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Mónica Calle, 36 mulheres e a fome de resistência /premium

"Carta" é o novo espectáculo de Mónica Calle, que volta a questionar: como é que se continua? Força e fragilidade ao som de fragmentos de Beethoven. Para ver terça e quarta no D. Maria II.

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Para contornar um eventual confinamento geral, "Carta" pode ser visto estas terça e quarta no TNDMII, em Lisboa

Fotos: Filipe Ferreira

Para contornar um eventual confinamento geral, "Carta" pode ser visto estas terça e quarta no TNDMII, em Lisboa

Fotos: Filipe Ferreira

A pergunta é: como é que se continua? Até porque perguntar como é que se começa seria inútil, como se o ponto-zero existisse, como se não passássemos a vida a carregar malas e angústias nos ombros. Mónica Calle volta a palco — com mais 36 mulheres, entre atrizes, bailarinas e 12 músicas — para pensar o lugar da resistência, superação, fragilidade, o lugar do coletivo enquanto motor movido a amor, uma espécie de biodiesel, de última solução progressista da arte e da humanidade.

Carta, o novo espectáculo de Mónica Calle, vai ter duas antestreias, esta terça-feira, dia 12, e quarta, dia 13, no Teatro Nacional D. Maria II (TNDMII), em Lisboa, às 19h, como que a antecipar aquilo que será, possivelmente, o cancelamento da estreia prevista para dia 14 tendo em conta o aparente confinamento geral em que o país vai entrar nos próximos dias. E não é isto também um gesto de resistência e um momento profundamente simbólico? Quase como se nos dissessem que o mundo vai acabar amanhã e aproveitássemos para fazer tudo o que podemos antes do relógio chegar ao fim:

“É uma equipa enorme, é um projeto que tem que ver com a construção, a acumulação, ir juntando. De repente, sou apanhada por uma circunstância em que aquilo que foi proposto há muito tempo — que é trazer cada vez mais pessoas, misturando gente e materiais, tudo isto vai crescendo — choca com o discurso vigente que é: ‘Não podes estar junto’; ‘Não podes tocar’; ‘Não pode haver grupos’. Eu também não sei muito bem o que vai fazer, mas sei que vou fazer isto, naquele palco. Sim, isto é simbólico, não foi previsto, mas este trabalho é exatamente tudo aquilo que todos nós temos andado a viver”, admite.

Deslocando o nosso olhar para o palco, vemos, ao fundo, 30 intérpretes despidas, iluminadas pelas suas costas, alinham-se como se estivessem prontas para partir. E esta é uma imagem com tanto de belo como de profundo, a estética dura uns minutos apenas para ser substituída por um rito de comunhão, quase antropológico, que se acentua assim que começam a correr em direção à boca de cena, recuando depois de costas, isto sem parar, numa prova de superação física — e até semelhante àquilo que na escola se chama de vai-vem, mas, claro, sem o protocolo formal do ensino e sem a presença castradora do patriarcado. Portanto, também aí: como é que se continua?

Gradualmente, vão ficando à boca de cena e começam um coro — simples, mas tão bonito e harmónico — que serve de ritmo e de ânimo para as pernas de quem fica a correr. As músicas, uma de cada vez, vão saindo da formação-coro para irem buscar os seus instrumentos que começam a tocar — fragmentos da Sétima Sinfonia de Beethoven — nas laterais meio escondidas do palco descoberto da Sala Garrett do TNDMII. E eis que se inicia o movimento resistência, duracional, que talvez possa ser descrito como algo pendular, onde a planta do pé esquerdo toca o chão de forma relativamente oblíqua enquanto que o pé direito nunca toca totalmente no chão, apoiando o seu peso apenas na sua frente, que vai subindo e descendo. E por ali se vai ficando.

"Casa" quer pensar o lugar da resistência, superação, fragilidade, o lugar do coletivo enquanto motor movido a amor, uma espécie de biodiesel, de última solução progressista da arte e da humanidade

Algo que já vinha de Ensaio para uma cartografia ­— com passagem, em 2017, pelo TNDMII —, processo que Mónica Calle iniciou em 2014 com algumas das atrizes aqui presentes e que a fez chegar até aqui. “A grande diferença é que se em 2014, quando comecei este processo, na realidade passava por uma questão um bocadinho mais reduzida, que tinha que ver com a vida, sempre teve, mas que estava mais ligada a mim, à estrutura Casa Conveniente, à transformação de Lisboa. E isso correspondia, obviamente, a uma transformação de uma sociedade, que estava a acontecer. Agora há uma evidência, tudo aquilo que era percetível caiu-nos a todos em cima, os sinais estavam lá todos”, comenta.

