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“Gosto de não ter muita pressão porque o Novak Djokovic nunca perdeu em oito finais aqui. É nele que está toda a pressão para tentar apanhar o Roger [Federer] e o Rafa [Nadal] nos títulos do Grand Slam. Quero mostrar o meu melhor ténis. Já viram que consigo derrotar grandes nomes, ele tem mais experiência e mais a perder. Trabalhei muito toda a minha vida e estou muito feliz por este momento, vai ficar comigo e nos meus recordes”. Após uma meia-final muito aguardada depois da vitória de Stefano Tsitsipas frente a Rafa Nadal, Daniil Medvedev deu prolongamento ao melhor momento da carreira que vem já do último ano e chegou à final do Open da Austrália, a segunda num Grand Slam, passando ainda assim para toda a responsabilidade para o adversário. Seria mesmo assim? Haveria uma diferença tão grande no quadro masculino como a que existia no plano teórico na final feminina entre Naomi Osaka e Jennifer Brady? Não. Nem no jogo, nem no ranking, muito menos no momento.

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Depois de ter perdido a final do US Open de 2018 frente a Nadal, esperava-se que Medvedev se assumisse como o líder da nova geração do ténis que quer suceder aos Três Mosqueteiros. Ainda foi à final da ATP Cup diante de Djokovic, caiu nos oitavos do Open da Austrália com Wawrinka, teve passagens falhadas por Roterdão e Marselha ainda antes da pandemia. Na retoma, em agosto, foi aos quartos em Cincinnati e às meias do US Open, falhou na terra batida em Hamburgo e Roland Garros, não fez muito melhor no regresso ao piso rápido em São Peterburgo e Viena. A partir do Masters de Paris, no início de novembro, tudo mudou. Aliás, ainda continuava a mudar: ganhou em França, conquistou o ATP Finals e chegara agora à final do Open da Austrália, numa série de 20 vitórias consecutivas desde França, das quais 12 com adversários do top 10 (Djokovic, Nadal, Thiem, Tsitsipas, Zverev, Rublev, Schwartzman e Berrettini). Agora, era o finalista mais novo em Melbourne desde 2012.

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Já com a subida ao terceiro lugar do ranking confirmada, naquela que seria sempre a melhor posição da carreira no circuito ATP, uma vitória colocaria também Medvedev na segunda posição, à frente de Nadal, algo que, olhando para o domínio daqueles que outrora ficaram denominados por Big Four (Djokovic, Nadal, Federer e Murray), não acontecia desde julho de 2005, na altura com o australiano Lleyton Hewitt nessa posição. Problema? O adversário que tinha pela frente. E a ambição de ser mais e melhor na história do ténis mundial, que jogava também por um feito histórico: ser o segundo a ganhar pelo menos nove vezes o mesmo Grand Slam, acompanhando os 13 triunfos de Nadal em Roland Garros com o seu nono na Austrália. Mas havia mais em jogo, a vários níveis.

“Medvedev sem pressão? A pressão está sempre lá, é isso que fazemos… Todos falam da nova geração e de como estão a chegar e vão tirar-nos o lugar mas realisticamente isso ainda não está a acontecer. Podemos falar disso o dia inteiro mas, como todo o meu respeito por eles, ainda têm muito que trabalhar. Não vou simplesmente ficar aqui a olhar e dar-lhes tudo de mão beijada, vou fazê-los trabalhar muito duro por isso”, comentou o sérvio ao Eurosport na antecâmara da sua nona final em Melbourne, onde continuava a ser rei e senhor: após a primeira de oito vitórias, em 2008, foram mais os triunfos do que as presenças sem chegar ao encontro decisivo (8-5).

Depois de ter garantido esta semana que se vai tornar o jogador de sempre com mais semanas da liderança do ranking mundial, superando as 310 do ainda lesionador Roger Federer, um triunfo no Open da Austrália valia o 18.º Grand Slam, apenas a dois do suíço e Rafa Nadal sendo mais novo (33 anos) e depois de um mês onde foi alvo de críticas pelas regalias que teve na antecâmara do troféu e pela descrição que fazia da lesão na zona abdominal no encontro que quase terminou com derrota frente a Taylor Fritz. Pode ser mais ou menos injusto, pode ser mais ou menos inglório, mas se os números colocam Djokovic ao nível de Federer e Nadal, existe a perceção de que a dupla está num patamar onde o sérvio não se encontra, algo pelo qual o líder mundial também lutava.

Lutava e queria muito atingir. Novak Djokovic parece às vezes ser uma ilha isolada no ténis mundial, a caminho de se colar a Federer e Nadal sem ter o mesmo reconhecimento da dupla e a travar a ascensão definitiva de uma nova geração que ainda vai aguardar mais uns tempos para aparecer de vez. E é esse contexto que parece dar ao sérvio uma motivação extra para ganhar mais e jogar melhor, tal como voltou a acontecer este domingo em Melbourne, onde não deu hipóteses a Medvedev e fez ainda mais história. Próximo desafio? Roland Garros. E esse será talvez o maior desafio da carreira, aos 33 anos: quebrar o domínio de Nadal na terra batida francesa, chegar ao 19.º Grand Slam e jogar depois Wimbledon e US Open para subir ao lugar mais alto nessa luta muito particular. A missão é difícil, mesmo muito complicada. Mas, a jogar como fez contra o russo, não tem nada de impossível.

A final começou com um início atípico e a duas velocidades, com Novak Djokovic a chegar rapidamente ao 3-0 com um break e Daniil Medvedev a responder na mesma moeda com um serviço em branco para o 3-3. Aquele efeito surpresa do início de jogo e das estratégias preparadas manteve tudo empatado apesar da irregularidade nos jogos de serviço, algo que mudou nas partidas seguintes com o russo a fazer o 5-5 com mais um serviço em branco e Djokovic a responder na mesma moeda para o 6-5. Tudo apontava para uma primeira decisão de set no tie break mas o sérvio “cheirou” a ansiedade do adversário, colocou-se a ganhar por 0-40 e fechou mesmo em 7-5.

Medvedev tinha de reagir até para superar o golpe anímico de uma 12.ª partida onde tudo correu mal e conseguiu a melhor resposta logo a abrir o segundo set, quebrando pela segunda vez na final o jogo de serviço de Djokovic. No entanto, foi sol de pouca dura: com muitos erros diretos, sem perceber se era melhor aguentar o jogo no fundo do court ou pressionar o número 1 mundial, o russo sofreu de imediato o contra break, não teve as opções certas na partida seguinte onde o sérvio não serviu ao mesmo nível e afundou-se até um 4-1 que colocava Novak Djokovic a depender apenas de si para fechar o segundo parcial, o que acabou mesmo por acontecer com 6-2, depois de Medveved ter levado ainda o sétimo encontro às vantagens, perder e… partir uma raquete no solo.

Foi assim, com essa manifestação de “revolta”, que Djokovic já tinha virado jogos neste Open da Austrália. Não foi assim, com essa manifestação de “revolta”, que Medvedev deu a volta. Pelo contrário, até pareceu fazer com que desperdiçasse a última oportunidade para dar a volta aos acontecimentos, falhando a possibilidade de quebrar o serviço a Djokovic logo a abrir o terceiro set e continuando a acumular erros não forçados pouco comuns que permitiram ao sérvio prolongar uma exibição de sonho, muito longe da última decisão em Roland Garros com Rafa Nadal, e cavar uma vantagem confortável para fechar a final com 6-2, apontando após o complicado sétimo jogo do último parcial para a cabeça como que dizendo que a sua mentalidade de campeão faz muita diferença.