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No penúltimo dia de campanha eleitoral, João Ferreira voltou a receber Heloísa Apolónia, a mandatária nacional que tinha aparecido na caravana numa iniciativa com ecologistas, em Lisboa, que apanhou a boleia e ficará até ao fim. A ex-deputada d’Os Verdes que assumiu o papel de mandatária nacional na campanha de Ferreira apanhou a caravana a Norte para repetir que a candidatura de João Ferreira traz “coragem, confiança e um verdadeiro horizonte de esperança”. Num discurso perante uma sala bem composta em São Paio de Merelim, num dia em que o Governo anunciou o encerramento total das escolas para fazer frente à propagação da Covid-19, Heloísa Apolónia constatou que João Ferreira foi o único candidato a fazer “o óbvio de assumir a Constituição como programa eleitoral” e que “quer no exercício do mandato presidencial cumprir essa Constituição”.

De manhã, em Vila Nova de Gaia, João Ferreira já tinha ouvido advogados, enfermeiros, funcionários da área dos transportes e carteiros, todos trabalhadores de serviços públicos. Em comum tinham lamentos pela desigualdade, pela falta de atenção, pelo desinvestimento e, sobretudo, pelo impacto que isso tem na população. Faltam enfermeiros e a pandemia colocou isso em evidência, o desinvestimento nos transportes também fica mais visível com a sobrelotação quando devia ser garantido o distanciamento e o acesso à justiça, como já tinha dito João Ferreira, não é para todos.

Ângela Moreira, enfermeira no hospital de Gaia relatou aquilo a que assiste, frisando que não é uma coisa recente ou sequer consequência da pandemia. “A diferença é que agora há ainda um maior atropelo aos nossos direitos, tudo podia ser diferente se não tivessem empurrado enfermeiros para a emigração, se não tivessem saído do SNS à procura de melhores condições”, apontou a enfermeira. Depois o advogado João Fernandes deixou claro que o apoio dado no acesso à justiça não é válido, por exemplo, se num casal ambos receberam o salário mínimo. É a justiça “que não chega a todos”, como frisou João Ferreira. Sobre os transportes públicos alertas para o desinvestimento e a sobrelotação de transportes especialmente em tempos onde é essencial manter a distância.

Na intervenção final, João Ferreira recordou o texto da lei fundamental e a importância dos serviços públicos que, faltando, “contribuem para agravar as desigualdades sociais”. “Não há desenvolvimento sem bons serviços públicos”, apontou. Mas havia mais a dizer sobre a forma como se olha para os serviços públicos “essenciais na vida do país”. Ferreira quis deixar claro que “não são uma espécie de dádiva”. “São parte do que se pode chamar salário indireto. São garantidas com os salários dos trabalhadores. O que não é pago recebem com serviços públicos, por exemplo nos hospitais, nos transportes”, fez questão de clarificar o candidato, para que dúvidas não restassem sobre o acesso aos serviços que o Estado tem que garantir”, apontou.

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Com uma agenda repleta de ações para este penúltimo dia de campanha, João Ferreira vê-se forçado a fazer alterações. Na quarta-feira das seis ações anunciadas inicialmente passou a cinco (tendo uma delas passado a formato online). Já esta quinta-feira o encontro com o escritor Valter Hugo Mãe foi cancelado “por questões de saúde” do escritor, sem mais detalhes, tendo sido o apoio transmitido ao candidato através de uma publicação no Facebook (a informação inicial era a de que seria transmitida em vídeo).

Apoio público do escritor Valter Hugo Mãe a João Ferreira

Ainda antes de viajar até ao distrito de Braga, João Ferreira deixou em Leça do Balio fortes críticas a Marcelo Rebelo de Sousa. No concelho de Matosinhos, João Ferreira diz que “não se compreende que não haja uma palavra do Presidente da República” sobre o encerramento da refinaria. Aponta que o encerramento não acontece pelas questões ambientais que são apresentadas, já que o transporte dos produtos refinados que o país não vão deixar de consumir irá acrescer à produção destes e frisa que numa altura em que “ainda não há noção do real alcance do impacto económico social da pandemia” não se admite a destruição de “milhares de postos de trabalho”, diretos e indiretos, com o encerramento da refinaria em Matosinhos.

Que não haja da parte do Presidente da República uma palavra a dizer sobre isto também não se compreende. Sabemos que os seus afetos nunca penderam muito para o lado dos trabalhadores, mas numa altura como esta, tendo em conta o impacto que pode ter uma decisão destas no país não se percebe que não haja da parte do Presidente da República uma palavra sobre este assunto”, disse o candidato presidencial.

Em São Paio de Merelim houve lágrimas do presidente da junta

Carmindo Soares presidente da União de Freguesias de Merelim São Paio, Panóias e Parada de Tibães, em Braga, não conseguiu esconder a emoção por receber um candidato presidencial nas instalações da junta de freguesia. Agradeceu a presença da caravana de João Ferreira e a sala cheia para o ouvir, deixou convite para que Ferreira possa voltar e disse-se “orgulhoso” por ter recebido um candidato presidencial na freguesia.

Na mesma sessão José Manuel Mendes, presidente associação portuguesa de escritores, falou na “circunstância escura” em que Portugal vive. “Há sombras que se erguem e quem as valorize. No contexto em que nos inserimos há quem entenda que Portugal não tem de ser mais que a expressão do condómino que domina a Europa”, disse antes de se fazer da sua condição de jurista para enaltecer a “grande competência técnica” de João Ferreira na interpretação da Constituição.

Numa longa intervenção, mas nem por isso muito entusiasmada, João Ferreira diz que “não é na Constituição que estão os problemas do país”, mas sim no facto de não ser cumprida. Com a mensagem inteiramente centrada no texto da lei fundamental — em qualquer que seja a área — o candidato frisa e torna a frisar que os problemas do país são consequência do “não cumprimento” daquilo que está escrito na Constituição da República. E a solução está no voto no “penúltimo quadrado” a contar do fim, como recorda o candidato. Nesta reta final o apelo ao voto tem sido mais frequente, Ferreira vai frisando que além da herança de luta contra o fascismo, a sua candidatura é também “espaço de convergência” de vários quadrantes políticos.

João Ferreira não fechou o penúltimo dia da campanha sem voltar ao tema da cultura. Com uma sessão online — que inicialmente estava marcada para a Casa da Música, no Porto — Ferreira voltou repetiu aquilo que diz a Constituição sobre a cultura e o acesso. Segundo a lei fundamental todos têm direito à “criação e fruição cultural” e cabe ao Estado “eliminar barreiras de acesso” algo que, notou o candidato presidencial, não tem acontecido com os últimos Presidentes da República.

Artigo atualizado ao longo do dia