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O valor da afluência às urnas registado até às 12h acalentou a esperança de que a abstenção nas presidenciais deste ano, afinal, não seja assim tão elevada como se chegou a temer: até ao meio-dia, já tinham votado 17,07% dos eleitores inscritos, um valor acima dos 15,82% registado à mesma hora nas eleições de 2016.

Foi a maior afluência às urnas registada até ao meio-dia desde as presidenciais de 2006, que elegeram Cavaco Silva. Contudo, através da rede social Twitter, o cientista político Pedro Magalhães, especialista em sondagens, alertava: “Calma com grandes conclusões com a afluência às 12h”. E acrescentava: o valor às 16h será “muito mais sólido”.

De facto, às 16h, a tendência pareceu inverter-se. Até às quatro da tarde, tinham votado 35,44% dos eleitores inscritos, um valor inferior ao registado à mesma hora em 2016. Há cinco anos, pelas 16h já tinham votado 37,69% dos eleitores inscritos.

Afluência até às 16h00 é de 35,4%, abaixo da verificada em 2016 apesar de terem votado mais pessoas

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Um facto ajuda a explicar que o valor registado às 12h possa ter dado uma imagem enganadora da real afluência às urnas na eleição: aquele valor já incluía o número de eleitores que votaram antecipadamente, no fim de semana passado. Mais de 246 mil pessoas inscreveram-se para o voto antecipado, um número recorde na democracia portuguesa.

“Mesmo assim, 17,1% às 12h continua a ser encorajador na comparação com eleições anteriores desde 1991 em que o Presidente era candidato, e onde, em cada uma delas, a abstenção tinha aumentado aproximadamente 15 pontos em relação à eleição anterior”, analisava Pedro Magalhães na mesma rede social.

Ainda que os valores registados às 16h sejam inferiores aos valores de 2016 à mesma hora, o que parece certo é que a abstenção total será inferior às piores previsões feitas devido à pandemia da Covid-19.

Pedro Magalhães assinala ainda uma outra conclusão que já pode ser retirada a partir destes valores. “Com uma afluência de 35,4% às 16h, já sabemos uma coisa: um ciclo foi interrompido. O ciclo iniciou-se em 2001, através do qual eleições com presidentes candidatos tinham participação muito inferior à eleição anterior. Esse ‘muito inferior’ não vai ocorrer”, escreveu o especialista.

Menos percentagem, mas mais votantes

Apesar de a percentagem de afluência registada às 16h ser inferior à de 2016, o número absoluto de eleitores que já tinham votado é superior — porque o universo de eleitores aumentou significativamente este ano devido ao recenseamento automático de todos os portadores de cartão de cidadão. Isto fez com que o número de eleitores inscrito aumentasse de modo considerável, sobretudo no estrangeiro, onde a abstenção costuma ser mais elevada devido aos constrangimentos associados à votação — em embaixadas e consulados.

Enquanto em 2016 o total de eleitores inscritos era de 9.741.377, este ano são 10.856.010 — mais de um milhão de eleitores adicionais em comparação com há cinco anos.

Fazendo as contas, percebe-se que às 16h de hoje já tinham votado 3.847.370 eleitores; em 2016, pela mesma hora, haviam votado 3.671.525 eleitores. São mais de 175 mil eleitores a mais à mesma hora deste ano.

Na análise destes números importa ter em consideração que foi no estrangeiro que o universo de eleitores mais aumentou, de forma automática, e é entre esses eleitores que se espera uma maior abstenção. Significa isto que a mobilização eleitoral no território português está, neste momento, a ser maior do que foi em 2016.