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Se, por um lado, há influencers a dar voz ao caos vivido dentro de hospitais, como tem acontecido em Portugal, por outro, o debate está cada vez mais aceso: continuar a publicar fotografias de férias e/ou em destinos paradisíacos em tempos de pandemia é sinónimo de “entretenimento light“, como alguns defendem, ou pode esta não ser a escolha mais consciente dado o confinamento que nos obriga a ficar em casa? O mundo das redes sociais não ficou incólume aos estragos da pandemia e também ele parece estar a olhar para dentro de si mesmo.

Depois de 20 dias de férias no Brasil, período em que jantou fora apenas três vezes, Sofia Ribeiro publicou um longo texto onde refere ter recebido mensagens críticas por ter viajado pela altura do Natal — o novo confinamento em Portugal arrancou a 15 de janeiro. “Não ia falar sobre o tema porque tenho a consciência tranquila dos meus atos enquanto cidadã e pessoa individual, mas a hipocrisia mexe-me com os nervos”. No texto, também ele divulgado no Instagram, a atriz explica que, à data, “nada a impedia” de viajar e que tomou precauções antes e durante a estadia, a qual foi pautada pelas tradicionais fotografias em biquíni e cenários naturais de encher o olho para um milhão de seguidores verem.

© sofiarribeiro/Instagram

“Nas circunstâncias atuais, para quem não conhece ainda [o Brasil], não recomendo que o façam agora. Deixem passar esta fase. A não ser que façam como eu. Das poucas pessoas com quem estive eram testadas como eu fui (…) Ficava em casa e quando ia à praia escolhia as mais desertas, não ia para onde estava a confusão, o contrário não é boa ideia, porque há uma falsa normalidade que tende [a] distrair da realidade”, escreveu ainda Sofia Ribeiro naquele que parece ser o último post referente à viagem ao Brasil.

Também a influencer Anita da Costa — com 244 mil seguidores — viajou para o Dubai nos primeiros dias de janeiro, onde ficou hospedada no Four Seasons Hotel Dubai International Financial Centre. No feed do Instagram estão várias fotografias alusivas à viagem que fez na companhia do noivo, sobretudo imagens tiradas na praia. Nas stories, citadas pela Magg, Anita da Costa esclarece que ponderou se devia ou não fazer a viagem, tendo em conta a pandemia: “A viagem estava marcada, parcerias feitas, contratos assinados! Ponderámos se fazia sentido vir, tendo em conta o cenário pandémico. Mas realmente não encontrámos nenhum problema. Somos testados para entrar no Dubai e sair”, escreveu. O Observador tentou contactar a influencer, mas até à data de publicação do artigo não obteve resposta.

© anitadacosta/Instagram

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Como este exemplo há outros: Concha de Lima Mayer, uma das influencers recebidas por Marcelo Rebelo de Sousa em outubro de 2019, está agora no Rio de Janeiro. Antes foi Vanessa Martins, com mais de 600 mil seguidores, a estar no Brasil e a receber alguns comentários menos positivos nas fotografias associadas à viagem — as ligações aéreas entre Portugal e Brasil estão suspensas desde sexta-feira.

Importa, no entanto, explicar que é só a partir de domingo, dia 31 de janeiro, que “ficam limitadas as deslocações para fora do território continental, por qualquer meio de transporte, e é reposto o controlo de pessoas nas fronteiras terrestres”, estando ainda prevista “a possibilidade de suspensão de voos e a determinação de confinamento de passageiros à chegada, quando a situação epidemiológica assim o justificar”. Entre as exceções apresentadas está esta: “deslocações para o desempenho de atividades profissionais ou equiparadas, devidamente documentadas”.

Governo aperta medidas. O que muda nas escolas, fronteiras e no SNS

Mais mediática foi a escapadela de Cristiano Ronaldo. Por altura do 27.º aniversário de Georgina Rodriguez, o jogador português voltou a quebrar as regras impostas pelas autoridades italianas e está, agora, debaixo de fogo. O craque começou por assinalar a data nas redes sociais ao publicar uma fotografia na companhia da namorada, no entanto, as celebrações não se ficaram por aí e a história caiu mal quando um guia turístico do Valle d’Aosta, nos Alpes italianos, filmou o casal a dar um passeio em motas de neve. O vídeo foi apagado, mas antes de desaparecer já tinha sido visto e partilhado por milhares de pessoas, tornando-se notícia na imprensa do país. Segundo o jornal La Stampa, o internacional português deve ser multado em cerca de 400 euros.

