Há filmes que, no seu trabalho de recriação de uma determinada época, não conseguem senão macaqueá-la pobremente. Outros, fazem-no de forma tão imaculada, que se diria que atores e técnicos se meteram numa máquina do tempo e foram rodar à era em que a fita decorre. É o que sucede em “Sylvie’s Love”, de Eugene Ashe (Amazon Prime Video), que consegue evocar admiravelmente a Nova Iorque, e o Harlem, dos anos 50 e 60, e a forma, o discurso, as convenções narrativas e visuais, os ambientes, a paleta de cores, as atitudes sociais e a temperatura sentimental dos melodramas e dramas românticos clássicos de Hollywood, tal como foram cultivados por um Douglas Sirk, um Vincente Minnelli ou um Leo McCarey.

[Veja o “trailer” de “Sylvie’s Love”:]

As personagens principais são todas negras, fazendo de “Sylvie’s Love” um filme que poderia ter sido rodado na altura em que se passa, se houvesse então na indústria do cinema americano realizadores negros com espaço e tolerância para trabalhar, e o acesso aos meios e aos orçamentos que os de hoje têm. Mas este não é um filme político, de veia ativista, ou cheio de crispações e ressentimentos raciais e sociais. Tudo pelo contrário. Eugene Ashe disse que queria contar simplesmente uma história sobre a experiência negra que não estivesse enquadrada pela adversidade ou pela luta, e as referências à situação dos negros nos EUA de então são mínimas, alusivas ou para ajudar a situar um determinado momento no tempo.

[Veja uma entrevista com o realizador Eugene Ashe:]

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

O filme documenta, até, uma realidade geralmente ausente do cinema americano que remete para o tempo em que decorre o enredo: o aparecimento de uma classe média negra afluente e ativa nos mais variados sectores profissionais (o sogro de Sylvie é médico de renome, o marido trabalha em publicidade, a sua chefe na estação de televisão é a primeira negra a ter chegado a um lugar de produtora). Estamos, ao menos por uma vez, longe dos preguiçosos lugares-comuns de opressão, segregação e frustração, aqui substituídos pelo retrato de uma ascensão social decerto lenta e difícil, mas que corresponde a um facto da América da época.

[Veja uma entrevista com os dois atores principais:]

A história de “Sylvie’s Love” começa na década de 50, no Harlem, com o encontro entre Sylvie (Tessa Thompson), que trabalha na loja de discos do pai, sonha trabalhar na televisão e está noiva de um rapaz que combate na Guerra da Coreia, e Robert (Nnamdi Asomugha), um talentoso e promissor saxofonista de jazz, que começa a trabalhar na loja. Têm um breve romance que a rigorosa mãe de Sylvie tenta anular, mas acabam por se separar e ele vai para Paris cumprir um contrato com o seu quarteto. Retomam contacto em 1962, por puro acaso, quando Sylvie já está casada, é mãe de uma menina e trabalha em televisão (o que é motivo de conflito com o marido) e Robert um músico de renome cuja formação entretanto ficou famosa.

[Veja uma sequência do filme:]

O enredo da fita contempla, natural e gostosamente, as situações feitas e os artifícios reconhecíveis deste formato de encontros e desencontros românticos, sem que Eugene Ash nem por uma vez caia na estridência melodramática ou na fungadela exagerada. À elegância do estilo cinematográfico corresponde o volume emotivo comedido. E Ashe usa a banda sonora com tanta inteligência como delicadeza. Em “Sylvie’s Love”, a música, seja jazz (cujo meio está também muito bem evocado e predomina no tecido sonoro e de ambiente do filme), rock, “blues” ou números orquestrais, é uma personagem ativa e omnipresente: apoia a história, estabelece atmosferas físicas e emocionais, comenta a ação e os estados de alma dos protagonistas.

E o filme não se chama “Sylvie’s Love” por acaso. É que Sylvie é o centro humano e o fulcro dramático do filme, que se apresenta, logicamente, como um “woman’s picture” na linha dos da velha escola (Sylvie é independente e determinada, quer ter a carreira com que sonhou e ir sempre mais longe, mas também é mulher e mãe e gosta de o ser). E Tessa Thompson encarna-a com gaiatice, graciosidade e convicção, transportando-a magnificamente da juventude até à maturidade, ao som do mais envolvente jazz ouvido no cinema nestes últimos tempos.

“Sylvie’s Love” está disponível na Amazon Prime Video