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Finalmente, o dia. A Atalanta é um clube com 113 anos de existência, que já tinha marcado presença nas provas europeias e que escreveu na temporada de 2018/19 um autêntico conto de fadas na Serie A que acabou com um terceiro lugar e consequente apuramento para a fase de grupo da Liga dos Campeões pela primeira vez na história. No entanto, apenas esta noite poderia fazer o encontro inaugural no seu estádio, o Atleti Azzurri d’Italia. Um ano e meio depois, tendo pelo meio uma pandemia que fustigou particularmente uma cidade de Bérgamo que em vez de festejar o período mais áureo em mais de um século de existência se vestiu de luto para honrar as vítimas deixada pela Covid-19. A receção ao Real Madrid teria sempre uma enorme carga simbólica. E pior ficou.

Willy Braciano, jovem internacional pela Costa do Marfim que foi contratado como uma grande promessa no início de 2019 e que ajudou a equipa Sub-19 a ser campeã antes de ser cedido ao Pescara, não resistiu a um cancro no fígado e acabou por falecer esta terça-feira com apenas 21 anos, já no país de nascimento. “Toda a família da Atalanta está profundamente triste com o falecimento prematuro de Willy Braciano Ta Bi. Um destino cruel interrompeu prematuramente um sonho que tinha começado com a camisola nerazzurri em janeiro de 2019. Levou alguns meses para desempenhar um papel de liderança na Primavera e trazer o scudetto de volta a Bérgamo mas, acima de tudo, para deixar uma grande memória de si mesmo. Adeus, Willy”, comunicou o clube.

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Por todo esse contexto, a Atalanta enfrentava um dos encontros mais importantes da sua história, numa primeira mão dos oitavos onde tentava repetir o êxito frente ao Valencia da última temporada (e só perdeu nos descontos com o PSG na Luz, nos quartos) defrontando outra equipa espanhola no melhor momento da época que permitiu subir algumas posições na Serie A e sabendo que o Real Madrid se iria apresentar muito desfalcado, perante as ausências de nomes como Sergio Ramos, Benzema, Carvajal, Hazard, Marcelo, Rodrygo, Valverde, Éder Militão e Odriozola que levaram mesmo Zinedine Zidane a chamar jogadores da cantera para tentar manter a série de quatro vitórias consecutivas que permitiu uma boa aproximação ao Atl. Madrid no topo da Liga.

O jogo, esse, podia ser um mas tornou-se outro, após uma decisão polémica que valeu a expulsão pouco depois do quarto de hora inicial a Remo Freuler. Reduzida a dez, a Atalanta tentou fazer pela vida, defendeu-se a todo o custo fazendo das fraquezas forças e resistiu até aos 86′, altura em que Mendy conseguiu furar a resistência transalpina com um grande remate de fora da área. Não tendo feito um jogo de encher o olho, o Real foi competente na forma como soube aproveitar a vantagem numérica e ganhou vantagem para a segunda mão mas o espírito guerreiro da equipa de Gasperini, mesmo tendo um final cruel, faz com que a eliminatória não esteja ainda fechada.

A Atalanta voltou a começar com o seu ADN muito próprio de “exército que se defende atacando” (uma descrição muito referida pela imprensa espanhola nos últimos dias) e tinha até uma ligeira vantagem em relação ao Real, não pelas oportunidades que nenhuma equipa conseguiu criar mas pela facilidade com que desmontava a organização defensiva para colocar três/quatro unidades nas transições. No entanto, o jogo acabaria por ficar marcado por uma expulsão no mínimo polémica de Remo Freuler, numa falta fora da área sobre Mendy quando não era o último defesa nem o lateral francês ia para a baliza (17′). Com mais uma unidade, o conjunto espanhol agarrou mais no encontro, teve alguns remates perigosos por Isco e Modric mas criou apenas uma chance mais flagrante e em cima do intervalo, com Varane a desviar de cabeça para grande defesa de Gollini (43′).

No segundo tempo, Gasperini, que já tinha trocado Zapata por Pasalic e que mais tarde tirou Muriel lançar Ilicic, montou uma estratégia com linhas mais baixas do que é normal para conseguir equilibrar a equipa sem bola no corredor central e dar menos espaços a Modric, Kroos e Isco mas deixou de ter a capacidade que ainda conseguiu nos 45 minutos iniciais para estender jogo até à área contrária, tornando o encontro num caminho de sentido único para a baliza dos transalpinos. Modric, com um remate que desviou ainda num defesa e saiu a rasar o poste, e Vinícius, que chocou também com a muralha transalpina, tiveram duas boas oportunidades para desfazerem o nulo mas os minutos foram passando e o jogo ofensivo dos merengues foi ficando cada vez mais bloqueado até que Mendy conseguiu furar a resistência com um remate de pé direito de fora da área a quatro minutos do final.