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Os critérios já tinham sido anunciados e já tinham motivado críticas, por incluírem os deputados da Assembleia Nacional (o Parlamento) da Venezuela na lista de prioritários da primeira fase de vacinação contra a Covid-19 — que inclui ainda pessoal médico e de saúde, funcionários do Governo, militares e polícias mas não idosos nem cidadãos que por problemas de saúde associados pertençam a grupos de risco.

Agora, porém, o que é notícia não é apenas governantes e 277 deputados venezuelanos estarem equiparados a médicos ou enfermeiros na lista de prioridades de vacinação, mas sim o facto de já haver deputados vacinados quando mais de 90% dos trabalhadores de saúde do país ainda não receberam nenhuma vacina de combate ao vírus SARS-CoV-2.

A notícia foi dada pela agência Efe, tendo sido publicada em meios de comunicação como o jornal venezuelano El Estimulo — assumidamente anti-Maduro —  e o jornal digital El Español. Segundo a Efe, pelo menos três deputados da oposição a Maduro revelaram através das redes sociais que já tinham recebido uma dose da vacina Sputnik V, produzida na Rússia e ainda por aprovar na União Europeia. Foram eles Alfonso Campos, Anyelith Tamayo e Rubén Limas. Porém, escreve a Efe citando “fontes legislativas”, a lista de deputados vacinados “é maior” e já incluía, até à passada terça-feira (23 de fevereiro), “pelo menos uma dezena” de parlamentares.

A previsão é que os 277 deputados do Parlamento venezuelano venham a receber a vacina, tal como os membros do Governo do Presidente Nicolás Maduro. Porém, segundo a Efe, o executivo tinha assegurado que os trabalhadores da área da saúde seriam os primeiros a receber as primeiras doses da Sputnik V, o que não se confirmará dado que mais de 90% dos médicos, enfermeiros e técnicos do setor estão ainda por vacinar.

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Esta percentagem de profissionais de saúde ainda por vacinar foi calculada pela Efe, dado que as autoridades do país não avançaram qualquer balanço oficial relativo ao número de vacinas administradas a funcionários hospitalares. A agência Efe refere ainda assim que a Sputnik V já foi administrada a “várias dezenas de trabalhadores de saúde”.

Como o plano de vacinação inclui na lista de prioritários todos os deputados, a vacina russa chegará numa primeira fase também a “familiares diretos do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro”, visto que tanto a sua mulher — Cilia Flores — como o seu filho, Nicolás Maduro Guerra, têm assento na Assembleia Nacional da Venezuela.

A Venezuela dispõe neste momento de um lote de 100 mil vacinas da Sputnik V para combater a Covid-19. A vacina russa exige duas doses, o que significa que as autoridades do país podem vacinar numa primeira fase apenas 50 mil pessoas, menos de 0,5% da população. A vacinação só se começará a tornar massiva em meados de abril.

O deputado venezuelano Marco Aurelio Quiñones, conhecido opositor do regime chavista de Nicolás Maduro e membro do partido Vontade Popular, deixou críticas contundentes na rede social Twitter. Através de um texto publicado na terça-feira, Quiñones insurgia-se: “Não têm vergonha nenhuma. São apenas 100 mil vacinas, que ainda por cima precisam de duas doses para serem eficazes, mas não as reservam aos profissionais de saúde, polícias, militares ou funcionários de áreas de serviços como a alimentação, o que seria lógico em qualquer países civilizado, mas sim a políticos”.

Em Portugal, dos 230 deputados que compõem o Parlamento português foram considerados prioritários na lista de vacinação 50 (aproximadamente 22%), mas 12 deputados recusaram receber uma vacina contra a Covid-19 nesta primeira fase, como se explicava aqui. Ao todo, serão assim 38 os deputados vacinados numa primeira fase.