Uma crónica é algo mais do que um resumo alargado de um jogo de futebol. É, habitualmente, um fio condutor entre o antes, o durante e o depois dos 90 minutos — com as peripécias relevantes dos dias que antecederam o apito inicial, os acontecimentos cruciais que estiveram entre o apito inicial e o apito final e as eventuais ondas de choque do resultado que estiver no marcador depois do apito final. Nas últimas semanas, qualquer crónica do Benfica acaba por ter mais contar no que toca ao primeiro capítulo: o que olha somente para o que aconteceu antes do início do jogo.

As últimas horas do universo encarnado, na antecâmara da partida da segunda mão dos 16 avos de final contra o Arsenal, tiveram uma conferência de imprensa muito inflamada de Jorge Jesus, um buzinão de protesto junto ao Estádio da Luz e mais faixas de contestação ao treinador e ao presidente. Na antevisão, Jesus subiu o tom de voz, ilibou-se pessoalmente, assim como a Luís Filipe Vieira e aos jogadores, de responsabilidade pela má fase da equipa e atribuiu culpas ao surto de Covid-19 que afetou quase 30 profissionais do clube. “Chegou o limite de nos ofenderem (…) Buzinão? Devia haver era um buzinão para nos dar carinho, a mim e aos jogadores e ao presidente, isso era o que deviam fazer! Não sabem o que sofremos durante dois meses e meio! Os jogadores do Benfica precisam de carinho, o Benfica devia era estar junto”, acrescentou, revelando que reuniu com Vieira e com Rui Costa na passada terça-feira, para analisar o momento da equipa.

Ficha de jogo

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Arsenal-Benfica, 3-2 (4-3 no conjunto das duas mãos)

Segunda mão dos 16 avos de final da Liga Europa

Estádio Karaiskakis, em Atenas (Grécia)

Árbitro: Björn Kuipers (Holanda)

Arsenal: Leno, Bellerín (Lacazette, 77′), David Luiz, Gabriel, Tierney, Ceballos (Willian, 63′), Xhaka, Saka (Chambers, 90′), Odegaard (Elneny, 90′), Smith Rowe (Partey, 63′), Aubameyang

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Suplentes não utilizados: Ryan, Hein, Cédric, Pépé, Pablo Marí, Nketiah, Gabriel Martinelli

Treinador: Mikel Arteta

Benfica: Helton Leite, Lucas Veríssimo, Otamendi, Vertonghen, Diogo Gonçalves, Pizzi (Everton, 57′), Weigl (Waldschmidt, 90′), Taarabt (Gabriel, 57′), Grimaldo (Nuno Tavares, 85′), Rafa, Seferovic (Darwin, 57′)

Suplentes não utilizados: Svilar, Vlachodimos, Gilberto, Chiquinho, Pedrinho, Cervi, Gonçalo Ramos

Treinador: Jorge Jesus

Golos: Aubameyang (21′ e 87′), Diogo Gonçalves (43′), Rafa (61′), Tierney (67′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Taarabt (5′)

Tudo isto, que acabou engrossado pelo empate sem golos contra o Farense que deixou o Benfica a 15 pontos da liderança da Liga, iria entrar em campo esta quinta-feira contra o Arsenal. Para disputar um jogo que valia a passagem aos oitavos de final da Liga Europa e que determinava se os encarnados ficavam de fora das competições europeias, a equipa de Jorge Jesus deslocava-se até ao Estádio Karaiskakis, em Atenas, a casa do Olympiacos que servia de casa emprestada dos ingleses. Ingleses que saíram do empate da primeira mão com uma ligeira vantagem, por terem marcado “fora”, e que eram liderados por um treinador que é um confesso admirador de Eusébio.

“Sempre fui um grande admirador da história do futebol, tento perceber por que razão as coisas evoluíram da forma que evoluíram e penso que o Eusébio desempenhou um grande papel nesse sentido. Foi um jogador que gerou grande admiração pela grande personalidade e carisma. Desenvolvi esta admiração por ele porque tenho vários amigos portugueses que foram importantes na minha carreira [jogou com Hugo Leal e Agostinho no PSG, com Capucho no Rangers e com Nuno Valente e Manuel Fernandes no Everton]. Isso criou uma certa ligação. Cheguei a receber algumas prendas e guardo-as comigo”, contou Mikel Arteta na antevisão da partida, confessando que uma dessas “prendas” foi mesmo um par de chuteiras que pertenceram ao jogador português e que mantém expostas numa estante.

