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"A ideia da fragilidade feminina domina-nos desde que somos crianças”

"F…", vídeo-performance criada pela Estrutura para vermos online no Teatro Municipal do Porto, quer revisitar a narrativa histórica da sociedade moderna e clássica de um ponto de vista feminista.

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Esta não é uma criação "panfletária!. É, antes, uma "construção mais semiótica, mais simbólica e imagética, refletida a partir da ideia de silenciamento do corpo feminino”

Esta não é uma criação "panfletária!. É, antes, uma "construção mais semiótica, mais simbólica e imagética, refletida a partir da ideia de silenciamento do corpo feminino”

Uma retórica patriarcal enraizada “há quase 3000 mil anos” não se altera de um dia para o outro. Mas há gestos, palavras e até silêncios que lhe vão lapidando preconceitos e conferindo novos protagonistas, acredita Cátia Pinheiro, codiretora da Estrutura. É talvez essa a mensagem mais ampla e a esperança contida em F…, o mais recente espetáculo da companhia, que no final do ano passado levou a língua gestual portuguesa para cima de palco e que estreia agora a sua mais recente criação nas plataformas online do Teatro Municipal do Porto, entre os dias 25 e 27 de fevereiro (de quinta a sábado).

Com Cátia contracenam Patrícia da Silva e Paula Sá Nogueira, cada qual senhora do seu espaço e do seu quadrado do ecrã nesta vídeo-performance registada por André Godinho. “O espetáculo em si já estava programado para ter muito vídeo, mas não tem nada a ver pensar num objeto para palco ou num objeto para vídeo. Está mais próximo do cinema ou da televisão do que do teatro”, explica Cátia Pinheiro em entrevista por Skype ao Observador.

De facto, a pandemia obrigou F… a assumir uma cara exclusivamente virtual, reduzindo-lhe até o elenco que, aquando da ideia original da peça, há dois anos, tinha também os nomes de Mafalda Banquart e da artista e coreógrafa Sónia Baptista em cima da mesa. O propósito seria ampliar a discussão e a componente transgeracional do pensamento feminista e dos seus lugares de fala, aqui personificados por três mulheres que transpõem a singularidade das suas vivências para um guião sem palavras, que se expressa através do corpo.

“Ao longo de três meses de reuniões quase diárias (todas virtuais), começámos a achar que pegar na palavra poderia fazer com que a obra se pudesse transformar facilmente numa coisa bastante panfletária e nós não queríamos ir por aí, não queríamos encerrar sentidos. Então tentámos fazer com que a construção fosse uma coisa mais semiótica, mais simbólica e imagética, refletida a partir da ideia de silenciamento do corpo feminino”.

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Neste silenciamento cabe uma profunda desconstrução do lugar da mulher na sociedade e na História da Arte, que levou as três atrizes e cocriadoras a rever uma narrativa histórica milenar, que tem secundarizado a mulher na hora de as entronizar como protagonistas: “As mulheres, de certa forma, foram postas de parte desta narrativa histórica durante muito tempo, povoada, principalmente nos primórdios, por figuras masculinas. Não significa que não tenham existido mulheres, mas pura e simplesmente não foram relevantes nesta narrativa”.

“O tema precisa de ser constantemente referido e repensado. Há pano para mangas. Não nos podemos calar e parar de pensar sobre isso", diz-nos Cátia Pinheiro, uma das criadoras desta vídeo-performance

Com gestos aparentemente simples, mas carregados de simbolismo – ao ponto de emocionarem profundamente a atriz – Cátia Pinheiro vai, por exemplo, sobrepondo caras de mulheres inspiradoras para o elenco por cima de corpos de homens numa espécie de painel-manifesto que aparece na parede atrás de si. “É um bocado um ato de raiva”, solta da mesma forma que em cena soltou um profundo suspiro mesclado de cansaço e ira, reação involuntária que acabou por ficar no guião e que, de certa forma, contém o desalento por figuras como Freud – “não esqueçamos que catalogou as mulheres como histéricas” – ou Aristóteles não serem tão questionadas como a atriz acha que deveriam ser, não obstante o seu papel importante na construção social e cultural.

