Na primeira semana do ano, entre 4 e 10 de janeiro, Portugal registou a maior taxa de testes positivos de toda a pandemia: 16,55% de todos os testes realizados nessa semana tiveram resultado positivo para a infeção com SARS-CoV-2, segundo os dados do Centro Europeu para a Prevenção e Controlo da Doença (ECDC). Já os dados da Universidade de Johns Hopkins, na plataforma Our World in Data, mostram que a taxa de positivos continuou a subir: atingindo um máximo de 17,7% no dia 13 de janeiro (média de sete dias).

Nos dias 11, 12 e 13 de janeiro, a média a sete dias, foi superior a 17% de testes positivos no total de testes realizados — Our World in Data/Johns Hopkins University

Desde a primeira semana de outubro, que começou no dia 5, que o país tem uma taxa de positividade superior a 5%, segundo os dados do ECDC. A taxa de testes positivos de 5% foi usada como referência pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em maio. A recomendação da organização era que os países só reabrissem ou terminassem o confinamento depois de terem registado pelo menos duas semanas seguidas de testes positivos abaixo dos 5%. O ECDC, por sua vez, constrói os mapas com base numa taxa superior ou inferior que 4%.

Quase toda a União Europeia tem uma taxa de testes positivos por testes realizados superior ao que seria desejável (4%, segundo o ECDC) para conter a pandemia (dados de 14 de janeiro) — ECDC

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Durante a primeira fase da pandemia, Portugal esteve cinco semanas com a taxa de testes positivos acima de 5%, entre 2 de março e 12 de abril, tendo o máximo neste período sido 10,64% (na semana de 23 a 29 de março). Nesta altura, contudo, eram realizados muito menos testes: 58.991 na semana de 30 de março a 5 de abril, contra 588.404 (quase 10 vezes mais) na semana de 16 a 22 de novembro — semana em que foram feitos mais testes de todo o período da pandemia.

Entre 26 de outubro e 6 de dezembro, a taxa de testes positivos por semana variou entre 5,5 e 7,4% e os testes superaram os quatro mil por 100 mil habitantes (entre 4.314 e 5.726 por 100 mil). Nas últimas semanas do ano (de 7 de dezembro a 3 de janeiro), no entanto, foram realizados menos de três mil testes por 100 mil habitantes (entre 2.379 e 2.705 por 100 mil).

Na primeira semana de 2021, até 10 de janeiro, foram realizados um total de 348.508 testes, o que representa 3.391 por 100 mil habitantes — menos mil do que um mês antes, segundo os dados do ECDC. Com estes testes foram identificados 57.670 casos de infeção que representam 16,55% de casos positivos.

Carlos Antunes: “Perdemos cerca de 2.500 casos por dia”

A elevada taxa de testes positivos e o facto de o número de mortes e internamentos estar a aumentar, sem que os novos casos diários aumentem também, faz Carlos Antunes, professor e investigador na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL), acreditar que o número de novas infeções está subestimado.

Perdemos cerca de 2.500 casos por dia. E só cerca de 30% chegam a ser apanhados porque desenvolvem sintomas”, diz Carlos Antunes, referindo-se aos rastreios e testes que ficam por fazer.

Além disso, conta o investigador, existem cerca de 15 mil inquéritos epidemiológicos por fazer. Ou seja, há 15 mil pessoas que tiveram contacto com uma pessoa infetada e que não foram contactadas para que lhes fosse feita a avaliação de risco e dadas as devidas recomendações em relação ao isolamento. Sendo que só se consegue controlar a propagação quando se quebrarem as cadeias de transmissão, sublinha Carlos Antunes.

São 15.000 cadeias de transmissão [potenciais] que não quebrámos”, diz o professor.

O investigador que tem estudado os números da pandemia e criado modelos para prever a evolução nas semanas seguintes, lembra ao Observador que no dia 24 de dezembro registaram-se quase 4.400 casos de infeção, a 31 de dezembro mais de 7.600 e que apenas uma semana depois os casos diários ultrapassaram os 10.000 e parecem ter-se fixado aí.

Portugal num “falso planalto”, pode ter tantas mortes por Covid-19 em dois meses como teve nos últimos 10

O epidemiologista Manuel Carmo Gomes, que tem criado os modelos em conjunto com Carlos Antunes, disse à rádio Observador, esta segunda-feira, que “estamos a entrar num falso planalto causado por esta incapacidade de acompanhar o número real de casos que estão a ocorrer”. Ou seja, a incapacidade de realizar os inquéritos epidemiológicos, que avaliam os contactos de risco e encaminham casos suspeitos para serem testados, por falta de recursos humanos, faz com que esta desaceleração no número de novas infeções seja um artifício matemático.

“Podemos chegar aos 200 mortos por dia daqui a uma semana”

218 mortes em 24 horas estão em linha com a previsão

Os cálculos de Carlos Antunes e Manuel Carmo Gomes estimavam que, a 24 de janeiro, Portugal estaria a contar 200 mortes por dia. Um dia depois do epidemiologista Manuel Carmo Gomes falar à rádio Observador, o boletim epidemiológico da Direção-Geral da Saúde registou 218 mortes. O engenheiro Carlos Antunes explica agora que este registo, ainda assim, encaixa dentro do modelo. “Estamos com uma média corrida [a quatro dias] de 176 mortos”, diz.

No último dia morreram 9 doentes por hora com Covid-19. É o dia com mais mortes desde o início da pandemia

Os dois professores e investigadores da FCUL têm-se dedicado a elaborar modelos que permitem prever o número de infetados, mortes e internamentos num futuro próximo (uma ou duas semanas depois) com base nos dados conhecidos até ao momento, mas a pandemia tem evoluído a uma velocidade tal que antecipa as previsões e os obriga a rever e a ajustar o modelo, explica Carlos Antunes. Esse ajuste acontece sempre que é preciso e caso as mortes se mantenham acima das 200 por dia também será feito.

Basta haver um impacto num indicador, como o colapso dos serviços de saúde, para haver uma alteração na mortalidade”, exemplifica o investigador.

Sobre a previsão das 200 mortes diárias — ultrapassada esta terça-feira —, Carlos Antunes explica que se trata de uma média a sete dias, ou seja, o dia 24 de janeiro, os três dias antes e os três dias depois. Não quer dizer que nestes sete dias se registem sempre um número igual ou superior a 200, mas que rondam este valor e a média a isso corresponde.

A média dos últimos sete dias (de 13 a 19 de janeiro), por exemplo, é de 166,6 mortes. Na próxima semana, estimam os investigadores será de 200 mortos diários e daqui a duas semanas, no início de fevereiro, pode ser de 230. “Mas ainda é tudo muito incerto”, acautela Carlos Antunes.

O futuro (a curto prazo e com confinamento) da pandemia: 14 mil casos, 150 mortos e 700 doentes em cuidados intensivos por dia