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Uma equipa multinacional criou um anticorpo contra o coronavírus SARS-CoV-2 que pode estar melhor adaptado a combater as novas variantes e é relativamente menos dispendioso do que os tratamentos com múltiplos anticorpos, conforme escreveram os investigadores num artigo científico publicado na Nature.

Os anticorpos produzidos em laboratório têm sido testados como potencial tratamento para os doentes com Covid-19. Como cada anticorpo originado naturalmente no organismo — e as cópias que dele são feitas em laboratório — é específico de uma parte do vírus, uma mutação nos genes que altere essa proteína viral faz com que o anticorpo deixe de funcionar ou seja menos eficaz.

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Por isso se tem testado também o uso de cocktails de anticorpos (com uma mistura de dois ou mais anticorpos diferentes), mas, dizem os autores, isso é mais dispendioso e mais difícil de usar do que a proposta que apresentam.

O que os investigadores fizeram foi juntar dois anticorpos diferentes numa molécula sintética (criada em laboratório), a que chamaram “anticorpo biespecífico”, capaz de se ligar em dois pontos distintos do vírus, importantes na ligação às células humanas.

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A equipa espera assim possam ultrapassar as limitações da imunoterapia baseada em anticorpos, causada pelo surgimento de novas variantes que têm mostrado ser capazes de escapar aos anticorpos desenvolvidos contras as variantes anteriores.

“Embora o vírus possa sofrer mutação e escapar do ataque de um único anticorpo de primeira geração, mostramos que ele não pode fazer isso contra a dupla ação do anticorpo biespecífico”, disse Luca Varani, coordenador do estudo e investigador no Instituto de Investigação em Biomedicina, na Suíça. “As simulações de supercomputação permitiram-nos refinar e validar o modelo do anticorpo biespecífico, que mais tarde foi produzido e testado em laboratório.”

Os investigadores demonstraram, em laboratório, que o anticorpo biespecífico é capaz de neutralizar a variante que até agora dominou a Europa (com a mutação D614G) e as variantes britânica (B.1.1.7), brasileira (P.1) e sul-africana (B.1.351). A capacidade de neutralização da variante sul-africana foi menor do que para as restantes variantes, mas, ainda assim, mais alta para os anticorpos sintéticos do que para os anticorpos simples produzidos pelo sistema imunitário.

O ensaio, realizado apenas em ratos, mostrou que o tratamento dado antes da infeção ou 12 horas depois reduziu a carga viral nos ratos e os impactos da doença. Os investigadores concluíram assim que o anticorpo criado (CoV-X2) “protege os ratos da infeção e da doença”. A próxima etapa será conseguir levar o tratamento para ensaios clínicos com humanos.