As cartas ficam todas em cima da mesma logo nas primeiras frases. “Existe o que se ouve, o que se lê, o que se acha que se sabe. E depois existe a verdade. A real, inegável verdade. E eu prometo: nesta história, vou dizer a verdade”, diz Pierre Gasly no início onde texto onde explica como o dia 31 de agosto de 2019 lhe “mudou a vida para sempre”.

“Foi o sábado do Grande Prémio da Bélgica. Dia de qualificação, dia de conduzir rápido, dia divertido. Spa era o meu circuito favorito no mundo inteiro. É uma pista linda, é mesmo. É perfeita, é assim que a descrevo. Nos fins de semana de corrida a minha agenda está cheia — cada minuto conta, por isso, a minha assistente Jenny garante que eu chego a todo o lado a tempo e horas. Nesse dia, logo depois da qualificação, tinha um evento com alguns adeptos e depois tinha cerca de cinco minutos para voltar para as garagens da Toro Rosso para a nossa reunião pós-qualificação. Tento sempre arranjar tempo para ver o arranque das corridas da Fórmula 1 ao sábado. Adoro quando os semáforos se apagam. E dou sempre um olho a um dos meus melhores amigos, Anthoine Hubert”, escreveu o piloto de Fórmula 1, deixando desde logo perceber o que aconteceu no tal último dia de agosto de há dois anos.

Piloto francês Anthoine Hubert morreu vítima de acidente em prova de fórmula 2

Hubert, também ele piloto, morreu depois de um acidente nesse Grande Prémio da Bélgica em Fórmula 2. Tinha apenas 22 anos. Antes, tinha sido campeão na GP3 Series e tinha o futuro claramente apontado à Fórmula 1. Além de tudo isto, era um dos melhores amigos de Pierre Gasly. E o francês, que compete ao mais alto nível desde 2017, entre a Red Bull e as suas subsidiárias, não esquece o dia em que perdeu Hubert.

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“Quando estávamos a caminhar, vi a bandeira vermelha a aparecer no circuito e a assinalar o fim da corrida. Lembro-me de pensar que alguém deveria ter ficado gravemente magoado e que poderia ficar de fora o resto do ano. No meu coração, porém, senti que algo estava profundamente errado. O meu corpo sabia, simplesmente. Por isso, pedi ao nosso team manager para me dizer assim que soubesse quem é que tinha estado envolvido. Quando a reunião começou, tentei concentrar-me nas mudanças, nos pontos de travagem e na estratégia, mas a minha cabeça não conseguia processar informação nenhuma. Não estava ali. E foi aí que o nosso team manager apareceu. ‘Ok, parece que foi o Hubert e o Correa que estiveram envolvidos no acidente. Não sabemos mais nada neste momento’. O Hubert? Não. Não”, recorda o piloto da AlphaTauri num texto publicado no The Players’ Tribune com o título “Querem conhecer o verdadeiro Pierre?”.

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As imagens de Gasly sentado sozinho no pódio do GP de Monza correram o mundo

Nos inúmeros parágrafos, Gasly descreve a sensação de ser confrontado com a morte de um dos amigos mais próximos — ainda por cima a competir e ali tão perto, na pista onde ele próprio iria correr novamente no dia seguinte. “Naquela reunião, só conseguia pensar no meu amigo. Comecei a tremer. Não conseguia sentir as minhas mãos. Não conseguia ouvir o que ninguém dizia. A minha respiração ficou errática e as minhas mãos estavam tão transpiradas que até teve dificuldade a tirar o telemóvel para procurar notícias. Assim que a reunião acabou, corri para ver os meus pais e a minha namorada porque sabia que eles teriam mais informação. Lembro-me de estar a descer as escadas e de os ver a chorar. Vi que estavam destroçados. E percebi o que queria dizer. Soube ali que o meu amigo tinha morrido”, explica o piloto francês de 25 anos, que garante que “não estava preparado”.

“Honestamente, deixei a minha mente viajar. Pensei que talvez o Anthoine estivesse em coma ou algo assim. Mas morto? Morto? Nunca pensei que fosse possível. Quando o Jules Bianchi morreu num acidente em 2015… Foi a primeira vez que alguém da nossa geração de pilotos, a qualquer nível, morreu. Acontecia muito há 40 ou 50 anos, mas agora? Não. Não. Fiquei completamente destroçado. Chorei até não conseguir mais. Nunca tinha sentido algo tão mau na minha vida. Nunca. Nessa noite, quando fechei os olhos para ir dormir, pensei no meu amigo”, pode ler-se no texto, onde Gasly conta que Anthoine Hubert era “o rapaz do capacete laranja” quando ambos eram dois miúdos com muitos sonhos em França, onde recorda o último jantar com o amigo e onde explica como a mensagem de apoio que este lhe enviou, quando foi despromovido da Red Bull para a Toro Rosso numa troca com Alexander Albon, lhe deu um novo alento.

Charles Leclerc ganhou pela primeira vez na Fórmula 1: e ganhou por Anthoine Hubert e Jules Bianchi

Depois de revelar que foi deixar flores ao sítio onde Anthoine Hubert morreu, quando voltou ao circuito belga durante o Mundial de 2020, Pierre Gasly detalha o dia em que conseguiu, finalmente, homenagear o amigo. O piloto da AlphaTauri venceu o Grande Prémio de Monza, em setembro do ano passado, e as imagens que o mostravam sentado no pódio, com as mãos a segurar as lágrimas, correram mundo. Na altura, todos pensaram que era a emoção natural de um jovem que tinha acabado de vencer a primeira corrida da carreira. Mas “existe o que se ouve, o que se lê, o que se acha que se sabe e depois existe a verdade”.

“Quando ouvi o hino francês, tentei assimilar tudo. Disse a mim próprio que só passas uma vez pela primeira vitória. Quando tudo acabou, não consegui sair. Senti que estava atado ao pódio. De certa forma, sem adeptos ali, senti que estava tudo certo. De certa forma, a jornada até àquele ponto tinha sido solitária (…) E depois pensei no rapaz do capacete laranja. Senti-o ali. Sabia que estava a ver. Os sonhos ele eram os meus sonhos. Os meus sonhos eram os sonhos dele. E aquele momento foi o nosso momento. O Anthoine ensinou-me tanta coisa. Não há uma corrida em que não pense nele. Desejava mais do que tudo que estivéssemos juntos na grelha. Mas a morte dele forçou-me a olhar para a vida de uma forma diferente. Naquele pódio em Itália, não tomei nada como garantido. Celebrei aquele momento como se fosse o único que algum dia vou ter — porque é assim que devemos viver as nossas vidas”, termina o piloto.

Pierre Gasly pôs o vermelho e azul na bandeira vermelha, ganhou um GP pela primeira vez e há 26 anos que um francês não vencia na F1