O primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed, reconheceu esta terça-feira que foram cometidas atrocidades na região do Tigray, norte do país, onde continuam os combates e as tropas federais estão em perseguição aos líderes regionais fugitivos.

Há informações que indicam que foram cometidas atrocidades na região de Tigray”, disse o primeiro-ministro, Abiy Ahmed, num discurso perante deputados na capital, Adis Abeba, naquela que é a primeira admissão pública do chefe do Governo de crimes graves naquela região do Norte.

Assegurou que os soldados que violaram mulheres ou cometeram outros crimes de guerra serão responsabilizados, apesar de ter citado a “propaganda do exagero” da Frente Popular de Libertação de Tigray (TPLF), o partido outrora dominante na Etiópia e cujos líderes desafiaram a legitimidade de Abiy após o adiamento das eleições no ano passado.

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O conflito do Tigray começou em novembro, quando Abiy enviou tropas governamentais para a região, após um ataque a instalações militares federais. O exército federal está agora a caçar os líderes fugitivos regionais.

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Abiy acusou os líderes regionais de “uma narrativa de guerra”, enquanto a região enfrentava desafios como uma praga de gafanhotos e a pandemia da Covid-19.

“Esta foi uma arrogância inoportuna e inapropriada “, disse, segundo uma transcrição dos seus comentários publicada no Twitter pelo seu gabinete.

As declarações de Abiy surgem numa altura em que continuam as aumentar as preocupações com a situação humanitária naquela região do norte da Etiópia, onde vivem mais de seis milhões de pessoas.

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Os Estados Unidos caracterizaram alguns abusos cometidos durante o conflito no Tigray como “limpeza étnica”, acusações consideradas infundadas pelas autoridades etíopes. A administração norte-americana exortou também as tropas eritreias, que lutam do lado das forças governamentais etíopes, a retirarem-se de Tigray.

O primeiro-ministro etíope, que ganhou o Prémio Nobel da Paz em 2019 pelos seus esforços para fazer a paz com a Eritreia, enfrenta pressões para pôr fim ao conflito em Tigray, bem como para permitir uma investigação internacional sobre alegados crimes de guerra, idealmente conduzida pelas Nações Unidas.

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Os críticos da liderança etíope dizem que a investigação federal, atualmente em curso, simplesmente não é suficiente porque o Governo não se pode investigar a si próprio de forma eficaz.

Rupert Colville, porta-voz da Alta-Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet, disse, citado pela agência Associated Press, que a Comissão de Direitos Humanos da Etiópia tinha pedido para participar numa “investigação conjunta sobre alegações de graves violações dos direitos humanos por todas as partes” em Tigray.

Relatos de atrocidades cometidas por forças etíopes e aliadas contra residentes de Tigray foram pormenorizados em relatórios da organização Amnistia Internacional.

Abiy afirmou, no discurso de terça-feira, em que respondia a perguntas dos deputados, que os combatentes leais à Frente Popular de Libertação do Tigray tinham cometido um massacre na cidade de Mai Kadra.

“Mas não está a receber atenção suficiente”, disse sobre este alegado massacre, descrevendo-o como “o pior” no conflito.

O Presidente norte-americano, Joe Biden, enviou na semana passada o senador Chris Coons à Etiópia para expressar às autoridades da Etiópia as “grandes preocupações” da administração norte-americana sobre a crescente crise humanitária, os abusos dos direitos humanos em Tigray e o risco de uma maior instabilidade no Corno de África. Detalhes da visita de Coons ainda não foram divulgados.

Funcionários das agências humanitárias alertaram que um número crescente de pessoas pode estar a morrer à fome na região de Tigray. Os combates irromperam nas vésperas da época das colheitas numa região fortemente agrícola, forçando um número indeterminado de pessoas a fugir das suas casas. Testemunhas descreveram pilhagens generalizadas por soldados eritreus, bem como a queima de colheitas.