Artigo atualizado ao longo do dia

Com o dia dedicado ao Minho, João Ferreira começou com uma reunião à porta fechada na Escola Superior Agrária de Ponte de Lima, em Viana do Castelo, para depois falar sobre as assimetrias regionais que se notam “até a poucos quilómetros da costa”. É o que acontece aqui, a cerca de meia hora do oceano Atlântico, há lamentos sobre o despovoamento e a constatação que aquilo que está inscrito na Constituição — que, notou João Ferreira, “atribui ao Estado a responsabilidade de progressivamente eliminar desigualdades”— não está a ser cumprido. “Caminhamos no sentido oposto ao que diz a Constituição”, afirmou o candidato presidencial.

Com os alunos a espreitar aqui e ali a movimentação de jornalistas, numa manhã em que as estradas ainda estão cobertas por uma camada de gelo, o sol ajuda a aquecer e nesta escola superior há ainda outro objetivo. João Ferreira não põe de parte a formação em biólogo e, depois de ontem ter recolhido o apoio de quase 300 ecologistas, está na Escola Superior Agrária de Ponte de Lima para chamar à atenção para a ligação que existe entre o “ensino e os setores produtivos”. “O compromisso com as questões ambientais tem que ser transversal, a questão das alterações climáticas, as questões da produção, do ensino e da investigação todas têm ligação aos setores produtivos”, apontou João Ferreira.

E a sessão online que fechou o último dia de campanha deu também trunfos para as declarações desta manhã. Disse o candidato presidencial que “foi alertado” pelos empresários que participaram na sessão que “são anunciados novos apoios antes mesmo que os anteriores cheguem a quem deles precisa” e que é “preciso ter cuidado” com o anúncio sucessivo de apoios.

Sobre a entrada num novo confinamento geral e o anúncio do encerramento de todos os eventos (exceto as missas e de campanha eleitoral), João Ferreira discorda da opção. “Se forem dadas todas as garantias de segurança para os trabalhadores da cultura e espetadores, não há razão para que [os espetáculos] não aconteçam”, afirmou o candidato que, ainda assim, diz que no caso de serem fechados têm que receber “compensações”.

“Não podemos permitir que se mate a cultura neste país”, disse João Ferreira frisando que os problemas no setor não são resultado só da pandemia uma vez que já antes não se seguia aquilo que a Constituição prevê para a área cultural.

Questionado ainda sobre as categorizações feitas na quarta-feira por André Ventura, João Ferreira recusou comentar. “Disse desde o início que diz que não estou aqui para despiques estéreis, não me vou desviar um milímetro do objetivo que fixei”, afirmou o candidato presidencial.

Dos estaleiros de Viana à fábrica de pneus da Continental: a preocupação de João Ferreira não é exclusiva desta campanha eleitoral

Essa é, pelo menos, a ideia que o candidato quer que fique clara: Não foi só agora que percebeu a dificuldade dos trabalhadores e tem marcado presença ao longo do tempo para expressar solidariedade com estes e “apoiar as lutas”. E quando ouve um ex-trabalhador dos estaleiros navais de Viana do Castelo mais irritado com a falta de atenção para os problemas que por ali se viveram tem a resposta na ponta da língua: “Dia 24 é dia para ajustar contas”.

Diz João Ferreira que as “lutas são para ser levadas até ao voto” e veio até à fábrica da Continental Mabor para clarificar isso mesmo. Quando durante a primeira fase da pandemia os trabalhadores foram confrontados com a hipótese de verem os horários alterados e os salários reduzidos “a pretexto da pandemia” João Ferreira teve intervenção junto do Parlamento Europeu (em junho veio mesmo até ao local para expressar o seu apoio aos trabalhadores). Esta quinta-feira veio ouvir uma história diferente: os horários e os salários não tiveram alterações. Da mão de alguns funcionários recebeu “de forma simbólica” um panfleto de apoio à sua candidatura e garantia de votos.

Esta luta, pelo menos, está ganha para o candidato apoiado pelo Partido Comunista Português. Agradeceu e frisou que “esta candidatura a um cargo unipessoal não é de um homem só”.

Não vai ficar tudo bem porque “já estava tudo longe de estar tudo bem”

Os arco-íris na janela e as mensagens de encorajamento não convenceram João Ferreira. No que à cultura diz respeito, claro está. Em mais uma ação da campanha dedicada à área da cultura, a caravana do candidato comunista ouviu pessoas da área do folclore e poetas. Mas não foram escolhidos ao acaso. Dois deles são ex-vereadores municipais em Guimarães, com ligações à cultura. Não foram eleitos pela CDU, mas sim pelo Partido Socialista.

Apresentaram-se atrás do púlpito para alertar para os problemas que o setor da cultura atravessa e demonstrar apoio a João Ferreira. Tem sido uma campanha profícua em demonstrar socialistas que optarão por colocar a cruz em João Ferreira no dia 24.

Na noite em que se falou “num folclore diferente da política do folclore ou do folclore político”, João Ferreira quis alertar para as áreas da cultura que têm sido esquecidas, como as associações populares. Recordou o candidato à presidência que a Constituição reconhece o movimento associativo de base popular e, portanto, um Presidente da República não pode esquecer-se dela.

“Um povo informado e culto contribui para uma melhor democracia”, notou João Ferreira que já tinha dito que não queria “a cultura morta”. Concordando com a necessidade de voltar a confinar o país, o candidato não percebe no entanto porque é que o Governo optou por proibir todos os eventos culturais. “O risco não é maior que noutras atividades que estão a ser permitidas”, disse. Ora, os únicos eventos alvo de exceção pelo Governo foram os eventos de campanha eleitoral e as atividades religiosas.

Este artigo foi atualizado ao longo do dia