1. Ser mitológico geralmente representado com um corpo híbrido entre leão, cabra e serpente ou dragão;
2. Coisa resultante da imaginação. Fabulação, fantasia, ilusão;
3. Conjunto heterogéneo que resulta da combinação de elementos diferentes;
4. Esperança irrealizável. Utopia.

O El País falava esta quarta-feira da “Quimera de Paris”, iniciando um texto sobre a deslocação do Barcelona a um Parques dos Príncipes vazio pela frase de Muhammad Ali que inspirou aquele que se tornaria o slogan da Adidas: “Nada é impossível”. E essa frase de um dos melhores desportistas de sempre, aquele que no ringue “voava como uma borboleta mas picava como uma abelha”, era também aquela que mais se ouvia entre os jogadores blaugrana na esperança de mais uma reviravolta épica como aquela que conseguiram em 2017 frente ao PSG em Camp Nou. “Se formos tão eficazes como eles foram no primeiro jogo, nada é impossível”, defendeu Ronald Koeman.

Mbappé foi maior do que o ídolo Ronaldo e arrasou a equipa de Messi: PSG goleia em Barcelona e “vinga” derrota histórica de 2017

Percebe-se que o último sufrágio eleitoral mexeu com a realidade do Barcelona. É certo que, nos resultados feitos pela equipa de futebol, começava-se a notar uma normalização de trajetória depois de um começo de época torto que ainda se conseguiu endireitar, não só aproximando a equipa do primeiro lugar da Liga (e já está na segunda posição) mas colocando também os catalães na final da Taça do Rei. E que havia outros dados indicadores de uma redenção enquanto clube, como a contratação de Pau Gasol pela secção de basquetebol. Contudo, havia sempre uma pedra no caminho. A revelação pública do contrato de Messi. A possibilidade de assinar a custo zero por um outro clube. As buscas nas instalações. A detenção do ex-líder Josep Maria Bartomeu. As notícias do processo que foram saindo. A caótica situação financeira que os blaugrana atravessam. A eleição de Joan Laporta, que volta ao lugar onde esteve de 2003 a 2010 como uma espécie de Dom Sebastião, alterou esse rumo recente.

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Laporta, descrito num longo perfil publicado esta semana pelo Le Monde como “O Bernard Tapie catalão”, ganhou de forma convincente um sufrágio com mais de 55.000 votantes (mais de metade do universo eleitoral que podia votar exerceu o seu direito, por correspondência ou de forma presencial em seis lugares distintos, o que mostra bem a importância do que estava em causa), teve um discurso conciliador sempre a tocar no orgulho catalão e na referência suprema chamada Johan Cruyff e foi dando sinais de que quer virar o atual rumo das coisas, em coisas menos visíveis como a aposta em Mateu Alemany para a direção do futebol ou mais percetíveis como a proposta apresentada a Kun Agüero para reforçar o ataque e encontrar mais um trunfo para segurar Messi. Essas palavras, esses gestos, essas medidas tiveram o condão de reforçar a confiança da equipa. Seria suficiente?

Na perspetiva teórica, não. E havia quatro razões para não haver grande crença numa reviravolta com quatro golos sem nenhum sofrido: 1) o jogo da segunda mão não era jogado em Camp Nou nem tinha público como em 2017, o que teve um papel importante sobretudo nos dois golos marcados nos descontos após o 4-1 aos 88′; 2) a equipa do Barcelona não tem hoje um Luis Suárez, um Neymar ou um Iniesta, sendo que nem Messi, nem Umtiti, nem Piqué (de fora por lesão), nem Busquets estão num momento como aquele que atravessavam na altura; 3) o PSG, que mantém apenas Kurzawa, Verratti e Marquinhos em relação a esse onze inicial da goleada em 2017, não só tem mais e melhores soluções como apresenta outro tipo de experiência em termos coletivos; 4) nesta fase, e depois daquele que foi um dos encontros mais memoráveis de sempre na Champions, nunca o conjunto francês irá ter a perceção de eliminatória resolvida como pareceu demonstrar no arranque da segunda mão dessa discussão. Ainda assim, seria interessante perceber a resposta que o conjunto de Koeman conseguiria dar após a goleada.

Resposta curta: não podia ser melhor. E por largos minutos o Barcelona esmagou o PSG com e sem bola, sofrendo um golo de grande penalidade mas podendo chegar ao intervalo na frente após um grande golo de Messi que pouco depois falhou um penálti. E ainda houve outra bola na trave, de Dest. O milagre em Paris foi mesmo não ter havido um milagre do Barça, que se transformasse metade das oportunidades tinha ido ainda a prolongamento.

Com Sergiño Dest a desequilibrar pela direita, Dembelé a conseguir encontrar sempre espaço entre linhas para ir brilhando em situações de 1×1, Messi sem uma posição fixa apostando em combinações curtas e o meio-campo dos visitantes a ter grande capacidade de fechar linhas de passe na reação à perda, só houve Barcelona em campo ao longo da primeira meia hora e com várias oportunidades para reduzir a desvantagem na eliminatória. Busquets desviou um canto de cabeça por cima (5′), Messi atirou um livre de pé esquerdo por cima (8′), Dembelé teve um primeiro remate fraco para Navas (10′) antes da primeira grande defesa do costa-riquenho, num tiro cruzado do francês na área depois de uma assistência de Messi (18′). A passividade e falta de intensidade do PSG despertavam os piores pesadelos, num filme de terror adensado por uma remate à trave de Sergiño Dest (23′).

Depois, apareceu o caça-fantasmas. Kylian Mbappé não estava propriamente a ter um grande jogo até porque em todas as jogadas de transição em que tentava ganhar a profundidade era agarrado, puxado ou rasteirado (o que fez com que Koeman tirasse cedo Mingueza do jogo), mas inaugurou o marcador de grande penalidade, num lance revisto pelo VAR onde Lenglet pisou de forma inadvertida Icardi na área (30′). Até aí, a perder no único remate feito pelo PSG à baliza de Ter Stegen, o Barcelona não quebrou. Pelo contrário. E podia ter saído a ganhar logo ao intervalo: Dembelé teve mais uma boa oportunidade desperdiçada (34′), Messi fez o empate com um fantástico remate de fora da área que deixou Navas colado ao relvado (37′), Busquets obrigou o costa-riquenho a mais uma grande defesa de recurso com os pés (42′) e Messi falhou ainda uma grande penalidade nos descontos, tocando na bola já quando estava projetado para o seu lado direito e levando-a de novo para a trave (45+1′).

No segundo tempo, já com Diallo em campo com uma entrada importante para estabilizar o lado esquerdo e ainda Danilo para reforçar o corredor central um pouco depois, o encontro entrou numa toada mais equilibrada, mas um lance em que Messi teve tudo para fazer o golo na área mas acabou por atrapalhar-se e ver a bola sair da zona de perigo (60′) deu o mote para uma última meia hora de novo em sentido único, com Navas a travar mais uma boa oportunidade de Busquets de cabeça na sequência de um canto (70′), Dembelé a chegar por pouco atrasado a um cruzamento rasteiro de Jordi Alba (72′) e Trincão, logo de seguida, a ver um remate de ressaca de fora da área ser cortada por Danilo quando levava a direção da baliza. Não chegou mas aquilo que o Barcelona fez em Paris mostra que o Atl. Madrid não pode facilitar na Liga espanhola e que o PSG ainda tem que crescer na Europa.