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Num momento em que se fazem todos os esforços para conter a pandemia, toda a ajuda é bem vinda — nem que esteja escrita num papiro com 3.500 anos. O açafrão selvagem é um dos tratamentos para as cerca de 80 doenças descritas no papiro de 19 metros e um derivado dessa planta medicinal está a ser testado como tratamento contra a Covid-19.

A colquicina, a molécula em estudo, já foi usada em humanos, mas com outro objetivo: começou a ser usada nos anos 1980 como anti-inflamatório para aliviar os sintomas da gota, resultado de uma acumulação de ácido úrico nas articulações. Atualmente, também é usada “off-label” para algumas doenças cardíacas (não é a indicação terapêutica principal do medicamento, mas parece ter alguns benefícios).

E foi exatamente do Instituto de Cardiologia de Montreal (MHI), no Canadá, que saiu a notícia de que a colquicina poderia ser usada em doentes Covid-19 que não tenha sido hospitalizados. Os resultados, no entanto, devem ser vistos com cautela porque ainda não foram revistos por cientistas independentes.

Os investigadores verificaram que comparando o uso de colquicina com o de um placebo, num grupo de 4.159 pessoas com infeção confirmada por um teste PCR, havia uma redução de 25% nos internamentos, 50% na ventilação e 44% nas mortes. Os voluntários, que tinham pelo menos um fator de risco associado, foram recrutados no Canadá, Estados Unidos, Europa, América do Sul e África do Sul.

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O nosso trabalho de investigação mostra a eficácia do tratamento com colquicina na prevenção do fenómeno da ‘tempestade de citocinas’ e na redução das complicações associadas à Covid-19”, disse Jean-Claude Tardif, diretor do MHI e coordenador do ensaio clínico, em comunicado de imprensa.

A grande vantagem da colquicina é que o tratamento durante um mês pode custar apenas três euros, disse um investigador espanhol ao jornal El País. A desvantagem é que a colquicina é muito tóxica e a quantidade que deve ser usada no tratamento da gota, por exemplo, está muito próximo do limite em que se torna um veneno.

Depois dos falhanços da hidroxicloroquina e remdesivir, a comunidade científica mantém-se cética, sobretudo com resultados apresentados por comunicado de imprensa.

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Alberto Cecconi, cardiologista italiano, mantém a esperança, não estivesse também ele a coordenar um ensaio clínico com colquicina, mas com doentes Covid-19 hospitalizados. “Os medicamentos que mostraram o maior benefício contra a Covid-19 foram os corticosteroides, como a dexametasona. São anti-inflamatórios”, disse o médico citado pelo El País. “Faz todo o sentido que outro anti-inflamatório, que atua de forma diferente, também tenha sucesso.”

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