O vinho é uma oportunidade para provar o mundo. Na falta de viagens, imposição da pandemia que encerrou fronteiras e inibiu deslocações, pode funcionar como postal de locais ainda desconhecidos que, uma vez aberta a garrafa, se tornam mais íntimos. Foi esse o pensamento de Eric Asimov, crítico de vinhos no The New York Times, que dedicou um artigo naquele jornal, no final de janeiro, a 20 vinhos a menos de 20 dólares, provenientes de 11 países diferentes e capazes de ilustrar regiões produtoras que, por agora, estão fora do nosso alcance: como Calábria ou Sicília, em Itália, Kamptal, na Áustria, ou a muito portuguesa Bairrada.

Bairrada. Pode uma casta dar boleia a toda uma região?

Certo que nem todos os vinhos são capazes de expressar o terroir de origem, dada a massificação da produção, e nem todos os vinhos de pequenos produtores são dignos de nota. Havendo bons e maus exemplos em ambos os lados da barricada, o crítico norte-americano selecionou duas dezenas de rótulos que correspondem à premissa lançada, incluindo o Casa de Saima Baga Tonel tinto 2018, considerando-o “gracioso e comovente, com sabores terrosos de frutas vermelhas”. É o único português na lista.

A honra é grande para o pequeno produtor de Sangalhos cujo nome, à partida, pode não soar tão familiar quanto isso. “Há pouca informação, mas a Casa de Saima é um clássico, já faz vinhos desde os anos 80. Acaba por ser, na Bairrada, uma das casas pioneiras na região”, conta Paulo Nunes, enólogo consultor neste e noutros projetos (trabalha ainda no Douro e em Trás-os-Montes). O perfil discreto da marca casa com o da produtora Graça Miranda — nem ela, nem os vinhos tiveram “necessidade de estrelato” —, com quem o Observador não conseguiu chegar à fala.

O vinho está à venda em garrafeiras e na restauração (© DR)

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O caminho de Graça Miranda foi incomum: a professora de economia “deixou o conforto do ensino nos anos 80” para dedicar-se exclusivamente ao projeto vínico já lá vão dezenas de anos. “Ela é alguém que vive isto. De todos os projetos que tenho, é um dos produtores mais envolvidos”, garante o enólogo que visita a propriedade semanalmente. A par da “meia dúzia de videiras” existentes desde o início, algumas delas centenárias, Graça e o então marido plantaram uma grande parcela, a Vinha da Corga, que tem atualmente 10 hectares e é o berço do vinho distinguido na publicação norte-americana.

Graça faz parte de um movimento que marcou o fim da década de 1980, isto é, o aparecimento de pequenos produtores e destacou-se ao longo do tempo por uma certa teimosia. “Provavelmente, hoje é fácil defender a casta Baga, mas em 2000 toda a gente fugia a sete pés dela. A Graça não se deixou influenciar pelo fenómeno das castas estrangeiras, pelo deslumbramento do novo mundo. Foi sempre teimosa e continuou a fazer a Baga”, diz o enólogo, referindo-se a uma época não tão boa para aquela região. Cerca de 90% do encepamento da Casa de Saima diz respeito a Baga e Castelão, nas uvas tintas, e Bical, Maria Gomes e Cercial, nas brancas (castas tradicionais da região, à exceção do Castelão). Os outros 10% servem para ilustrar algum “atrevimento” e apontam na direção do Merlot e do Pinot Noir. São pequenos ensaios mas, diz Paulo Nunes, “não podemos confundir a árvore com a floresta”.

O enólogo começou a fazer vinhos na Casa de Saima em 2003, mais ativamente desde 2008, local onde a produção é biodinâmica (a aplicação de produtos químicos é mínima e muito controlada). Situada no centro da região demarcada da Bairrada, este produtor conta com 20 hectares de vinha, estando os vinhedos distribuídos por pequenas parcelas de terreno. Atualmente, a produção ronda as 120 mil a 150 mil garrafas por ano e no portefólio estão espumantes, rosés, tintos e brancos (são cerca de 10 referências).

Pedro Soares: “Os vinhos da Bairrada voltaram a ser de confiança”

A Casa de Saima, garante o enólogo, é provavelmente mais conhecida entre os pares do que o grande público e é, também, mais respeitada do que famosa. Ainda assim, o “grande boom” aconteceu há cerca de 5 anos, com o mercado dos EUA a piscar o olho aos vinhos aí concebidos. “Funciona muito bem porque, provavelmente, lá há uma procura por algo mais genuíno e puro”, diz. O monocasta Baga destacado no The New York Times segue essa tendência e apresenta um menor teor alcoólico, a rondar os 11,5%. Não é um topo de gama. É, ao invés, “um vinho bairradinho do qual não teríamos orgulho há 15 anos”.

“Estamos a falar de uma Baga muito aberta, com pouca cor e álcool. Nos anos 2000 queríamos o contrário, comenta Nunes. O vinho desmistifica o que a Baga pode ser e, apesar de engarrafado precocemente e de ser facilmente consumido ainda jovem, tem uma “grande capacidade de guarda”. O Casa de Saima Baga Tonel tinto 2018 não se encontra na moderna distribuição — não há volume suficiente para alimentar essas cadeias — e está presente na restauração e nas garrafeiras a rondar os 15 euros.