Só três países, em toda a Europa, aceitaram implementar as medidas de teste aprovadas no ano passado relativamente a eventuais concussões cerebrais dos jogadores: Inglaterra, Holanda e Portugal. Se alargarmos o leque às 211 associações que fazem parte da FIFA, só o Japão e os Estados Unidos integram o grupo.

Atualmente, e devido a um trabalho conjunto da Federação Portuguesa de Futebol e do Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol que culminou na integração do projeto aprovado pelo Internacional Board da FIFA, os jogos da Taça de Portugal, do Campeonato de Portugal, da Liga Revelação e dos campeonatos nacionais femininos já contam com a substituição extra em caso de risco de concussão cerebral. Ou seja, se um jogador ou jogadora sofrer uma pancada forte na cabeça e ficar inconsciente, as equipas médicas devem decretar de imediato que o atleta em questão não regressa à competição e os clubes poderão fazer essa substituição — mesmo que já tenham esgotado todas as alterações originalmente previstas nos regulamentos.

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Em Inglaterra, o projeto está em vigor na Premier League e na Taça de Inglaterra, assim como nos dois primeiros escalões do futebol feminino. A nível europeu, a UEFA decidiu não implementar as medidas na Liga dos Campeões, na Liga Europa e no Campeonato da Europa a optou por testar as novas regras no Europeu Sub-21, que vai acontecer na Hungria e na Eslovénia e onde Portugal vai marcar presença. A propósito do número reduzido de países que acabou por não aceitar entrar no projeto, o The Guardian publicou esta sexta-feira um texto na primeira pessoa de Ben Mee, jogador do Burnley que é conhecido por arriscar sempre nas entradas de cabeça e que recentemente perdeu os sentidos depois de um choque com Jordan Ayew, do Crystal Palace.

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“Sem o meu desejo de pôr a cabeça em sítios onde ela não devia estar, não teria uma carreira. Coloco a minha na trajetória de remates e cruzamentos de bom grado na esperança de garantir um ponto extra na Premier League, mas não deixo de me perguntar a que preço. Estou na minha 13.ª temporada enquanto jogador profissional, sem falar nos anos a jogar nas ligas de fim de semana e na academia do Manchester City, por isso odeio pensar na quantidade de duelos aéreos que ganhei ou nos braços na cara que levei. O último foi em Selhurst Park, há umas semanas, quando o Jordan Ayew me apanhou num sítio perfeito no maxilar e fiquei no chão inconsciente durante uns dois segundos. Acordei com a equipa médica a correr na minha direção”, começa por escrever o inglês de 31 anos, um dos jogadores mais experientes da liga inglesa e o capitão do Burnley.

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“Devo ser um paciente terrível na melhor das ocasiões mas ser assistido a meio do jogo torna-me ainda pior. Não quero perder um minuto — continuava de bom grado, enrolado em compressas, se isso significasse ajudar a equipa. É a minha personalidade, continuar independentemente da lesão que possa ter. Mesmo com os médicos à minha volta contra o Palace, a pedirem que não me mexesse, insisti que podia continuar, ignorei a minha saúde porque essa é a mentalidade que tenho. Milhares de jogadores já sentiram o mesmo: pensar que podem continuar apesar de terem sofrido uma lesão na cabeça. Sentia-me bem apesar de os médicos terem visto no monitor que tinha perdido a consciência. Apesar dos meus protestos e do facto de conseguir responder a todas as questões que me fizeram — sobre onde estava, o resultado ou quantos minutos tinham passado –, estava numa maca com a cabeça e o pescoço imobilizados e aceitei que os que estavam à minha volta tinham mais interesse do que eu no meu bem-estar”, acrescentou Ben Mee, que realizou a formação no Manchester City e já jogou no Leicester.

O internacional Sub-21 inglês recordou depois uma concussão que sofreu há vários anos: foi assistido, regressou à partida mas não sabia onde estava, terminando o jogo graças à “memória muscular”. Ben Mee aproveita a memória para explicar que as coisas mudaram desde então e para detalhar o protocolo que está atualmente em vigor nas competições em Inglaterra. “Agora temos substituições só para as concussões e estamos obrigados a seguir o protocolo. Depois da minha lesão contra o Palace, fui submetido a testes rigorosos para garantir que estava a 100%. Antes de a temporada começar respondemos a uma série de perguntas e depois essas perguntas são repetidas ao jogador que está sob o protocolo para garantir que as respostas batem certo. Quando passei esses testes, passei três dias a testar-me a mim mesmo na bicicleta, a aumentar gradualmente o esforço cardíaco a cada dia para provar que não tinha reações adversas e que estava pronto para voltar a treinar”, recordou o central, que está a realizar a 10.ª temporada seguida ao serviço do Burnley, a quinta consecutiva na Premier League.

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“As regras ditaram que eu tinha de falhar o jogo seguinte, com o Fulham, o que é frustrante para qualquer jogador. Ninguém quer ficar de fora e eu odeio ver o jogo na bancada, mas tive de aceitar que era por um bem maior. Tenho 31 anos, vou retirar-me com os meus filhos ainda pequenos. Preciso de estar saudável a longo prazo, para bem deles, e é essa a minha maior preocupação. Já falei com o médico do clube sobre o impacto que o jogo teve na minha cabeça e vou fazer uma ressonância magnética quando deixar de jogar para perceber se o desporto que adoro teve algum impacto. Nunca fiz uma ressonância mas vai ser importante”, explicou Ben Mee, que lembrou ainda os inúmeros casos de demência e Alzheimer em antigos jogadores de futebol (o caso mais recente é o de Bobby Charlton) antes de falar sobre o futuro da modalidade.

“Se deixava os meus filhos começar a cabecear a bola com a mesma idade que eu comecei? Não, não vejo o objetivo. Cabecear é uma capacidade para o alto nível do jogo mas aprendê-la antes de seres sequer adolescente parece-me não ter sentido. Os primeiros anos da formação devem ser passados com foco nos aspetos técnicos e não nesses atributos defensivos que usei ao longo da minha carreira. Não estou a dizer que os cabeceamentos devem ser retirados do jogo — claro que não devem. É um ponto-chave do desporto que todos adoramos mas é importante que, como indivíduos e coletivamente, aceitemos o impacto que os cabeceamentos repetitivos podem ter. Se não conhecermos os factos, as coisas nunca vão melhorar”, termina.

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