“Esta crise do Benfica não tem nada a ver comigo, nem com os jogadores, nem com o presidente”, destaca Jesus

Em resumo, e no que toca a contas, o Benfica precisava de ganhar ou de empatar marcando mais de dois golos para carimbar o passaporte para os oitavos de final — uma vitória do Arsenal ou um empate sem golos significava a eliminação encarnada, enquanto que um novo empate por 1-1 levava a eliminatória para prolongamento. Depois de ter regressado ao natural 4x4x2 no Algarve, na igualdade com o Farense, Jorge Jesus repetia o que já tinha feito na primeira mão em Roma e voltava a apresentar um sistema de três centrais, com o trio Lucas Veríssimo, Otamendi e Vertonghen. A grande surpresa era a ausência de Darwin do onze inicial: o uruguaio começava no banco, assim como Waldschmidt, e Seferovic e Rafa surgiam nas posições mais adiantadas. Diogo Gonçalves voltava a ser titular na Europa, depois de Gilberto ter jogado contra o Farense, e Weigl, Pizzi e Taarabt mantinham-se no miolo do meio-campo. Do outro lado, Arteta só fazia uma mudança, ao trocar Cédric por Tierney, e mantinha Willian, Pépé e Lacazette como suplentes. Destaque ainda para a presença de Gonçalo Ramos, jovem avançado que tem estado ao serviço da equipa B, no banco encarnado, e de Thomas Partey, médio que recuperou de lesão, no banco dos gunners.

O objetivo, como já se sabia, era repetir o feito de 1991, largamente atingido graças a dois golos de Isaías: depois de um empate por 1-1 em casa, vencer na segunda mão, afastar o Arsenal e seguir em frente. Numa primeira parte disputada a um ritmo mediano e sem grande presença junto às balizas, o Benfica cedo mostrou que o objetivo seria alargar o jogo — algo que, por exemplo, não aconteceu muitas vezes contra o Farense, no domingo. Grimaldo e Diogo Gonçalves, abertos nas alas, eram os canais preferenciais para chegar a terrenos mais avançados. Como os ingleses atuavam mais subidos no relvado, com a linha defensiva sempre próxima do meio-campo, os encarnados exploravam a profundidade nas costas do adversário e as desmarcações de Seferovic.

Rafa, o elemento que jogava mais perto do avançado suíço, realizava uma partida de grande sacrifício: recuava para ir buscar jogo e recuperar bolas, era o responsável por abrir nos corredores e por encontrar as movimentações de Seferovic. A única coisa que não conseguia fazer era aparecer na grande área para responder às lateralizações do suíço, que tombava muitas vezes na esquerda mas não tinha ninguém para assistir na faixa central — porque Diogo Gonçalves não realizava esse movimento, porque Taarabt ficava sempre à entrada da área e porque Pizzi não aparecia em zonas de finalização.

A equipa de Jorge Jesus estava bem defensivamente, sem permitir grandes espaços ao Arsenal, e pecava principalmente na transição ofensiva: até quando arrancava em superioridade numérica. Tanto Grimaldo como Diogo Gonçalves, quando lançados em velocidade, tinham tendência para pisar a bola e jogar para trás, demonstrando pouca confiança para correr mais riscos. Os gunners iam gerindo a partida (e a vantagem na eliminatória) com as linhas ligeiramente elevadas e sem grande assertividade. Ainda assim, demonstraram uma evidência — só precisavam de meia oportunidade para chegar ao golo. Saka apareceu descaído na direita e tirou um passe vertical perfeito que rasgou a defensiva encarnada; Aubameyang fugiu à marcação de Otamendi e ao acompanhamento de Veríssimo e picou a bola, de primeira, à saída de Helton Leite (21′). O avançado gabonês marcava pela segunda vez nesta edição da Liga Europa e confirmava a vantagem inglesa.

O Benfica reagiu à desvantagem de forma tímida, aproveitando a iniciativa que era claramente consentida pelo Arsenal, e Vertonghen ficou perto de empatar com um cabeceamento por cima na sequência de um livre cobrado por Pizzi na direita (34′). Helton Leite ainda foi forçado a uma grande defesa na repetição a papel químico do golo mas na esquerda e com Saka a receber de Ceballos (41′), embora o lance tenha sido anulado por fora de jogo, e o momento mais espetacular da primeira parte ficou guardado para os instantes imediatamente antes do intervalo. Weigl sofreu falta de Ceballos à entrada da grande área, a descair na esquerda do ataque encarnado, e o livre ficou à responsabilidade de Diogo Gonçalves: o lateral ex-Famalicão atirou de pé direito, a bola passou por cima da barreira e não deu qualquer hipótese a Bernd Leno (43′). O jogador de 24 anos estreava-se a marcar pelo Benfica, empatava o jogo e empatava a eliminatória. A equipa de Jorge Jesus recebia uma espécie de prémio por uma primeira parte mais esforçada do que inspirada e chegava ao intervalo em cima do Arsenal, com a equipa totalmente inserida no meio-campo adversário.

Na primeira parte, a principal nota positiva do Benfica — excluindo o enorme golo de Diogo Gonçalves — ficava reservada para Weigl. O alemão, que parece ter evoluído bastante com Jorge Jesus e é agora indispensável para o treinador encarnado, não se reservava às funções de médio defensivo e aproveitava o facto de um central extra nas costas para arriscar um pouco mais. Foi numa dessas movimentações, em que se aproximava da grande área e permitia a Pizzi e Taarabt alargarem o ataque, que acabou por sofrer a falta de Ceballos que deu o golo de Diogo Gonçalves.

