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João Noronha Lopes, um dos candidatos derrotados nas últimas eleições do Benfica com um total de 34,71% dos votos que desde o sufrágio tem feito raríssimas intervenções públicas sobre o clube, aproveitou o aniversário dos encarnados para escrever um longo texto onde agarra no centenário do nascimento de Duarte Borges Coutinho, um dos presidentes mais emblemáticos de sempre do conjunto da Luz, para fazer uma análise ao momento que se está a atravessar com algumas críticas nas entrelinhas ao elenco liderado por Luís Filipe Vieira.

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“Celebramos hoje o 117.º aniversário do Sport Lisboa e Benfica. Bem sei que o período que o nosso clube atravessa não parece dado a festejos mas é nos momentos difíceis que é mais importante celebrar o benfiquismo. Festejar este dia faz-nos recordar como, ao longo duma história extensa, formámos a nossa identidade. A identidade dum clube popular, forjado desde a primeira hora com uma ambição: a Glória! Hoje é dia de celebrar a nossa já longa pertença a este clube incomparável e é dia de avivar a chama imensa entre os mais novos. É dia de lembrar com alegria as figuras do passado e de, a partir delas, sonhar com as conquistas que ambicionamos”, começou por referir, antes de recordar a figura de Borges Coutinho, que liderou o clube durante oito anos.

“Com ele estão o pensamento e a memória dos benfiquistas, não porque parece bem dizê-lo, mas porque a sua vida nos ensina o fundamental sobre ser Benfica. Não podemos construir nem o presente, nem o futuro, sem conhecer, respeitar e honrar o legado que nos fez gloriosos. Esta é uma responsabilidade quotidiana do Sport Lisboa e Benfica e de quem tem o privilégio de o representar. Borges Coutinho tornou-se benfiquista ainda criança, no velho Estádio das Amoreiras, mas só muito mais tarde, já nos anos 50, se fez sócio do clube. Trazia consigo uma sólida formação académica, cívica e profissional que viria a ser posta, com fervor, ao serviço do Benfica, numa dedicação desinteressada. Na década seguinte, seria eleito diretor de assuntos administrativos e das instalações sociais na presidência de Adolfo Vieira de Brito e, em duas eleições seguintes, viria a ser candidato a diretor em listas derrotadas. Em Abril de 1969 é eleito, pela primeira vez, presidente do Sport Lisboa e Benfica”, escreveu sobre o líder até 1977, altura em que deu lugar a uma segunda passagem de José Ferreira Queimado.

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“Na sua presidência, o Benfica viveu um período de verdadeira hegemonia no futebol português, com sete Campeonatos conquistados em oito anos, um dos quais – em 1973 – sem qualquer derrota. Nas modalidades, conseguimos numerosos troféus, fortalecendo ainda mais a nossa tradição eclética. Foram também anos de enriquecimento do património e de modernização do clube, com o Benfica a tornar-se proprietário dos terrenos do Estádio da Luz, onde se começou a erguer uma extraordinária Cidade Desportiva”, prosseguiu, antes de entrar no exemplo de Borges Coutinho para tecer críticas indiretas ao atual momento dos encarnados.

“A liderança indiscutível de Borges Coutinho deixou uma marca profunda. Soube afirmar o prestígio do Benfica em todo o mundo e, com elevação, foi intransigente na defesa dos interesses do clube, dando sempre a cara nos momentos difíceis. Ele, que atravessou nos seus mandatos a turbulência da revolução e momentos de verdadeira crise económica e social, nunca procurou desculpas e nunca transigiu na defesa da democracia. Rejeitou por isso a criação de qualquer órgão que escolhesse indiretamente o presidente e o Benfica continuou a eleger o seu presidente e demais dirigentes com o voto livre dos sócios. Com a sua liderança, o Benfica foi um exemplo para Portugal, ao manter eleições democráticas e transparentes quando o país não as tinha, e ao ceder as instalações do Clube para as primeiras assembleias de sindicatos livres. Em 1977, com o Benfica de novo em primeiro lugar do Campeonato e uma reeleição assegurada, decide não se apresentar a eleições. Estava no Benfica para servir e, sem apego ao poder, soube escolher o momento para sair”, destacou Noronha Lopes.

Em Borges Coutinho viviam juntas a elegância e a determinação em vencer, a liderança e a sobriedade, a elevação de princípios, o estatuto moral, o entusiasmo e o sentido de missão de alguém que nunca viu na responsabilidade um fardo, mas sim um enorme motivo de orgulho. Deixou-nos cedo demais.”

“Era ele o presidente quando entrei pela primeira vez no Estádio da Luz e foi nesses anos que me habituei a ver o Benfica ganhar. Devo-lhe a minha homenagem. Mas esta evocação de um dos nossos maiores não é apenas um sinal de reconhecimento e de saudade. Olhar a grandeza do nosso passado, em dia do aniversário do clube, é também o melhor caminho para projetar os dias de amanhã. Na liderança pelo exemplo de Borges Coutinho, encontraremos sempre uma inspiração para o Benfica cuja mística celebramos: um Benfica com identidade, com valores, com paixão e com uma enorme ambição de vencer”, concluiu o antigo candidato.