Se estavam. E agora aqui andamos, rezando para que ainda não sejam 23 horas, que o senhor João do café da rua seja simpático e feche os olhos, vendo espectáculos ao sábado de manhã, e até, curiosamente, sem turistas. Tudo acaba a dar a volta, não é? “Hoje há uma série de coisas que nos ultrapassam, estamos todos a ser conduzidos para esta impossibilidade de tomar decisões, é das situações mais assustadoras. Tens umas estruturas, ou seja, o Governo, que toma conta da tua vida toda em todos os sentidos. Através de uma ideia de segurança, do não-risco, que conduz ao medo. O domínio sobre os seres humanos é transversal: na tua intimidade, na tua sexualidade, no teu pensamento, na tua capacidade de escolha”, diz Calle.

A mesma que nos diz, que perante tudo isto já quase não consegue falar sobre o seu trabalho, porque parece absurdo falar sobre isso agora. Como se fosse possível dissociar tempos e conteúdos. Em Carta temos uma equipa de mais de 40 pessoas que a única coisa que encontram viável é estar junto, é tocar — e quão paradoxal é isto tudo. “Acho que a grande luta neste momento é não permitir que a vitalidade, a alegria e a busca destas pulsões morram”, afirma.

Lá assumimos as vestes do jornalista chato que pede dados mais concretos, porque a filosofia e o pensamento largo nem sempre são amigos de um texto. Carta é um outro lugar e o mesmo lugar, tudo em simultâneo. Além dos contrabaixos e violoncelos, há agora fagotes, flautas, tímpanos — direção musical de Martim Sousa Tavares —, há muito mais massa humana. É isso: massa. Não tanto os fusilli ou os orecchiette, mas a massa enquanto organismo flexível e inquebrável, uma tela fulgurante e que promove o empoderamento. Para Calle, isto não é o Ensaio para uma cartografia.

"A grande luta neste momento é não permitir que a vitalidade, a alegria e a busca destas pulsões morram", diz-nos Monica Calle

“São 7 anos e a cada ano fomos alterando/acrescentando coisas. Existe, pela primeira vez, a nossa voz, que nunca existiu pela primeira vez. Há mais instrumentos. No que à música diz respeito, estamos só a trabalhar a Sétima Sinfonia de Beethoven, todos os materiais vêm daí, enquanto que antes eram coisas de vários sítios. Havia uma voz exterior, com um discurso sobre a vida dos maestros. Portanto, hoje não há nada que venha de fora, não há gravações, não há som, é tudo aquilo que somos capazes de fazer até este momento. Isso é uma grande alteração. E no Ensaio para uma cartografia foi acontecendo uma coisa evidente de explorar a tentativa, a falha, e de trabalharmos sobre materiais que não são os nossos, era um trabalho que era mais exposto e ao mesmo tempo com muita força e superação. O que eu sinto é que a falha, a resistência, a fragilidade estão aqui de forma mais subtil. Estou agora a pensar sobre isso, nem sei se estou certa.”

A resistência está prevista que prossiga mesmo depois deste momento no TNDMII. De 3 a 7 de março, no anfiteatro ao ar livre da Culturgest, esperemos que aconteça O Escuro Que Te Ilumina, um trabalho em espaço público, que teve como mote a recuperação de Bruno Candé Marques depois do coma a que esteve submetido na sequência de um acidente em 2017, quando foi atropelado de bicicleta no regresso a casa. O ator que foi assassinado dia 25 de julho de 2020, sob motivos racistas.

“Esse trabalho teve que ver inicialmente com o [Bruno] Candé, foi preparado em 2018, e foi pensado na recuperação dele, daí a ideia do Escuro que te ilumina, que é um título roubado ao José Riço Direitinho, mas que me pareceu uma coisa muito certa, perguntei-lhe se podia trabalhar sobre o título. É mesmo esquisito, isto. Várias pessoas desta equipa começaram a fazer uns workshops para um dia arranjarmos dinheiro para fazer este espectáculo. Foi exatamente uma semana antes de começarmos a fazer os workshops que não conseguimos entrar no nosso espaço na Zona J, então vamos todos para a rua. Depois fizemos uma vez em Julho de 2018, foi a primeira vez que o Candé voltou a trabalhar depois de ter vindo do coma, com muitas debilidades e ele só dizia ‘qual fisioterapeutas, nada como um workshop’”, conta.

E este é um trabalho que parte de narrativas individuais para se espraiar coletivamente, numa imagem geral vulga soma de pequenas histórias físicas: “Cada intérprete tem uma narrativa, o escuro que ilumina cada um. São essas narrativas individuais que depois se expandem, a maneira como toda a gente se expôs, sem se conhecer, foi extraordinário. Foi sempre feito em improvisos e encontram-se pontos de contacto na imagem geral. Depois voltámos a fazer em novembro, no inverno, e foi incrível, estava frio, numa noite em que choveu torrencialmente e que tínhamos público. E por isso propus fazer isto ao Mark [Deputter] fora do edifício, naquele auditório exterior. Espero que chova e que se possa fazer”, conclui. Esperemos que chova.

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