Vontade e talento. As duas palavras, que juntas formam um extraordinário jogador de futebol e separadas podem tornar mediana a carreira de um potencial extraordinário jogador de futebol, têm sido das mais repetidas pela imprensa desportiva espanhola na última semana. E tudo por causa de João Félix: Simeone foi o primeiro a falar de vontade e talento enquanto comentava as exibições do português, o treinador voltou a falar de vontade e talento para clarificar o que quis dizer no primeiro momento e o jovem avançado usou as mesmas palavras para explicar como encara o próprio futuro.

“A verdade é que, sem vontade, o talento não chega. Temos muitos exemplos de jogadores que têm muito talento e depois faltou-lhes a vontade para chegarem ao topo. Não quero ser um desses. Tento sempre juntar a minha qualidade à minha vontade”, disse Félix esta semana, garantindo que tem uma relação “muito boa” com Simeone. Ainda assim, e também ao longo dos últimos dias, ficou claro que o mentor do jogador português no Atl. Madrid é outro: Luis Suárez, que chegou aos colchoneros no verão, parece ter ocupado o lugar que foi de Diego Costa quando Félix chegou a Espanha e é nesta altura a grande referência do ex-Benfica dentro do balneário.

Entre o talento e a vontade de João, apareceu Marcos, o discípulo que se eleva em dias de aperto

“Ele sabe que o meu papel é ajudar a equipa. Nunca vou dizer, nem ao João nem a nenhum outro colega, exatamente o que deve fazer, porque penso que deve perceber por si mesmo. Se ele me pedir conselhos ou algo do género, perfeito, sem problema, estou aberto — mas não para ensinar-lhe tudo. Tem de aprender por si mesmo. Tem que ver, por exemplo, os momentos em que deve fazer pequenos movimentos… Ele tem uma qualidade que é impressionante, é um jogador que ajuda muito o clube. E acredito que pode e vai dar muitas mais alegrias. Ele tem qualidade”, referiu o internacional uruguaio numa entrevista à CBS Sports, onde contou ainda que costuma brincar com João Félix devido à diferença de idade entre os dois — que chega aos 12 anos.

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“Brincamos a dizer que ele tem trabalhos de casa, que tem de beber o leite com chocolate, porque é mais novo. Mas ele aceita tudo muito bem, diverte-se e isso gera uma ligação que faz com que ele sinta que também não deve ter um certo respeito por mim só porque tenho 34 anos”, terminou Suárez. Esta quarta-feira, e tal como Simeone antecipou logo na conferência de imprensa, ambos eram titulares na visita do Atl. Madrid ao Chelsea, na segunda mão dos oitavos de final da Liga dos Campeões. Depois da derrota na primeira mão em casa, graças a um golo de pontapé de bicicleta de Giroud, os colchoneros precisavam de dar a volta à eliminatória para seguir em frente na competição europeia. Pela frente, porém, tinham uma equipa que ainda não tinha perdido com Thomas Tuchel, desde o final de janeiro, e que tinha sofrido apenas um golo nos últimos sete jogos.

Do lado dos espanhóis, e para além de Félix e Suárez, a equipa era a esperada: Carrasco, Saúl, Koke e Llorente no meio-campo, Renan Lodi na esquerda da defesa e Trippier do lado contrário, Giménez e Savic no eixo defensivo. No banco, estavam Correa, Lemar, Dembélé e Vitolo. No Chelsea, Tuchel apostava em Havertz e Ziyech no apoio a Werner e colocava Kovacic e Kanté no setor intermédio. Pulisic e Giroud, o avançado que fez o golo da primeira mão, eram suplentes, enquanto que Mason Mount e Jorginho estavam castigados. O Atl. Madrid começou melhor e pareceu mostrar vontade de empatar a eliminatória logo nos primeiros instantes; contudo, os ingleses depressa assumiram o controlo da partida, empurrando os espanhóis para o próximo meio-campo.

A equipa de Simeone preocupava-se principalmente com eliminar as linhas de passe para Werner, anulando a eventual influência do avançado alemão. Ainda assim, o overbooking de jogadores na faixa central e na zona imediatamente depois da grande área esmorecia a capacidade de pressionar alto, oferecendo muito espaço à saída de bola do Chelsea. O conjunto de Tuchel colocava a bola em Kovacic e Kanté com muita facilidade, nas costas de Suárez e Félix, e era o jogador português que recuava para ser o primeiro defesa, enquanto que o uruguaio ficava no ataque. Os blues desequilibravam sobretudo pelos corredores, onde os laterais Marcos Alonso e Reece James faziam o que queriam de Trippier e Lodi, que mostravam muitas dificuldades para parar as incursões adversárias. Werner teve o primeiro remate mas a atrapalhação com Ziyech impediu-o de atirar à baliza, rematando ao lado da baliza (19′).

