para que estes temas “entrem e fiquem” na agenda, aponta a candidata, anotando ainda uma “ausência de comunicação com o país vizinho” sobre o Tejo, uma critica que atribui a Marcelo Rebelo Rebelo de Sousa.

Ainda questionada sobre a ideia de uma recuperação “justa, verde e digital”, como António Costa se referiu no arranque da presidência portuguesa da União Europeia, Marisa Matias não tem dúvidas de que a “palavra verde está muito reduzida naquele que é o programa que é necessário fazer”. “É preciso uma agenda verde completa e transversal e não uma folha verde na lapela, mas que não ajuda a resolver os problemas de fundo”, atira a candidata a Belém.

Cuidadora informal abre porta de casa a Marisa Matias

A casa de Rosália Ferreira e Liliana foi o ponto de partida do primeiro dia de campanha de Marisa Matias na estrada numa altura em que a pandemia de Covid-19 se tem vindo a agravar. Porquê? A luta de “há dez anos” em nome dos cuidadores informais. Na Charneca da Caparica, em Almada, logo pelas 10h00, a candidata a Belém apoiada pelo Bloco de Esquerda sentou-se na sala de Rosália, uma mulher que há quase 40 anos trata da filha que tem uma doença rara, severa e que não lhe permite andar, falar, ser independente.

“De manhã cedo tenho de higienizar a Liliana, pô-la confortável, se temos consultas – agora não porque é um ano atípico – temos três horas para vestir, lavar, para a levar para o hospital, para toda a logística, são seis horas que se perde. É uma vida complexa, são desafios constantes e a parte emocional é dura também”, conta. São dez transferências de casa de banho todos os dias e a muda da fralda à noite. É um “desafio” que Rosália quer continuar a fazer, mas a “falta de retaguarda” não ajuda.

Rosália já tem o reconhecimento enquanto cuidadora informal, mas, por enquanto, fica por aqui. Não tem qualquer tipo de apoio. Não recebe apoios do estado como apoio informal. “Fiquei exatamente da mesma forma, tenho apenas o cartão que reconhece que sou cuidadora informal”, diz, enquanto Marisa acrescenta: “A grande conquista do estatuto do cuidador é esperarmos que um dia, muito em breve e quando deixar de ser um projeto piloto possa responder às centenas de milhares de pessoas que neste país cuidam dos familiares.”

O estatuto é o “primeiro passo para a dignidade”, mas “falta tudo o resto”, nomeadamente para se dar-lhe “densidade” e “colmatar lacunas”. De fora ficam questões como um cuidador informal chegar à idade de reforma – sem ter sido possível durante muitas fases da vida trabalhar – e “os 40 anos em que se levantou às quatro ou cinco da manhã para cuidar da filha não têm tradução direito que devia ter”.

A prioridade e a grande batalha de Rosália é resolver a questão dos retroativos para a situação contributiva, para que seja considerado (e não esquecido) o que fez no passado, que “o Estado reconheça um trabalho duro e difícil”. “Sinto que me abandonaram, que fica todo o meu tempo para trás”, admite. Mas o caminho não termina assim, há que “limar” o que falta.

O estatuto do cuidador informal foi aprovado em julho de 2019 e estima-se que mais de 800 mil pessoas em todo o país cuidem de familiares a tempo inteiro. O subsídio, que Rosália ainda não tem direito, só chegou a 30 concelhos do país através de projetos-piloto, mas, ainda assim, está longe de chegar ao número de pessoas que podem ter direito a este estatuto. Até ao momento, pouco mais de 100 pessoas receberam o subsídio para o qual foi orçamentado para 2020 cerca de 30 milhões de euros.

Como já havia feito em pleno debate presidencial, Marisa Matias volta a referir que o apoio do Presidente da República à causa dos cuidadores informais veio dar mais “visibilidade à causa”, tendo este sido um dos temas em que a candidata presidencial agradeceu e elogiou a postura de Marcelo Rebelo de Sousa ao longo do mandato.

Depois da visita a casa da Rosália, em que houve cuidado para que se mantivessem as distâncias de segurança, Marisa Matias foi questionada com os aglomerados que se viram nas ações de campanha de João Ferreira e André Ventura e garante que não vai deixar de estar na rua, de ouvir as pessoas, mas com iniciativas adaptadas aos momentos de pandemia que se vivem. Uma é coisa é certa, Marisa recusa não estar na estrada: “Não podemos ficar dentro da caixinha nem da bolha.”

A eurodeputada considera ainda que as medidas tomadas pelo Governo para assegurar que todos podem votar em segurança – tanto os que estão em isolamento profilático como os utentes de lares – são as “necessárias” para que se vote “livremente”.

Este artigo atualizado ao longo do dia