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Os olhares pesados, a menor alegria no aquecimento, os ânimos mais calmos. Nem o próprio hino do FC Porto, o momento que tem tendência a dar mais cor a um espaço que continua despido, disfarçou o momento de luto que os azuis e brancos ainda vivem com a morte de Alfredo Quintana, guarda-redes da equipa de andebol que faleceu esta sexta-feira. As cartolinas brancas com o “Quintana 1” em todas as cadeiras do topo onde se costuma concentrar no Dragão Arena a claque Super Dragões continuavam a destacar-se, a enorme tarja levantada por todos os jogadores com a frase “Eterno Alfredo Quintana” voltou a ser destaque. O ambiente continua a ser de consternação.

Miguel Queiroz, jogador com mais anos de FC Porto e capitão de equipa, foi um dos mais emocionados durante o minuto de silêncio que foi cumprido no Dragão Arena antes do clássico de basquetebol frente ao Benfica, quando passaram imagens de um dos melhores guarda-redes sempre do clube e da Seleção. No banco estava Moncho López, há mais de uma década treinador dos azuis e brancos e um admirador especial de Quintana, em mais uma história que ficará do luso-cubano. O número 1 era um daqueles super atletas nascidos para brilhar em qualquer desporto ou modalidade, tão depressa fazendo roscas ou defesas no andebol (é mesmo assim, antes de ser um monstro nas balizas atuava como jogador de campo) como remates ou blocos no voleibol, a modalidade que o pai jogava. O basquetebol não era exceção e, de quando em vez, o internacional agarrava na bola sem preparação e marcava triplos seguidos no Dragão Arena como se fosse do basquetebol com Moncho sem saber o que dizer.

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A marca deixada por Quintana foi transversal, ao clube, aos companheiros, aos adversários e a todas as restantes modalidades. Também a equipa de basquetebol se associou às homenagens que têm sido feitas, jogando com uma pequena faixa preta com o nome do luso-cubano na alça esquerda do equipamento e acabando a partida com a camisola número 1 nas mãos para uma última fotografia e saudação. E depois do empate no clássico com o Sporting no hóquei em patins, o Dragão Arena teve mais um clássico, com o Benfica a impor a segunda derrota ao FC Porto na fase regular por 87-79 antes de novo jogo grande em casa, desta vez com o líder Sporting.

Naquele que foi o terceiro clássico da temporada depois das vitórias do FC Porto na primeira volta da fase regular na Luz (88-79) e nas meias-finais da Taça Hugo dos Santos (80-76), os dragões voltaram a entrar melhor e saíram na frente no final de um primeiro período onde os ataques foram superiores às defesas mas as percentagens de lançamento não refletiram isso no marcador (22-19). Nos dez minutos seguintes, os domínios foram repartidos: com João Soares, Miguel Queiroz e Tanner McGrew em foco, os azuis e brancos chegaram a ter uma vantagem de 11 pontos (35-24) mas os encarnados melhoraram no plano defensivo e na luta nas tabelas e reduziram a distância para apenas um ponto ao intervalo, com um parcial de 13-3 que valeu o resultado de 38-37 no descanso.

O segundo tempo começou com a primeira vantagem dos encarnados após longos minutos, algo que se manteve no período seguinte mesmo sem haver capacidade para deslocar no resultado que andou muitas vezes na diferença de uma posse de bola até Moncho López parar o jogo com o Benfica a ganhar por 52-49 sem resultados práticos, com o FC Porto a somar cinco turnovers consecutivos e a permitir ao rival disparar para uma vantagem de 12 pontos, ligeiramente atenuada no final do terceiro período (66-55) com Quincy Miller a ser o grande destaque. Os dragões ainda conseguiram ficar apenas a uma posse de bola com o aumento da intensidade de jogo e da agressividade defensiva e ofensiva mas os encarnados agarraram de novo a partida e ganharam por 87-79, com Rafael Lisboa e Tomás Barros a terem um papel importante no regresso dos visitantes à melhor fase na partida.

“Foi uma semana mesmo muito difícil para a família portista, queríamos dedicar a vitória ao Alfredo. Hoje joguei com número 11 e Queiroz nas costas mas joguei com o 1 e com Quintana no coração. É complicado, tentei manter-me forte pela minha equipa mas quem conhece o Quintana sabe que é muito difícil jogar este jogo, dar tudo e não conseguir ganhar. É muito doloroso mas prometo que vamos voltar às vitórias, que vou dar tudo dentro de campo e a partir de hoje sempre que correr, estou a correr pelo Quintana também. Temos de ir à luta, por nós, pelas nossas famílias, pelos portistas, pelo Quintana. Sei que podia ter feito mais e vou dar…”, destacou Miguel Queiroz.

“Sobre o jogo, quero dizer que era hipócrita arranjar desculpas. O Benfica marca 50 pontos na segunda parte com uma facilidade que tem muito a ver com os nossos erros defensivos. Não conseguimos parar as ações do Rafael Lisboa, não estivemos tão fortes no ressalto e quando recuperámos, voltámos a ter dois erros. São erros que assumo e que vamos trabalhar para corrigir”, começou por referir também na zona de entrevistas rápidas do Porto Canal o treinador dos dragões, Moncho López, antes de falar do legado deixado por Quintana.

“Misturar a exibição com as homenagens ao Alfredo Quintana não seria algo justo nem digo para a sua figura. O Alfredo era uma pessoa muito querida, que deixa um legado muito grande. Foi uma semana muito dura, muito triste, que continua a ser. O Alfredo é das pessoas que não merecem morrer, dá muito a todos. Vi muitas pessoas a chorar, seguranças, empregados de limpeza, atletas meus, atletas do hóquei, muitos sentiram a morte dele e é por isso que vai viver eternamente na memória portista. Transcendeu todas as modalidades, é uma lenda do clube como foi no futebol José Maria Pedroto, como foi no basquetebol Dale Dover. Isso é o Alfredo, esse vai ser sempre o Alfredo”, destacou o técnico espanhol a concluir a flash interview.