“Eu poderia ter preenchido aquela parede toda com mulheres que pensaram e transformaram a sociedade, mas que não são tão referidas, como por exemplo a Judith Butler, que já pensa desde os anos 90 sobre as questões de género, mas até há bem pouco tempo só nos focávamos no [Michel] Foucault, que é homem”.

Assim, amparado pelos rostos de Helena de Almeida, da artista trans Sophie, da cineasta e fotógrafa Agnès Varda, de Judy Chicago (que foi ponto de referência para este espetáculo pela sua instalação e performance feminista “Womanhouse”) ou até de Beyoncé, da esfinge de Cleópatra ou das encapuçadas Pussy Riot, F… assume-se como voz ativista de um exercício coletivo de reparação histórica que já vem sendo abordado desde os anos 70.

Se por um lado esta reparação tem surtido algum efeito, anui Cátia, por outro “se pensarmos bem”, atrai as mulheres para “as imensas ratoeiras” sistémicas que as impede de serem mais ativas: “Partimos sempre em desvantagem. Os tais 3000 mil anos que referi há pouco condicionaram não só tudo o que nos rodeia, como também são um carimbo que nos está impresso no ADN e que faz com que conceitos de subserviência, mesmo querendo lutar contra eles, volta e meia reapareçam.”

O teatro não foge à regra e, embora o número de mulheres saídas das academias seja “bastante superior ao dos homens”, isso não se traduz nos lugares de decisão maioritariamente masculinos. “Se calhar contam-se pelos dedos de uma mão as diretoras de teatro mulheres no nosso país”, atira Cátia, defendendo que uma política de quotas seria, “ainda que de uma forma forçada”, um meio necessário para tornar “a sociedade um bocadinho mais justa”.

“Nós não temos que estar somente a servir as ideias de outro encenador ou mesmo de um escritor. Nós podemos escrever os nossos próprios textos e felizmente há bastantes mulheres que o fazem. Mas, a verdade, é que as mulheres têm mais dificuldade de se inserirem neste mercado de forma mais firme do que os homens, por uma questão de tradição e também de pudor, de nos acharmos incapazes por mil e uma razões que nos foram enfiadas desde a nascença. A ideia da fragilidade feminina domina-nos desde que somos crianças”.

Aqui entra também a questão da maternidade, uma realidade que Cátia experienciou há uns meses e que está presente neste espetáculo. “Eu não ignorei o meu corpo de mãe”, afirma de modo resoluto. As cenas de extração de leite materno são talvez a sua manifestação mais visível, embora haja considerações menos literais, como as preocupações com os ideias de beleza associadas a uma transformação do corpo que, sendo “linda e natural”, está também imbuída de uma síndrome de rejeição. “O meu cérebro lutava contra essa transformação e eu performo um bocadinho isso”, diz, sublinhando que escolheu propositadamente o cor-de-rosa para acompanhar toda a sua performance, “não o rosa de fragilidade, mas o de empoderamento”.

Talvez F…, no ideal que Cátia Pinheiro o concebeu, não esteja totalmente completo: “Ainda nos faltam outras visões aqui. É muito diferente ser uma mulher branca, cigénero, do que uma mulher negra ou uma mulher trans. Estas representações de lugar de fala não estão incluídas no nosso discurso. Tenho pena e assumo o erro.” Mas, como projeto Under Construction que lhe está na raiz – nascido em 2018, de um texto que Cátia escreveu juntamente com Sónia Baptista sobre a representatividade de género no mundo do teatro – é bem provável que outras portas se abram nesta narrativa. “O tema precisa de ser constantemente referido e repensado. Há pano para mangas. Não nos podemos calar e parar de pensar sobre isso.”

“F…” está disponível de 25 a 27 de fevereiro (em exibição em contínuo a partir das 21h30 de quinta-feira), nas plataformas online do Teatro Municipal do Porto. Preço: €3,50. Duração: 50 minutos

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