A partir dessa altura, por volta dos 20 minutos, o Atl. Madrid conseguiu soltar ligeiramente a pressão do Chelsea e estender a equipa no relvado, procurando sempre aquilo que João Félix conseguia fazer no corredor central, entre passes em profundidade e acelerações que arrastavam defesas. Contudo, bastou um erro para desequilibrar o marcador. Na sequência de um lance de ataque dos espanhóis, com um cruzamento que saiu demasiado curto, os ingleses saíram num contra-ataque letal e não tiveram oposição à altura: Havertz conduziu até ao meio-campo antes de abrir em Werner na esquerda e o avançado, com muito espaço, cruzou rasteiro para a grande área; Savic ainda desviou mas a bola foi parar a Ziyech, que atirou de primeira para bater Oblak (34′). Se as movimentações do Chelsea foram quase perfeitas e muito difíceis de travar, também era impossível não atribuir alguma responsabilidade a Lodi, que demorou muito a recuar e deixou Ziyech totalmente sozinho na hora de finalizar.

Até ao intervalo, o Atl. Madrid mostrou-se algo desconcentrado, enquanto que o Chelsea foi aproveitando para gerir a posse de bola e atacar em velocidade e com profundidade. João Félix teve um remate de fora de área que Mendy encaixou depois de um desvio (39′), Kovacic também atirou ao lado (45′) mas o resultado não voltou a alterar-se. Os blues iam para o intervalo a vencer e com pé e meio nos quartos de final da Liga dos Campeões — para o evitar, os colchoneros tinham de fazer muito mais, principalmente no setor ofensivo, onde permaneciam muito displicentes e com moderada ambição.

No início da segunda parte, Diego Simeone confirmou a exibição muito pobre de Renan Lodi e tirou o lateral brasileiro para colocar Mario Hermoso. Hermoso entrou para ser uma espécie de terceiro central, com Carrasco e Trippier a assumirem os corredores, Saúl, Koke e Llorente a ficarem responsáveis pelo meio-campo e João Félix a recuar para se aproximar do setor intermédio e envolver-se na construção. Mexidas que, acima de tudo, eram a confirmação por parte do treinador do Atl. Madrid que o esquema e a estratégia desenhados para a partida não tinham resultado na primeira parte. O Chelsea, porém, continuava a ferir o adversário da mesma forma: Ziyech ganhou na direita e lançou de imediato a profundidade de Werner, que obrigou Oblak a uma defesa enorme (48′).

Depois de um remate muito perigoso de Rüdiger, que passou ao lado da baliza (53′), Simeone voltou a mexer e tirou Carrasco para colocar Dembélé, passando o Atl. Madrid a atuar com duas referências ofensivas, com Saúl a juntar-se mais ao corredor esquerdo. O problema era que, apesar do resultado do jogo e apesar do resultado da eliminatória, era o Chelsea a criar as melhores oportunidades: como se percebeu quando Ziyech, com um remate de fora de área, obrigou Oblak a outra defesa enorme (57′). Simeone voltou a mexer — a terceira alteração em 60 minutos, algo para lá de raro no treinador argentino — e lançou Correa no lugar de Suárez mas os ingleses tinham bola, tinham vontade, tinham reação à perda e tinham intensidade. E o Atl. Madrid não tinha nenhuma dessas coisas.

Até ao fim, Simeone ainda fez all in, ao trocar Trippier por Lemar, Félix ainda obrigou Mendy a uma defesa apertada (76′) e Savic ainda foi expulso com vermelho direto depois uma cotovelada em Rüdiger. O Chelsea geriu por completo a partida e ainda chegou ao segundo golo, já nos descontos, por intermédio do recém-entrado Emerson (90+4′); enquanto que o Atl. Madrid nunca deixou de ser um grupo de 11 jogadores a lutar de forma separada contra uma equipa a jogar em conjunto. Simeone começou com um sistema tático, alterou-o ao intervalo, colocou um segundo avançado mas mudou a dupla ofensiva sem deixar que Suárez e Dembélé mostrassem o que quer que fosse e nunca demonstrou uma ideia concisa. Do outro lado, Tuchel mostrou que este Chelsea já tem muito mais dele do que alguma vez teve de Lampard. Os colchoneros de João Félix (que esteve sempre no muito pouco de bom que a equipa fez) estão fora da Liga dos Campeões; os blues seguem, de forma muito merecida, para os quartos de final, onde não estava desde 2014.