É claro que a nossa ideia do que seja um espião está completamente condicionada por James Bond. Mas também é claro que somos todos crescidinhos que chegue para ter a certeza de que a realidade deva ter muito pouco a ver com James Bond. Que os espiões não serão todos galãs quarentões ultraconfiantes, elegantes frequentadores de bares de hotel e hábeis jogadores de casino. Provavelmente, não se passeiam de Aston Martin, com assentos ejetáveis que se transformam em pequenos foguetões, capazes de disparar raios laser tão indicados para perfurar as paredes de betão de instalações militares hostis como para abrir o fecho zipper do vestido da bela rapariga do cocktail na embaixada. Provavelmente.

Estamos, portanto, preparados para baixar a fasquia. Mas o que descobrimos com “Spycraft” é que talvez não estejamos, realmente, preparados. Os espiões reais frequentemente não só não são heróis cheios de sex appeal, como são na verdade gente muito pouco recomendável que não se infiltrou em coisa alguma; deixou-se infiltrar e começou a passar para o outro lado a informação que o país lhe pagava para guardar. São bufos, agentes duplos, traidores.

É o que a imagem de capa de “Spycraft” mostra, desde logo: o agente de duas faces, dividido entre Washington e Moscovo. Não serão todos, decerto, nem talvez fosse a intenção de um programa de televisão claramente feito a partir dos relatos autorizados de antigos agentes deixar mal no retrato a sua própria “classe”, mas é o que fica no final de uma série documental que, à parte isso, pouco traz de novo. Tipos com o alto perfil de James Bond, provavelmente, não durariam uma semana como espiões; na prática, o trabalho é feito por toupeiras, tipos com o mais baixo perfil possível, que, antigamente, fotografavam documentos às escondidas e denunciavam companheiros a troco de muito dinheiro e, agora, copiam e mandam diretamente terabytes de documentos e denunciam companheiros a troco de muito dinheiro. Quanto ao sex appeal destes Bonds e Bond girls reais, bom, haverá contabilistas mais empolgantes.

[o trailer de “Spycraft”:]

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À medida que a Netflix luta por se tornar na nossa senhora de todo o entretenimento, vão surgindo, deliberadamente, os produtos de menor qualidade: os dramas de pacotilha, as séries em que nada acontece, até os reality shows e, agora, as séries documentais banais, daquelas que passariam despercebidas, a meio da tarde, no canal História ou no Discovery (que também têm os seus bons produtos, mas que ainda não encontraram a bússola para sobreviver na era do streaming). “Spycraft” é uma série docudramática, baseada no livro homónimo de Henry R. Schlesinger e sentada no depoimento de meia dúzia de cabeças falantes – basicamente, um conjunto de senhores de idade, reformados da CIA ou do FBI.

Compreende-se. Quem está no ativo não poderia, certamente, falar. Mas a falha genética torna, imediatamente, “Spycraft” num produto de aparência datada, como se prometêssemos revelar todos segredos do gaming entrevistando os criadores do “Super Mario” e do “Minesweeper”, ou pedir a Armando Gama para nos guiar pelas últimas da música eletrónica (para quem não sabe, há um passado eletrónico maravilhoso em Armando Gama, btw).

Hoje, com telemóveis, internet e algoritmos, estamos todos demasiado conscientes de que demasiada gente sabe demasiado sobre a nossa vida. O smartphone que temos no bolso faz parecer tão avançados como um corta-unhas os gadgets de que tão entusiasticamente nos falam os senhores grisalhos de “Spycraft” e que fizeram a diferença na Segunda Grande Guerra e na Guerra Fria. E os autores da série não têm a arte para contornar esse handicap original.

Muitas daquelas histórias podem e devem continuar a ser contadas (como a da máquina “Enigma” e de Alan Turing, o homem que decifrou os códigos das comunicações nazis e que, assim, se não venceu a guerra, poupou pelo menos o mundo a mais alguns anos dela). Mas têm de ser contadas pelos seus valores histórico, narrativo, humano, e não num grande pot-pourri de casos e meios tecnológicos com que “Spycraft”, em cada meia hora de episódio, tenta meter o Rossio na Betesga, numa divisão alegadamente temática que não resulta, de todo, evidente ou benéfica. Acresce que parece limitar-se à versão americana das histórias, obcecada com os confrontos com a Rússia – e até aí, eloquentemente mais concentrada no tempo da U.R.S.S. do que no atual, quando o Kremlin, porventura, tem desferido golpes bem mais dolorosos à América e ao equilíbrio de poderes mundial.

“Spycraft” é, de resto, guiada pela má locução de alguém cuja única explicação para a escolha diria tratar-se talvez de uma figura relevante no mundo da espionagem ou, quanto muito, do autor da série, mas não – é apenas isso: uma má escolha (o músico Dylan R. Berry). Acrescem algumas imagens de arquivo e recriações competentes, mas francamente limitadas.

Em resumo, a ver apenas se o tema lhe interessar muito ou já lhe sobrar mais confinamento do que Netflix. Vale pelos episódios dedicados ao papel do sexo na espionagem e às operações militares especiais, e por, eventualmente, trocar por miúdos algumas histórias decisivas do nosso tempo, como as capturas de Saddam Hussein e Osama Bin Laden, ou os envenenamentos de Viktor Yushchenko, Alexander Litvinenko ou Sergei Skripal.

À parte isso, resta esta sensação de que a maioria da espionagem se faz não por intermédio de notáveis profissionais, mas péssimos. Tipos da CIA que se venderam ao KGB ou do SVR que se venderam ao FBI. Sonsos traiçoeiros, muito mais do que machos-alfa que nunca perdem a calma. Não é James Bond. É Zé Ninguém.

Alexandre Borges é escritor e argumentista