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O Theatro Circo, em Braga, foi palco de mais um comício virtual de Marisa Matias, que foi transmitido em mais uma sala icónica do país, mais uma vez com as cadeiras vazias e apenas o ecrã atrás do púlpito cheio de gente. Hoje o discurso tinha como alvo a corrupção e a fraude, os “donos disto tudo”, a necessidade de haver “tolerância zero à promiscuidade e desigualdade”.

“O privilégio é desigualdade, é promiscuidade e é um sistema que inclui a fraude e a corrupção. O privilégio é um regime e é a regra e não a exceção. Este é um problema da qualidade da nossa democracia. Não é apenas porque há algumas maçãs podres na cesta, é mesmo um problema da cesta”, explica a candidata do Bloco de Esquerda, frisando que “não é erro do Governo”, é a “história permanente da política em Portugal”.

O sistema que existe em Portugal “produz desigualdades”, desde logo porque “a fraude e a corrupção roubam ao investimento público, à saúde, à educação e ao emprego”, e Marisa Matias quer uma resposta a este problema nas urnas, quer um voto “pela justiça”. Aliás, pouco depois do arranque, a candidata até recorda o antigo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho para lembrar que pediu a Portugal para empobrecer.

Entre as críticas, “portas giratórias” que ligam políticos, a banca e grandes empresas e os nomes não ficaram por dizer porque “as opções contam”, Maria de Luís Albuquerque, Ferreira do Amaral, Paulo Portas, Durão Barroso ou Luís Amado

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Para a candidata do BE, “os nomes contam porque as opções contam”, tendo feito questão de elencar um conjunto de nomes que acusa de circular “entre as portas giratórias” entre política e empresas ou banca, como Ferreira do Amaral, Paulo Portas, Durão Barroso, Maria de Luís Albuquerque ou Luís Amado, todos fazem parte, diz, de um “regime de privilégio [que] vive da conivência, fraude e crime”.

“Os senhores da fraude trouxeram para casa seis mil milhões, bem lavadinhos, mediante uma taxa de imposto inferior a 7%, ficando ilibados de quaisquer responsabilidades da declaração do dinheiro em Portugal”, acusa, frisando que “a fraude e a corrupção roubam ao investimento público, à saúde, à educação e ao emprego”.

“Eu compreendo bem as dificuldades comuns a tanta gente, de não saber se tem dinheiro para chegar ao fim do mês, para pôr comida na mesa, para aquecer a casa, para poder garantir que os filhos têm uma educação decente”, afirmou e, por isso, como tem “falado do futuro” quis trazer o passado do regime político que permitiu que chegássemos aqui”.

No comício de Braga marcou presença Catarina Martins, que não falou mas veio para apoiar Marisa Matias, mas também Mariana Mortágua e Francisco Ramos, coordenador da Task Force para o plano de vacinação contra a Covid-19 e ex-secretário de Estado do PS.

É “extraordinário” que Ventura ache que este “é o momento de inventar parvoíces”

O cenário da cuidadora informal de Almada, no primeiro dia da campanha, repete-se no Porto, com uma ama reformada da Segurança Social. Camila Gouveia, com duas máscaras na cara, abre a porta de casa a Marisa Matias, sentam-se na sala, longe uma da outra. Naquele chão brincaram muitos miúdos, normalmente quatro de cada vez. “A sala estava diferente para eles terem espaço para brincar”, conta Camila, que continua a descrição: “A cozinha é ampla onde eles comiam e o quarto tinha caminhas para dormirem.”

É com carinho e emoção que a ama recorda aqueles tempos. “Gostava muito” daquele trabalho. Mas não eram só vantagens. Camila Gouveia foi uma das mulheres que lutou pela integração das amas na Segurança Social, na função pública. Marisa Matias “já a conhecia das manifestações, foi uma das grandes mobilizadoras”, e a reformada, de 68 anos, confirma: “Acho que estive em todas, aqui no Porto, Braga, Lisboa.”

Camila Gouveia queria justiça para quem trabalhou 28 anos a recibos verdes. Foi uma “luta de quatro ou cinco anos”, recorda, e quando a reforma chegou veio também o contrato. “Estava lá para eu assinar, com muita pena minha, porque isso acarretou perder várias benesses que já merecíamos há muitos anos”, explica, assegurando que “a reforma será contabilizada de outra forma porque ficou como recebo verde”.

“É muito injusto. É o próximo passo, vou apelar mais uma vez a quem nos pode ajudar”, diz, com a certeza de que não desiste de lutar por direitos, mesmo quando já está reformada. Contudo, e apesar do caso em específico, Camila diz que “valeu a pena todo o sacrifício”, até porque houve reconhecimento de 277 amas neste processo. “Não fui beneficiada, mas tive o benefício de saber ‘sim, senhor, mulheres vencemos’”, aponta a ama, que ficou com uma pensão de 466 euros.

Marisa Matias considera que a integração destas amas na Função Pública “é um dos exemplos do melhor que aconteceu em Portugal nos últimos anos”, nos anos da ‘geringonça’, um “período e contexto em que pudemos fazer avanços, recuperação de salários, avanços em relação ao que foi garantir melhores pensões para as pessoas que trabalharam a vida inteira”.

Após a visita a casa de Camila, e de volta ao tema das acusações de André Ventura sobre espionagem do Bloco de Esquerda durante a campanha, Marisa Matias, depois de um suspiro de pausa, foi peremtória: “Estamos a viver o pior momento da pandemia, e é extraordinário que no pior momento que estamos a viver no país o candidato da extrema-direita ache que é o momento de inventar parvoíces. Até posso perceber que esteja com medo, que as coisas não lhe estejam a correr bem, mas inventar mentiras só para ganhar tempo de antena numa altura como estas é muito mau, é muito feio.”

Questionada sobre as questões das escolas, quando o país está a viver “momentos muito difíceis”, a candidata apoiada pelo Bloco de Esquerda insiste que se devem “sempre seguir as indicações das autoridades de saúde e especialistas”. O consenso não existe e o Governo optou por manter as portas das escolas abertas, mas Marisa deixa um alerta: “Se a indicação for nesse sentido devemos segui-la sem hesitação.”.

Ainda sobre o voto, a candidata apoiada pelo Bloco de Esquerda espera que “as pessoas se sintam seguras e com confiança para exercer o direito de voto” e considera que ir às urnas é “uma das atividades essenciais da democracia”, pelo que os portugueses têm de ter condições para sair de casa.

Apesar das “circunstâncias muito particulares”, Marisa explica que “infelizmente a abstenção não é um problema apenas destas eleições, já vem de trás, de outras eleições”. “Quando olhamos para níveis de abstenção em eleições europeias, por exemplo, percebemos a gravidade desse problema e espero que estejam reunidas condições para que haja menor abstenção”, assegurou.

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