[Carregue nas imagens para ver os golos do Arsenal-Benfica:]

Nenhum dos treinadores fez alterações ao intervalo e a segunda parte arrancou com um golo anulado a Aubameyang, depois de o avançado ser apanhado em fora de jogo num lance novamente semelhante ao do primeiro golo, com assistência de Odegaard (50′). O Benfica teve mais bola nos primeiros instantes, com o objetivo de catapultar o ímpeto do golo no final da primeira parte para o segundo tempo, mas depressa o Arsenal assumiu a iniciativa da partida para não deixar que o empate se prolongasse. Jesus mexeu pela primeira vez já perto da hora de jogo e fez desde logo uma tripla substituição: tirou Seferovic, Pizzi e Taarabt e lançou Darwin, Everton e Gabriel.

O Benfica passava a atuar mais perto de um 3x4x3, com Darwin ao meio, Rafa na esquerda e Everton na direita, sendo que Gabriel entrava para jogar a ‘8’, à frente de Weigl, e não imediatamente a seguir à defesa. Foi nesta fase, em que os encarnados ainda se adaptavam às substituições e o Arsenal procurava perceber como os adversários iam atuar, que o Benfica conseguiu chegar à vantagem no jogo e na eliminatória. Na sequência de um canto a beneficiar os ingleses, Helton Leite aproveitou o facto de os gunners terem muitos elementos destacados no ataque para solicitar Rafa com um pontapé muito longo; Rafa aproveitou um erro de Ceballos, que tentou atrasar para o guarda-redes de cabeça, tirou Leno da frente com um belo pormenor e marcou com a baliza já deserta (61′). O avançado português coroava a bela exibição que estava a realizar com um golo, sendo que não marcava há cerca de um mês, e deixava o Arsenal obrigado a fazer dois golos para seguir em frente.

Arteta reagiu à desvantagem com duas mexidas, ao tirar Ceballos e Smith Rowe para lançar Willian e Partey, e acabou por catapultar a equipa para o ataque. Os ingleses instalaram-se por completo no meio-campo adversário e não esperaram sequer dez minutos para encurtar a montanha que ainda tinham de escalar. Willian desequilibrou na esquerda e solicitou Tierney, já no interior da grande área; o lateral tirou Everton da frente, aproveitou a reação lenta de Lucas Veríssimo e atirou cruzado para bater Helton Leite (67′). Só depois do golo do Arsenal é que foi possível perceber a diferença que as três substituições de Jesus tinham provocado — e não era propriamente uma diferença positiva.

Os dois elementos do meio-campo que entraram, Gabriel e Everton, demonstravam uma intensidade muito inferior à de Pizzi e Taarabt e diminuíram a capacidade de pressão que aquele setor tinha praticado desde o início do jogo. Ou seja, deixaram a posse de bola do Benfica muito limitada, algo dependente das lateralizações e do futebol mais direto, e tornaram a equipa mais suscetível à pressão do Arsenal (que estava longe de ser asfixiante). Os minutos iam passando e Arteta acabou por arriscar quase tudo, ao trocar Bellerín por Lacazette, colocando Saka a cumprir toda a ala direita. Os encarnados corriam poucos riscos, trocavam a bola e jogavam principalmente no erro do adversário — algo que podia revelar-se produtivo, como se tinha visto no golo de Rafa.

O lance capital da partida, contudo, acabou por aparecer depois de Jorge Jesus tirar Grimaldo, claramente com dificuldades físicas, e colocar Nuno Tavares — e  sobretudo depois de Lacazette dispersar atenções na grande área. Saka recebeu na direita depois de Darwin não ter aproveitado um contra-ataque da melhor maneira, foi mais forte do que Tavares no um para um, cruzou para o segundo poste e viu Aubameyang apareceu nas costas de Lucas Veríssimo para bisar e sentenciar a eliminatória (87′). Nos últimos instantes, Waldschmidt ainda entrou no Benfica, Arteta alterou os riscos que tinha cometido ao trocar Saka e Odegaard por Chambers e Elneny e o resultado não voltou a alterar-se. Rafa ainda acertou no poste, de cabeça, mas o lance seria anulado por fora de jogo (90+3′).

O Benfica esteve a ganhar, esteve com pé e meio nos oitavos de final da Liga Europa, permitiu a reviravolta do Arsenal e está eliminado das competições europeias. Num jogo muito digno dos encarnados, em que a equipa terá certamente estado mais perto daquilo que é pretendido por Jorge Jesus, faltou uma pontinha de sorte, faltou atenção às movimentações de Aubameyang entre o central e o lateral e faltou, acima de tudo, a experiência de estar a trabalhar em cima de vitória. O Benfica foi traído pelo próprio momento que está a viver e fica agora reduzido à Primeira Liga, onde é quarto, e à Taça de Portugal, onde está em vantagem nas meias-finais frente ao Estoril. Rafa, principalmente ele, tentou lembrar Isaías e 1991 — mas o Arsenal de há 30 anos não tinha Aubameyang.