O Brasil e restantes países do Mercosul estão dispostos a firmar uma declaração sobre sustentabilidade ambiental, visando a ratificação do acordo entre União Europeia (UE) e o bloco sul-americano, disse esta terça-feira o ministro das Relações Exteriores brasileiro.

“Em relação a um compromisso adicional, a que chamamos ‘side letter’ [carta lateral, em português], existe essa ideia. Nós, Brasil e Mercosul, estamos prontos para ir adiante com essa ideia. Claro que temos de ver qual seria o conteúdo dessa carta, mas não queremos reabrir as negociações, que já foram complexas e, dentro desse parâmetro básico de não reabrir a negociação, estamos prontos para ver a ideia da União Europeia“, disse Ernesto Araújo à imprensa.

A UE e o Mercosul (Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai) assinaram o acordo comercial em 2019, após 20 anos de negociações, mas ainda não entrou em vigor e a sua ratificação está paralisada porque países como França, Bélgica, Holanda e Áustria, além do Parlamento Europeu, pedem o reforço das políticas ambientais, principalmente por parte do Brasil, que viu a desflorestação e os incêndios na Amazónia baterem recordes nos últimos dois anos. A UE tenta agora que o Brasil firme uma declaração sobre sustentabilidade, para conseguir alcançar a confiança dos Estados-membros e, assim, que o acordo seja ratificado.

Esta terça-feira, num encontro com a imprensa em Brasília, onde a agência Lusa esteve presente, o ministro frisou que o próprio acordo já tem mecanismos de proteção ambiental e que o Brasil reitera a sua preocupação com o tema.

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“Temos de ver o que é que o lado europeu tem em vista, além dos mecanismos já existentes. Mas nós estamos prontos e não há nenhum tabu. Aliás, em dezembro passado, o Mercosul já disse que está pronto a avançar nessa área, como na cooperação de combate à desflorestação. Acho que isso já mostrou a nossa total boa disposição”, frisou Araújo.

O diplomata sustentou que tem falado frequentemente com interlocutores europeus, “como de Portugal e outros países-chave”, reiterando que o Brasil “não quer que o acordo venha a criar um incentivo para problemas ambientais”.

Bruxelas tem apostado na presidência portuguesa do Conselho da UE para avançar na ratificação do acordo económico entre o bloco europeu e o Mercosul, tendo em conta a proximidade entre ambos os países.

Num encontro nada habitual com a imprensa, que está a ser visto como uma mudança de postura de Ernesto Araújo à frente do Ministério das Relações Exteriores, o ministro abordou vários temas considerados polémicos, como a sua relação pessoal tumultuosa com a China ou o futuro das relações com os Estados Unidos da América.

Dois anos após integrar o atual executivo, presidido por Jair Bolsonaro, e nos quais acumulou polémicas e duras críticas a Pequim, Araújo negou que as suas posições tenham prejudicado a política externa do Brasil com o país asiático, advogando que a relação entre ambas as nações é “muito produtiva”.

Apesar do tom conciliador que adotou no encontro com a imprensa, Ernesto Araújo considerou que existe um esforço por parte de alguns segmentos políticos para prejudicar a imagem do Brasil no estrangeiro.

Fala-se que a nossa gestão prejudica a imagem do Brasil no exterior. Hoje, o que nós vemos é um esforço de algumas correntes políticas no Brasil de criar uma má imagem do Brasil no exterior”, disse o diplomata, citando como exemplo uma carta assinada por ex-ministros do Meio Ambiente brasileiros, enviada a países europeus no mês passado, na qual pedem ajuda para proteger a Amazónia.

“São setores que não querem esse processo de abertura no qual estamos engajados. Esses grupos sabem que o ministério está a criar um conjunto de relações que transformam o velho sistema de corrupção, de atraso, a qual essas pessoas estão ligadas. Então, a meu ver, essa é a origem da questão da imagem do Brasil no exterior”, criticou o ministro.