Cristiano Ronaldo viola il Dpcm e va a Courmayeur, gita sulla neve nonostante i divieti

Niente Coppa Italia, ma la gita a Courmayeur per il compleanno di Georgina sìCR7 lascia il Piemonte infrangendo il Dpcm, pernottando in un albergo della zona ufficialmente chiuso➡️ www.tmwradio.com

Posted by TmwRadio on Wednesday, January 27, 2021

Figura pública com presença assídua nas redes sociais, Cristiano soma, só no Instagram, quase 260 milhões de seguidores.

“É nestas alturas que se percebe quem é que sabe influenciar”

Miguel Raposo, autor do livro “Profissão: Influencer”, publicado em junho do ano passado, começa por dizer ao Observador que “não podemos condenar ninguém por estar a fazer algo que é permitido”, referindo-se às viagens feitas por alguns influencers. Ainda assim, o gestor e consultor de influenciadores fala na “consciência” de não publicar determinados conteúdos tão díspares da realidade atual. “As pessoas podem não levar a bem. É mais essa questão que choca. As pessoas estão numa fase delicada”, lembra.

Raposo afirma que o verdadeiro “criador de conteúdo”, termo que prefere usar, é aquele que sabe adaptar-se às circunstâncias, e vai ao ponto de comentar “as fotografias tiradas na rua” que, para ele, “não fazem sentido”. “É nestas alturas que se percebe quem é que sabe influenciar, quem é que faz coisas relevantes dentro de casa.”

“Um criador de conteúdo é uma profissão e tem de se adaptar como todas as outras. É preciso cuidado ao olhar para a realidade: às vezes, os criadores afastam-se da realidade política e social.” Ainda assim, Miguel Raposo insiste na ideia de que não se deve condenar algo que não é proibido e diferencia as viagens face às festas por vezes protagonizadas por influencers que têm sido denunciadas nas redes sociais. “Trabalho com várias marcas e tento ao máximo escolher pessoas que não vão ter problemas e que têm noção da realidade. Não gosto de perfis de Instagram que são perfeitos. Quando chegamos a fases como esta vemos quem é que realmente pode influenciar. Partilhar o mundo perfeito é fácil”, comenta. “Há bons e maus exemplos, acho que é transversal à sociedade em que vivemos”, esclarece.

Relatos de um “cenário de guerra”. Como influenciadores e redes sociais estão a dar voz aos hospitais portugueses

Ao The Telegraph, Sara McCorquodale, autora do livro “Influência: como os influenciadores das redes sociais estão a moldar nosso futuro digital” (tradução livre), esclarece que são influencers as pessoas que criam conteúdo editorial sobre as suas próprias vidas, usando como plataformas as redes sociais. No entanto, a pandemia “está definitivamente a separar o joio do trigo”. Enquanto que há quem mostre criatividade na resposta aos desafios colocados por 2020, salienta a autora, outros continuam a publicar fotografias de outros tempos, quando era mais normal frequentar hotéis de luxo (“throwback pictures”, em inglês). “Acho que apenas os influenciadores verdadeiramente talentosos, conscientes e dedicados permanecerão relevantes para os seus seguidores e, portanto, atraentes para as marcas, e capazes de ganhar muito dinheiro.”

“O meu trabalho é motivar as pessoas”

No Reino Unido, país que à semelhança de Portugal está a atravessar duras restrições na sequência do combate à Covid-19, são várias as estrelas das redes sociais que também estão debaixo de fogo: em pleno confinamento, fizeram uso das viagens ditas “essenciais” para tirar fotografias à beira de piscinas com a paisagem do Dubai em pano de fundo. A situação descrita fez com que, na passada quarta-feira, Priti Patel, secretária de Estado para os Assuntos Internos britânicos, dirigisse um ataque contra as influencers que se “exibem em partes ensolaradas do mundo”, tal como conta o The Telegraph. O discurso de Patel, feito numa altura em que foram anunciadas mais restrições às viagens internacionais, serviu de chamada de atenção dado o sobresforço vivido pelo NHS (equivalente ao SNS em Portugal) — o Reino Unido soma mais de 100 mil mortes derivadas da Covid-19.

