Quem está a pensar adquirir um carro novo tem, à partida, de se decidir pelo tipo de motorização que é ideal para si. Há um número crescente de condutores que vão optar por modelos 100% eléctricos, outros pelos híbridos, que surgem como uma alternativa válida aos diesel em termos de custos de utilização, com muitos a preferirem os híbridos plug-in (PHEV), solução que promete o melhor dos dois mundos, desde que se recarregue regularmente a bateria. Mas é garantido que, em 2021, muitos continuarão a optar por motores a gasóleo, seja por uma questão de gosto pessoal, pelo tipo de utilização que dão ao veículo ou pela dificuldade de recarregar na zona em que habitam.

Em Portugal, durante 2020, os diesel representaram 26,2% das vendas, ligeiramente abaixo da fatia que detinham no mercado europeu no ano anterior (30,5%), mas com a mesma tendência para descer gradualmente, uma vez que não é necessário recuar muitos anos para encontrar os diesel a controlar 60% do mercado. Esta redução foi motivada pela falta de interesse por parte dos clientes, sobretudo porque passaram a ter no mercado mecânicas alternativas (eléctricas e electrificadas) que lhes oferecem opções com menores custos e a dar provas de maior responsabilidade social. A vontade manifestada por alguns países de banir o gasóleo como combustível contribuiu, igualmente, para este crescente desinteresse.

O maior problema dos diesel será conhecido em 2021

Nos últimos anos, as emissões médias de dióxido de carbono dos motores de combustão têm vindo a cair, de forma mais evidente graças à colaboração das versões híbridas, PHEV e eléctricas. Mas, apesar disso, a Comissão Europeia (CE) está consciente que há uma grande discrepância entre os valores anunciados e homologados pelos fabricantes em testes laboratoriais, e os consumos e emissões que efectivamente são conseguidos durante uma utilização do veículo em condições reais. E o problema que os técnicos da CE enfrentam é que, apesar das sucessivas normas introduzidas (Euro 5a, Euro 5b, Euro 6b, Euro 6c, Euro 6 Temp e Euro 6d, nada menos do que seis durante um período de 10 anos), a divergência entre as emissões teóricas (as homologadas) e as reais não tem diminuído. O que leva à introdução da Euro 7, a ser apresentada ainda em 2021.

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Espera-se que a mais recente norma antipoluição seja revelada em meados do ano, para depois ser alvo de uma (profunda) discussão até final de 2021, altura em que será adoptada. Os fabricantes vão manifestar a sua oposição aos objectivos do legislador mas, como tem sido habitual, é expectável que pouco alcancem com os seus protestos. Independentemente dos pormenores, depois da Euro 7 ser adoptada no último trimestre do ano, entrará em vigor em 2025 e se promete restringir grandemente os motores a gasolina, vai ser muito nefasta para os motores a gasóleo, que terão de recorrer a mais sistemas e dispositivos para limitar a emissão de gases nocivos.

É necessário ter presente que os motores de combustão têm beneficiado, até aqui, de algum proteccionismo, pelo menos na forma como a CE tem permitido que sejam favorecidos no método como são determinados os consumos e emissões. Numa altura em que todos os estudos apontam que a maioria dos condutores (80%) percorre entre 40 e 80 km por dia, variando o valor consoante o país europeu (40 km no Reino Unido e 80 km na Polónia), é difícil aceitar que as medições laboratoriais partam sempre do princípio que o motor já estava, à partida, à temperatura ideal de funcionamento.

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Tão pouco é justificável que o período de reciclagem do filtro de partículas não seja considerado no ciclo de testes – o que é ainda mais frequente nos veículos que percorrem deslocações mais curtas –, período em que as partículas grandes capturadas pelo filtro se transformam noutras mais pequenas por incineração, não desaparecendo por completo.

Há muitas marcas a virar já as costas aos diesel

Por muito que se oponham ao que acusam ser uma perseguição aos motores a gasóleo sem suporte científico, os construtores de automóveis sabem que os motores diesel vão mesmo desaparecer a prazo. A partir de 2025, quando a Euro 7 for implementada, é altamente provável que sejam os próprios fabricantes que não os querem continuar a propor aos clientes, dado o incremento que se espera que exista no preço, para os colocar de acordo com os novos limites de emissões nefastas.

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Mas há outro indício importante para suportar a ideia de que os diesel se aproximam do fim de ciclo, depois de terem dominado o mercado europeu durante décadas. A maioria dos fabricantes já começou a tratar de interromper a produção em algumas das suas fábricas especializadas em unidades motrizes diesel, para as adaptar à produção de veículos ou de motores eléctricos. Um dos exemplos mais flagrantes chega-nos da PSA, agora Stellantis, que tinha na fábrica francesa de Tremery, a maior do mundo em capacidade de produção.

De acordo com a Reuters, depois de ter fabricado 90.000 motores eléctricos em 2020, Tremery vai atingir 180.000 este ano, para depois continuar a crescer até aos 900.000 em 2025. E com os motores eléctricos a possuírem somente 1/5 das peças de um motor de combustão, há algumas preocupações em relação ao futuro dos 3000 empregados desta linha de produção francesa. A Plateforme Automobile, um grupo de lobby da indústria automóvel local, prevê que dos 400.000 postos de trabalho do país ligados a esta indústria, 15.000 estejam em risco. Ainda assim, uma gota de água face aos 100.000 que se estima que possam desaparecer na Alemanha.

Pode continuar a comprar diesel, mas…

A resposta à questão que colocamos de início, sobre se ainda é uma boa ideia adquirir um veículo com motor a gasóleo, é sim. Isto partindo do princípio que este tipo de motorização é a que mais vantagens lhe dá, para o tipo de utilização que tem em vista. Se habita numa zona mal servida com postos de carga e não tem hipótese de recarregar em casa, se realiza grandes deslocações regularmente e não se pode dar ao luxo de parar uma hora para recarregar a bateria, ou se tem de rebocar algo pesado, o diesel ainda é uma boa opção. Mas este é um nicho de mercado com tendência para se tornar cada vez mais… nicho.