Título: Estilicídio
Autor: Cynan Jones
Editora: Elsinore
Ano da Edição: janeiro de 2020
Páginas: 176
Preço: 15,98€

O livro foi publicado originalmente no final de 2019. Chegou a Portugal este mês de janeiro, pela Elsinore

Cynan Jones, autor de obras como A Baía ou A Cova, é conhecido pela economia dos seus textos, mas talvez o escritor nunca tenha ponderado tanto o uso das palavras como no seu último livro, Estilicídio. De tal forma que chamar-lhe “romance” pode ser enganador. Narrativa fragmentada, cheia de frases soltas, como versos de um longo poema, o novo livro do autor galês parece-se pouco com aquilo a que habitualmente se chama “romance”, aproximando-se mais em termos estruturais do género poético, com o desafio de limites e exploração de linguagem que o caracteriza. É importante ter isso em mente quando se parte para a leitura de Estilicídio, cuja história se passa naquilo a que se poderá chamar um futuro distópico, marcado pelas alterações climáticas. Caso contrário, será muito provavelmente uma desilusão. O que Jones apresenta não tem nada a ver com Huxley, Orwell ou outros. É até discutível se Estilicídio é uma distopia, tendo em conta a pouca atenção que é dada ao mundo em que tudo se desenrola, translúcido pano de fundo que serve apenas para condicionar a forma como as personagens vivem e a sociedade funciona, mas sem que seja descrito com exatidão suficiente para que o leitor consiga formar uma imagem clara.

Claro que para aqueles que conhecem a obra de Jones nada disto será uma surpresa. O que será talvez surpreendente é o facto de a narrativa ter tido origem numa série de 12 histórias que o escritor foi convidado a escrever para a BBC Radio 4 (é mais comum ver uma obra de ficção ser adaptada do que o contrário). Não que isso tenha tido influência na forma como o galês transpôs as histórias para o papel. Como o próprio admitiu, elas nasceram exatamente assim, em pedaços. “Sempre que pensava em Estilicídio, imaginava-o sob a forma de um conjunto de narrativas interligadas que se reunissem num fundo comum à medida que as histórias fossem vertidas para o papel”, revelou nas páginas final da obra. “A ideia era diferente e ambiciosa, e é possível que a equipa da BBC não estivesse à espera de que a propusesse”, mas esta mostrou-se “entusiasmada” e abraçou o projeto sem hesitar. Os 12 episódios de “Stillicide” estrearam no verão de 2019 e o livro, composto pelas mesmas histórias com apenas algumas diferenças, saiu no mesmo ano, em novembro. A edição portuguesa é mais recente — foi publicada este mês de janeiro pela Elsinore.

A estranha palavra que lhe serve de título, “Estilicídio”, significa “queda de água gota a gota” (é isso que diz o verbete reproduzido no início do livro). Esta remete para a escassez de água que norteia toda a narrativa, mas também para a mancha gráfica, um aglomerado de frases isoladas, muitas vezes curtas, que preenchem as páginas de Estilicídio como gotículas de água.

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Esta, provavelmente provocada pelas alterações climáticas, obrigou à procura de soluções por parte do governo para evitar que a população passe sede. Uma dessas soluções é a muito contestada Doca do Gelo, que servirá para albergar um gigantesco icebergue que será usado para fornecer água aos habitantes da cidade, mas cuja construção obriga ao desalojamento de vários residentes. Como em todas as realidades onde os bens primários escasseiam, o tráfico e a violência fazem parte do dia a dia dos cidadãos deste futuro não muito distante — os ataques à principal rede de fornecimento de água, um comboio, que transporta 45 milhões de litros de água a 320 quilómetros por hora, levaram ao endurecimento das medidas de defesa e policiamento —, e parece haver uma tensão constante no ar, como se estivesse para acontecer alguma coisa que nunca se materializa.

É mais ou menos evidente que tudo se passa nas Ilhas Britânicas. A grande “cidade” que é referida será talvez Londres, porque é banhada pelo Tamisa. Algumas personagens habitam fora do ambiente urbano, em quintas onde é possível ter ovelhas e galinhas, um ambiente que lembra o countryside inglês. A falta de água tem de levar ao desaparecimento da fauna e flora, mas a natureza, sempre tão presente nas obras de Jones, vai também aparecendo aqui (por vezes de uma maneira surpreendente), como forma de resistência contra um futuro mais mecanizado e talvez menos humano.

Pouco mais é dito, e são muitas as perguntas que ficam por responder. Porque é que falta água, como é que esta é distribuída (fala-se num racionamento, mas este nunca é explicado), de onde vem o icebergue ou como será transformado em água líquida são algumas das questões que ficam no ar e para as quais não há esclarecimento. Esse esclarecimento não existe porque não interessava a Jones que existisse — Estilicídio não é uma apresentação brutal de um mundo onde as alterações climáticas são um facto consumado, é um livro sobre pessoas, por mais banal que isso possa aparecer. As personagens em torno das quais giram as 12 histórias/fragmentos vivem num mundo de dificuldades mas, apesar da dureza dessa realidade, continuam a ser fundamentalmente humanas. É essa humanidade que Jones explora.

Talvez a explicação para este “enredo” peculiar esteja numa frase que Alan, responsável da empresa que está a construir a Doca do Gelo, diz ao “seleto grupo de jornalistas” que é convidado para uma apresentação sobre a polémica construção:

“— As pessoas seguem com a sua vida. As pessoas sempre seguiram com as suas vidas. O conceito de Distopia é tão ridículo como o de Utopia. No fundo, somos animais — digo, pensando nos discos da vida selvagem. — E os animais encontram sempre uma maneira de se adaptar à mudança”.

Independentemente do cenário, utópico ou distópico, haverá sempre uma mulher que está prestes a trair o namorado, um rapaz que procura o seu irmão perdido, uma mulher que morre e um marido que tenta perceber como viver sem ela; haverá sempre amor, ódio, conflito e perda, porque “as pessoas seguem com a sua vida” e conseguem sempre adaptar-se à mudança.

Mais do que uma chamada de atenção para os perigos das alterações climáticas, abordados apenas superficialmente, Estilicídio é um livro sobre pessoas e sobre como essas pessoas existem dentro de determinadas circunstâncias. Essas pessoas não são necessariamente as personagens do livro, que não interessam verdadeiramente enquanto tais, mas enquanto representações do humano. E não são também elas o grande feito de Cynan Jones em Estilicídio, mas sim a beleza da linguagem depurada e poética que utilizou para construir um todo que faz sentido. A essa, sim, é impossível ficar indiferente.