– Há também a questão mental. Há dias numa das viagens que estávamos a fazer depois do Mundial o [Diogo] Branquinho chegou à minha beira e disse ‘Oh Prof, tenho aqui uma frase para lhe mandar de um livro que ando a ler de um psicólogo desportivo: if no one thinks your goals are crazy, you’re probably not aiming enough’. Ou seja, o que ele me queria dizer era que se ninguém pensar que os nossos objetivos são doidos, que são completamente loucos, é porque não estamos a colocar um objetivo suficientemente ambicioso (…)

Há pouco menos de um mês, em entrevista ao programa “Nem tudo o que vai à rede é bola” da Rádio Observador, Paulo Pereira, selecionador da equipa de andebol, abordava os vários fatores que deviam ser tomados em linha de conta no torneio pré-olímpico, disputado em três dias consecutivos com Tunísia, Croácia e França com vaga direta para os dois primeiros classificados. Só chegar aqui, algo que aconteceu após o fantástico sexto lugar no Europeu de 2020, era histórico. Mas Portugal queria mais. Melhor, sonhava com mais para ter mais. E com várias barreiras a ter em conta, da forma como os jogadores se iriam apresentar fisicamente aos aspetos mais internos que deveriam ser mudados para haver uma maior hipótese de derrotar um plano teórico que colocava o apuramento como improvável perante o poderio da França, a maior experiência da Croácia e a garra da Tunísia.

“Fazemos milagres mas temos de ser irrealistas”

Tudo mudou. Uma semana depois, Alfredo Quintana sofreu uma paragem cardiorrespiratória num treino e faleceu ao meio-dia de 26 de fevereiro. Aos 32 anos, no topo da carreira, partiu aquele que foi um dos melhores guarda-redes de sempre, do FC Porto, da Seleção e em Portugal. E partiu uma grande parte do sucesso nacional quer no Europeu, quer no Mundial, não só pelo que destruía em campo na baliza mas sobretudo pelo que construía fora dele. Como se viu no encontro dos dragões para a Champions com o Elverum, numa vitória que começou e acabou em lágrimas, o maior desafio de todos aqueles elementos que tinham uma relação muito próxima com o luso-cubano foi superar o vazio deixado pelo amigo. E essa seria também a meta e o desafio da Seleção.

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“Não sou um sobrevivente. Sou um guerreiro extraordinário”. Morreu o bom gigante, Alfredo Quintana. Tinha 32 anos

“Por nós e por ele [Alfredo Quintana]” era o mote deixado por Paulo Pereira para este torneio de qualificação para uns inéditos Jogos Olímpicos. Assumindo que “o grupo de trabalho sente muito a falta de Alfredo Quintana”, o selecionador assumiu que todos os jogadores estavam “preparados mentalmente para conseguir o apuramento”. “É necessário fazer alquimia, aproveitar os treinos para consolidar a equipa, adaptá-la ao jogo dos adversários e melhorar os detalhes”, sublinhou no início de estágio em Montpellier. Primeiro adversário: a Tunísia, equipa que esteve no último mês apenas a trabalhar estes três encontros em específico. “Num conjunto de três jogos o primeiro é sempre o mais importante. Prestamos excecional atenção ao que suceder pois pode definir como vamos continuar a lutar pelo acesso a este sonho. Consoante o que se passar, pode valer mais a pena apostar num dos outros jogos que no outro”, destacou o selecionador na antecâmara do jogo com os africanos.

Portugal entrava no torneio mais importante de sempre do andebol nacional, “aquele que nunca ninguém imaginou enfrentar”, e começou da melhor forma esse sonho de chegar aos Jogos Olímpicos, com uma vitória por 34-27 frente à Tunísia que deixa a Seleção apenas a um triunfo da qualificação para Tóquio. E entre o luto, as ausências e todas as dificuldades encontradas na preparação, os comandados do técnico Paulo Pereira arrancaram uma grande exibição que pode ser resumida numa imagem no beijo que Gustavo Capdeville dava na braçadeira com AQ de Alfredo Quintana sempre que fazia uma defesa. E foram muitas, funcionando como chave do jogo.

O encontro começou da melhor forma para Portugal, com quase tudo a correr bem e com muito mérito próprio na vantagem alcançada: defesa agressiva, a arriscar várias vezes a interceção de bolas na circulação de primeira linha tunisina, com um grande Capdeville na baliza e um ataque a experimentar vários recursos da primeira linha de André Gomes aos ataques rápidos, passando pelo jogo com pivô e até uma jogada aérea que coloriu um arranque com um avanço de quatro golos (6-2) com menos de dez minutos jogados. A Tunísia parou a partida com um desconto de tempo, Capdeville travou dois livres de sete metros mas as duas exclusões quase seguidas de jogadores nacionais quebrou um pouco esse arranque, com o conjunto africano a reduzir para 8-5 aos 15 minutos.

Sem os lesionados Humberto Gomes, Gilberto Borges e Alexis Borges, peças fundamentais sobretudo na manobra defensiva, Portugal estava a ganhar o jogo no setor recuado, conseguindo a maior vantagem até então a pouco mais de 12 minutos com 10-5 após um livre de sete metros de António Areia. Em 15 remates, a Tunísia tinha apenas um total de cinco golos, com o gesto simbólico de Gustavo Capdeville a beijar a braçadeira negra no braço com AQ após travar mais um livre de sete metros – um gesto que fez sempre que travou um remate dos africanos. Paulo Pereira aproveitava para ir rodando ao máximo a equipa, colocando todos os jogadores de campo até ao intervalo, e mesmo apesar de algum abrandamento da intensidade ofensiva em ataque organizado o descanso chegou com Portugal de forma justa na frente por quatro golos (15-11), com essa particularidade de dez jogadores de campo terem pelo menos um remate certeiro já feito em 30 minutos (Salina e André Gomes com três).

No segundo tempo, já com Iturriza a ter mais minutos para proteger Salina que tinha já duas exclusões e Belone Moreira como lateral direito, o jogo recomeçou numa toada de golo-cá-golo-lá mas com Portugal a ser cirúrgico com o passar dos minutos, aproveitando todos os erros e vantagens numéricas para alargar a vantagem para sete golos (22-15), o que levou a Tunísia a parar de novo a partida com resultados práticos, reduzindo a desvantagem até quatro golos a nove minutos do final (26-22). Paulo Pereira percebeu o adormecimento da equipa, pediu também um desconto de tempo, lançou o também jovem guarda-redes Manuel Gaspar na partida, rodou mais jogadores de campo (uma opção que pode fazer a diferença nos próximos jogos) e ganhou por 34-27, tendo agora duas oportunidades de chegar aos Jogos Olímpicos caso vença Croácia (sábado) ou França (domingo). André Gomes foi o melhor marcador nacional com sete golos, com todos os jogadores de campo à exceção de Tiago Rocha a marcarem pelo menos um golo, o que mostra também a rotatividade com bons resultados que foi promovida.