Em agosto, depois da humilhante goleada sofrida às mãos do Bayern nos quartos de final da Liga dos Campeões, o então presidente do Barcelona nomeou sete jogadores que eram “intocáveis” — ou seja, que não iriam sair do clube durante o verão. Eram eles Messi, Ter Stegen, Lenglet, Nélson Semedo, De Jong, Griezmann e Dembélé. Só um acabou por deixar mesmo a Catalunha: o lateral português.

“Quando voltei das férias, cheguei a Barcelona com a minha família e falámos [Semedo e a direção do Barcelona], como fazíamos normalmente. Eles explicaram que o clube estava com alguns problemas financeiros e eu era um dos jogadores que podia sair e garantir algum dinheiro. Existiam vários jogadores na mesma posição do que eu. O Suárez, o Vidal, o Rakitic… Com tudo isto que se passa agora [Covid-19], todos os clubes têm problemas financeiros. Não há adeptos nos estádios. No Barcelona, as pessoas nem podiam entrar no museu”, revelou o internacional português ao Telegraph, na primeira grande entrevista que deu depois de trocar os catalães pelo Wolverhampton. Uma decisão que considera ter sido “muito boa” e sobre a qual não teve de “pensar duas vezes”.

Nelson Semedo assina pelo Wolverhampton

Suárez saiu para o Atl. Madrid, Vidal para o Inter Milão, Rakitic para o Sevilha. “No futebol, tudo pode acontecer, mas fiquei um pouco surpreendido por me terem deixado sair”, explicou Semedo, deixando a ideia de que já teria tentado rumar a outras paragens, sem grande sucesso. Contratado por pouco mais de 30 milhões de euros, o lateral foi um pedido expresso de Nuno Espírito Santo depois de Matt Doherty ter rumado ao Tottenham de José Mourinho. “Tem sido uma experiência muito boa e este é um clube com boas ambições e bons jogadores. Honestamente, o Wolves surpreendeu-me pela organização, pela estrutura do clube e pela maneira de ser da equipa. Já sabia que a equipa tinha bons jogadores mas é melhor do que o que tinha imaginado”, acrescentou o jogador formado no Benfica.

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Apesar de a temporada do Wolves estar a ficar abaixo das expectativas — a equipa está atualmente no 12.º lugar e o objetivo de voltar às competições europeias está cada vez mais distante –, Nélson Semedo garante que está satisfeito com a decisão de rumar à Premier League e que a integração na equipa foi muito facilitada pelo facto de o grupo ter vários jogadores portugueses, como Rui Patrício, João Moutinho ou Rúben Neves. “É mais fácil para mim porque existem vários jogadores portugueses que me ajudam em campo. Os jogadores ingleses, como o Conor Coady, também têm sido ótimos e isso ajudou-me na adaptação”, disse o lateral, que contou ainda que o capitão do Wolves tenta comunicar com os portugueses do plantel em português. “O Conor está sempre a tentar falar comigo em português. Sabe algumas palavras e na verdade não é assim tão mau! Eu tento ensiná-lo”, revelou.

Wolverhampton Wanderers v Chelsea - Premier League

Semedo com Pedro Neto e Rúben Neves, dois dos portugueses que encontrou em Inglaterra

Sobre Nuno Espírito Santo, Semedo recordou as vezes em que enfrentou o treinador português quando jogava no Benfica e o técnico estava no FC Porto. “Já sabia como é que ele ia trabalhar. Ele deu-me confiança e falou muito comigo. Quando apareceu a possibilidade de vir para cá, estavam todos muito entusiasmados com a minha chegada e essa foi a chave. Mudamos o sistema tático algumas vezes mas seguimos sempre as indicações do treinador e estamos habituados às ideias dele. O meu golo está muito perto! Está a aproximar-se e vai aparecer. Quando tenho a possibilidade de rematar e acho que estou numa boa posição, vou sempre tentar”, detalhou o português.

Semedo recordou ainda a convivência com Messi no Barcelona, garantindo que “não existem muitas palavras” para descrever o talento do argentino, mas o pormenor mais importante da entrevista foi contado pelo jornalista: duas semanas antes de a conversa efetivamente acontecer, quando já estava marcada para uma data anterior, o lateral português pediu que fosse adiada. O motivo? Sentia que não estava a jogar bem o suficiente e que todas as entrevistas têm de ser merecidas.