“Espanha é primeiro país da Europa em consumo de prostituição. O terceiro a nível mundial”, informa-nos, com aptidão jornalística, Romeo – eloquente nome para um proxeneta – num dos discursos que profere, nem sempre entendemos exatamente para quem nem em que circunstância do dia-a-dia de um prostíbulo. “Não ganhamos em siderurgia. Não ganhamos em mineração. Ganhamos em putas!”

Aqui tem tudo o que precisa de saber sobre a nova produção de Álex Pina e Esther Martínez Lobato: é espalhafatosa, violenta, cómica, direta ao assunto, mas, debaixo dos néons e da napa vermelha, mete o dedo na ferida da realidade. Se “La Casa de Papel” era uma “heist story” em que, debaixo da golpada, estava sempre uma crítica às injustiças do capitalismo, “Sky Rojo”, na Netflix, é uma história de perseguição e fuga em que, atrás de saltos, decotes, armas, drogas e linguagem para maiores de 18, está um manifesto contra o lado B do mundo onde homens de família alimentam um negócio de tráfico humano, prostituição e violência, para o qual parece não haver escapatória possível.

Estamos numa Tenerife transformada em deserto americano. Num mundo em que ninguém tem sobrenome, Romeo quer fazer do “Las Novias” (“As Namoradas”) a melhor casa da especialidade da Europa. Que especialidade? Romeo dá-lhe muitos nomes: do mais literário – lupanar – a um porventura mais adaptado à sociedade de consumo – puticlub. A personagem, interpretada pelo excelente Asier Etxeandia, que conhecemos do “Dor e Glória” de Almodóvar, dirige uma rede de tráfico humano que traz raparigas de toda a parte do mundo para realizarem as fantasias dos 40% dos homens espanhóis que recorrem aos serviços de profissionais do sexo. Fica-lhes com o passaporte, paga-lhes a “formação”, a roupa, os preservativos – tudo o mais que aponta num caderno de contabilidade com rigor de merceeiro e que garante uma dívida que as mulheres nunca poderão saldar. Em dois anos de “contrato”, investe seis mil euros em cada, com um retorno de 300 mil. Negócio mais rentável, dizem, só o da heroína. E é proibido dizer “não”.

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