Os anticorpos contra as variantes do coronavírus que circulavam na África do Sul antes de outubro de 2020 não são tão eficazes a neutralizar a nova variante B.1.351 (ou 501Y.V2), confirma uma equipa de investigadores num artigo científico publicado na Nature. A boa notícia, no entanto, é que os anticorpos contra a nova variante são capazes de neutralizar as variantes anteriores.

Mais, usando o plasma de doentes convalescentes (pessoas que estiveram infetadas e recuperaram da infeção com SARS-CoV-2) da primeira e segunda vaga, os investigadores verificaram que os anticorpos do plasma dos dadores da segunda vaga (com a variante B.1.351) eram 2,3 vezes mais eficazes, ou seja, reduziam ainda mais a quantidade de vírus do que os anticorpos originais.

Variante sul-africana tornou-se dominante em poucas semanas

Vale a pena referir que os anticorpos do plasma de doentes da primeira vaga eram eficazes a neutralizar os vírus das variantes anteriores à B.1.351 — que agora é dominante na África do Sul. O problema é que se mostrou 15 vezes menos eficaz a neutralizar os vírus da nova variante. Outros estudos verificaram mesmo que pessoas que tivessem estado infetadas na primeira vaga não estavam protegidas da reinfeção com a nova variante.

“Os resultados recentes dos ensaios na África do Sul com as vacinas da Novavax, Johnson & Johnson e AstraZeneca indicam que a variante 501Y.V2 [B.1.351] pode levar a uma diminuição na eficácia da vacina”, lembram os autores do artigo. “Se a perda da eficácia da vacina mostrar que é necessário redesenhar as vacinas, os resultados aqui apresentados podem ser o primeiro indício de que uma vacina criada contra para a variante 501Y.V2 também pode ser eficaz outras variantes do SARS-CoV-2.”

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Outro dado curioso, mas que merece mais investigação, é que um dos doentes da primeira vaga tinha a mutação E484K, que também existe na B.1.351 (embora ainda não se tratasse desta variante). O plasma deste doente era tão eficaz a neutralizar as variantes da primeira vaga como a nova variante sul-africana. Os dados, no entanto, são ainda pouco robustos, porque se trata apenas de um doente.

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A mutação E484K, que também está presente na variante P.1, identificada pela primeira vez em Manaus (Brasil), está associada ao potencial de escapar à resposta imunitária desencadeada quer pelas infeções naturais, quer pelas vacinas contra a Covid-19.

Além da mutação E484K, a variante sul-africana tem ainda outras duas mutações (N501Y e K417N) nos genes que contém a informação para produzir a proteína spike — a chave que abre a porta das células humanas e permite a infeção. A nova variante foi detetada pela primeira vez em outubro de 2020 e, em janeiro de 2021, a sua frequência já tinha chegado aos 97% dos vírus sequenciados (cujos genes tinham sido lidos).

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