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Quinta-feira, 11h da manhã. Tempo de confinamento, mas no Mercado Abastecedor do Porto (MAP) há um entra e sai de camiões e carrinhas. De empresas, supermercados, frutarias, mercearias e, até há bem pouco tempo, de restaurantes. É aqui, neste conjunto de 20 pavilhões, que se abastece toda a região Norte com produtos frescos, bens essenciais que não podem parar com o confinamento. “A situação tem estado mais ou menos estável, porque tudo o que é produtos alimentares vai-se trabalhando. Não é o que nós desejamos, mas vai-se trabalhando”, admite Pedro Sousa, responsável pela Sulfrutas e um dos operadores presentes neste mercado.

A pandemia, tal como em vários negócios, tem trocado as voltas de quem por aqui vende os seus produtos. Nas rotinas, nos clientes e nas vendas. Ainda assim, os operadores consideram que a procura no comércio de produtos frescos/por grosso não sofreu uma quebra muito significativa e sublinham que têm conseguido encontrar outras soluções para compensar a paragem da restauração, um dos efeitos das restrições e do confinamento. Janeiro, por si, é um mês mais problemático, mas, mesmo assim, “está tudo dentro do normal”, dizem os operadores.

“Tem havido uma procura boa em termos do cliente de supermercado pequeno. Em termos de restauração baixou para mais de 90%. A restauração está um descalabro”, admite Fernando Ribeiro, no mercado há mais de 40 anos. Na banca de produtos que tem em stock, há alguns que agora se vendem menos por causa do encerramento da restauração: “Alfaces, tomate, batata agria, limão, pimentos…alimentos que a restauração consumia mais”, descreve. Já na lista dos produtos que cresceram estão “as couves, a batata vermelha, a batata pequena para assar mas em quantidades mais pequenas e a hortaliça”. Se antes 60% dos clientes de Fernando eram restaurantes, o cenário agora é o oposto: 70% são supermercados e apenas 10% pertencem à restauração.

É precisamente a mudança de foco dos clientes que os operadores do MAP destacam como uma das grandes alterações provocadas pela pandemia de Covid-19 no seu negócio. “Essa área está completamente parada. Vamos equilibrando com outro tipo de clientes. Das mercearias, por exemplo, tenho clientes com lojas junto às feiras e como as feiras estão fechadas eles trabalham mais, duplicam as vendas”, acrescenta Júlio Pinto, operador do mercado há 35 anos.

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Todos os anos entram no Mercado Abastecedor do Porto 110 mil toneladas de produtos hortícolas, com mais de 45 mil viaturas por mês que vão abastecer às 202 empresas que têm base neste mercado. Os números têm peso e permitem também que a queda na procura não seja tão acentuada. Mas, sublinham os operadores, o novo confinamento não teve um impacto tão grande nas vendas quando comparado com o cenário que se verificou em março, quando houve uma corrida a tudo o que era mercado. “Nessa altura as pessoas pensavam que ia falhar tudo e decidiram comprar tudo e mais alguma coisa. Depois chegamos a maio, um mês que costuma ser o melhor mês de vendas, e foi o mês mais parado. Depois foi normalizando”, descreve Fernando Ribeiro.

Também Sérgio Ramalho, fornecedor no ramo da fruta e de produtos hortícolas, considera que março foi uma altura em que houve “uma corrida” e um “grande aumento do volume de negócios”, mas sabe que este ano já não vai ser igual. Por um conjunto de fatores: mais consciência da situação, maior desemprego e menor poder de compra. “A dificuldade agora é outra”, alerta.

Em março houve um impacto muito forte porque as pessoas açambarcavam tudo o que era produtos alimentares. Estavam com medo que houvesse rutura de produtos. Neste momento nota-se menos diferença, porque as pessoas mentalizaram-se que realmente os produtos não iam acabar. Quem pode acabar são as pessoas, os produtos não acabam”, acrescenta Pedro Sousa.

Alargamento de horário, mais cuidados: as novas rotinas do mercado

Quando Pedro Sousa é questionado sobre o que a pandemia mudou no seu trabalho surgem, quase de imediato, um conjunto de novas rotinas: “Desinfeções constantes, lavagem dos postos de venda, desinfeção das mãos, uso de máscara, maior cuidado ao tocar nos produtos…Tivemos que nos adaptar, porque nada é como antigamente”. Muitas das encomendas que a sua empresa agora recebe para abastecer no mercado, acrescenta, são feitas online ou por telefone. “O cliente tenta estar aqui o menos possível, porque também tem medo. Todos nós temos medo”, desabafa.

Sérgio Ramalho, da Ramalho & Filhos, destaca algumas das entregas que tem de fazer e que agora exigem cuidados redobrados: “Temos muitas entregas em lares de idosos e Santas Casas da Misericórdia e aí é que passamos a ter ainda mais cuidados. Antes chegávamos lá, entregávamos as encomendas e descarregávamos logo as coisas todas nos frigoríficos. Agora deixa-se tudo à entrada para não haver contacto com pessoas que estão lá dentro”, explica ao Observador.

Com a pandemia também houve aspetos do funcionamento do próprio mercado que foram alterados, como é o caso do horário de abastecimento dos operadores e do horário dos compradores. Se antes tudo era feito da parte da manhã ou da tarde, agora as empresas podem vir abastecer durante todo o dia. “Ajuda-nos porque não há volume de pessoas, não se juntam, e as pessoas têm um horário bom para comprar, conseguem sair mais rápido e se lhes falhar mercadoria vêm buscar outra vez ao mercado. Isso ajuda muito a nível de clientes para não baixar muito as vendas”, refere Fernando Ribeiro.

No final, e apesar de a quebra de vendas não estar a ter um impacto significativo no negócio, o receio do futuro é que a falta de poder de compra dos clientes venha piorar o cenário. “Isso é que nos está a fazer medo. Não tive medo de 2020, tenho medo de 2021, do que se vai passar, porque as pessoas podem ficar sem economias para as despesas e para aquilo que precisam de comer. Se os empregos pararem, se o Estado não tiver capacidade de resposta para eles receberem, como é que podem fazer as compras? Nós, que vivemos de produtos de alimentação, poderemos vir a sentir isso na pele, como outras empresas já estão a sentir. Mas vamos um dia de cada vez”, desabafa Fernando Ribeiro.