No dia em que se assinala um ano dos primeiros casos de Covid-19 em Portugal, o Hospital de São João tornou-se um caminho incontornável para recuperar o início de uma pandemia que mudou a vida de um país. Em paralelo, era ali também que começava esta terça-feira a última viagem de um atleta e de uma pessoa que mudou a vida de um clube e de uma modalidade. Às 12h, iniciavam-se as cerimónias fúnebres do luso-cubano Alfredo Quintana, com passagem incontornável pelo Dragão Arena onde se tornou um dos melhores de sempre do FC Porto e da Seleção ao longo de uma década antes de rumar ao tanatório de Matosinhos.

“Não sou um sobrevivente. Sou um guerreiro extraordinário”. Morreu o bom gigante, Alfredo Quintana. Tinha 32 anos

Antes, no Dragão Arena, era preparada essa última homenagem. Ao longo do fim de semana, o pavilhão dos azuis e brancos foi caminho incontornável para os adeptos que quiseram deixar o seu apreço pelo número 1, que começou com uma vigília na noite de sexta-feira e prosseguiu ao longo do fim de semana. Cartolinas, cachecóis, velas e uma coroa de flores destacavam-se entre duas bandeiras. Na porta 1, aquela que muitos cruzaram para ver em ação um dos melhores guarda-redes de sempre, ficou a tarja “Kingtana”. Ali ao lado, foi pintado um mural com a imagem do luso-cubano, de costas e punho erguido, como se tivesse acabado de fazer mais uma defesa. Nos jogos do hóquei em patins, futebol e basquetebol, por sinal todos eles clássicos frente a Sporting e Benfica, todas as homenagens foram-se multiplicando, incluindo uma que trouxe à pista os amigos Victor Iturriza e Daymaro Salina.

“Vou cuidar dos teus amores, nada lhes faltará”: “Kingtana” já tem um mural no Dragão, Iturriza e Salina receberam camisola em lágrimas

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Agora, era o último adeus. Com mais velas, com mais cachecóis, com mais coroas de flores. Com vários amigos que, não estando ligados ao clube nem jogando em alguns casos em Portugal, não quiseram faltar à despedida que ainda não acreditam que esteja a acontecer. E o Dragão Arena concentrou esse momento particularmente emotivo, com centenas de adeptos a juntarem-se para um último adeptos entre companheiros, atletas, amigos e dirigentes, incluindo a Direção e Pinto da Costa, que deixou uma coroa de flores no carro fúnebre antes de saudar a família do guardião num ambiente de muita emoção. Victor Iturriza (representando o andebol), Reinaldo Garcia, Miguel Queiroz e Tânia Oliveira, capitães de hóquei, basquetebol e voleibol, deixaram também coroas de flores. A equipa de andebol e demais elementos do staff chegaram todos com t-shirts brancas com a imagem do luso-cubano. Pouco mais de 15 minutos depois, Quintana partiu, entre os aplausos e os cânticos dos adeptos e o silêncio dos colegas.

“Queria primeiro deixar uma palavra de força à família dele. É um momento complicado para nós, uma tragédia no andebol português e no mundo do desporto. Era uma pessoa muito alegre, sempre que havia algo mal estava lá e apoiava. É um golpe duro e vamos sentir a falta da companhia dele no balneário. Estamos orgulhosos do legado que deixou e do amigo que foi. Recordo o último momento em que estive com ele, o sorriso dele, depois de um jogo na varanda de um dos quartos quando estávamos todos nas gargalhadas e nas risadas com ele. Tocou a todos, era uma pessoa fácil de gostar e o apoio que todos demonstraram mostra isso mesmo. Vamos sentir a falta dele, é um dia triste”, comentou o internacional Pedro Portela, agora nos franceses do Nantes, ao Porto Canal.

“É um dia negro para os amantes do FC Porto, para os desportistas, para Portugal e para o Mundo, porque o Alfredo era do Mundo apesar de ter resistido a muitos convites. Queria ficar aqui para sempre. Conheci-o como ex-companheiro, ex-treinador e amigo. Em todas essas facetas, era extraordinário. Partilhava alguma da educação dos meus filhos porque algumas vezes utilizava o bom exemplo dele também. Em 2018/19, depois de ter sido campeão, o Alfredo veio ter comigo ao meu escritório e deu-me a medalha dele porque não tínhamos sido campeões nos dois anos anteriores e ele achava que merecíamos ter sido campeões juntos. Está acima dos mortais, daqui a 100 anos ainda ninguém se esqueceu dele”, referiu o antigo internacional, jogador e treinador portista, Ricardo Costa.