© lauraanderson1/Instagram

Laura Anderson é um dos exemplos que encaixa na crítica da política britânica. Aos 31 anos, terá perdido entre 1.200 e 1.400 seguidores no Instagram, onde tem quase um milhão e meio de fãs, depois da viagem que fez ao Dubai. Numa das publicações mais recentes — a 11 de janeiro —, onde surge de biquíni, a influencer faz um pedido, “se não têm nada simpático a dizer, por favor não comentem”. Pedido esse que não foi aceite, com comentários críticos a sucederem-se uns aos outros: “De certeza que podias estar a influenciar a partir de casa. Deixei de te seguir, bem como qualquer outra pessoa que esteja no Dubai ‘a trabalhar'” ou “Precisas de estar atenta às notícias e perceber que estamos no meio de uma pandemia”.

Na mesma publicação, a influencer pede desculpa por “apagar comentários negativos”, ainda que alguns tenham “pontos válidos”. “Não posso discutir todos os dias. Tenho tanto para dizer, mas não posso vencer num tópico tão sensível e não posso falar por outra pessoa que não eu própria”, escreve ainda. A verdade é que a 4 de janeiro, o primeiro-ministro britânico Boris Johnson falava à nação, pedindo mais uma vez aos cidadãos para ficarem em casa, afirmando ainda que as pessoas só deveriam sair “por razões limitadas permitidas por lei” — pela terceira vez desde o início da pandemia, a Inglaterra regressou ao confinamento total.

O debate tem sido tanto que Sheridan Mordew, influencer britânica de 24 anos, aceitou ser entrevistada no programa This Morning, apresentado por Holly Willoughby e Phillip Schofield. Sheridan tem estado no Dubai desde o início de janeiro e é sentada à beira de uma piscina que afirma que o seu trabalho “é motivar as pessoas”. “Eu podia sentar-me [em casa] e ficar à espera que o ginásio abrisse”, comenta, alegando que não se acomodou à situação e que continua a trabalhar. O discurso é feito ao mesmo tempo que surgem imagens da jovem a andar de camelo, uma situação caricata que chega a despertar o riso entre os apresentadores. “Eu fui para o Dubai por motivos puramente profissionais. Eu sou uma personal trainer”, diz, justificando a decisão tendo ainda por base a fraca saúde mental. “Achei que não ia conseguir começar nada novo sentada em casa”, disse, citada pelo Evening Standard.

A conversa aconteceu no passado dia 26 e foi tema de artigos na imprensa britânica, mas não pelos melhores motivos. A página de Instagram de Sheridan está agora privada, após um rol de críticas negativas na sequência da entrevista televisiva, mas os workouts podem ser consultados aqui. Entretanto, os Emirados Árabes Unidos foram adicionados à “lista vermelha” de países de onde viajar para o Reino Unido é proibido — a medida, que visa impedir a propagação da variante sul-africana, entrou em vigor às 13h de sexta-feira.

© kimberleygarner/Instagram

“Vou continuar a publicar fotografias minhas na praia. É entretenimento light.” Quem o diz é Kimberley Garner, com quase meio milhão de seguidores no Instagram, num artigo de opinião também ele publicado no The Telegraph. A criadora da marca de biquínis Kimberley London, que atualmente está Miami, nos Estados Unidos, conta que pensou muito sobre publicar ou não fotografias na praia e chegou a uma conclusão: “Não quero ofender ninguém de todo ou fazer com que sintam que me estou a exibir, quando na verdade não estou. (…) Decidi continuar. Espero que as redes sociais sejam um pouco de entretenimento light: imagens coloridas da praia, sol forte e os biquínis que desenho”.

Kimberley diz ainda que tem recebido feedback muito positivo, que as vendas correm bem e que os seguidores duplicaram de 200 mil para 400 mil desde novembro. Há, no entanto, comentários menos positivos no feed: “Estamos numa pandemia, seja um pouco mais sensível!”.