As agências humanitárias das Nações Unidas enfrentam falta de dinheiro para socorrer o norte de Moçambique e faltam ‘stocks’ de itens essenciais, como comida e medicamentos, disserem à Lusa duas fontes da organização.

Os doadores ainda só cobriram 10% do apelo de 254,4 milhões de dólares (216,31 milhões de euros) feito em dezembro para apoiar Cabo Delgado, numa altura em que ainda não se contava com o agravamento decorrente do ataque a Palma, referiu fonte oficial.

A situação é crítica, acrescentou à Lusa outra fonte humanitária no terreno: em alguns casos, os itens à disposição da assistência humanitária satisfazem 30% das necessidades identificadas. Algumas comunidades deslocadas já nem aceitam receber equipas técnicas para realização de levantamentos caso não levem comida, disse uma pessoa envolvida nas operações. “Se não tem comida, não vale a pena”, disse.

Em declarações à Rádio Obervador, Margarida Loureiro, responsável do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) em Cabo Delgado, apela à ajuda dos doadores internacionais para que a organização consiga garantir a assistência básica aos deslocados. “Eu não sei quando é que esta situação vai acabar, mas sei que as pessoas continuam a chegar e é muito importante que a comunidade internacional tenha isso em mente e que apoie o governo moçambicano e as organizações que estão no terreno”, afirma.

Violência em Cabo Delgado. “Não sei quando é isto vai acabar”

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Segundo a responsável, o ACNUR já só consegue “assegurar a proteção a grupos com necessidades específicas, porque dado o fluxo de pessoas é impossível responder à totalidade da população”. Vítimas de violência sexual, portadores de deficiência, idosos e crianças separadas ou não acompanhadas estão no topo das prioridades da organização. O apoio psicológico tem sido outro dos pilares das Nações Unidas na intervenção em Moçambique. “São pessoas altamente traumatizadas, que precisam não só de acompanhamento médico, mas também psicológico”, refere.

Margarida Loureiro relembra que, no ano passado, a situação escalou de um total de 72 mil deslocados para mais de 670 mil, número que reflete a seriedade da crise humanitária vivida em Moçambique. “Estamos a falar de uma média de 50 mil pessoas deslocadas por mês, um aumento de 830% no espaço de um ano, esta é a gravidade da situação”, adianta.

A fome grassa junto dos deslocados do norte de Moçambique, cerca de metade crianças (sem contar com o impacto do ataque a Palma), que chegam a ficar vários dias sem comer ou recorrem a plantas silvestres – esta é também a época baixa da produção agrícola, que só deverá ter novas colheitas a partir de abril e maio.

No terreno, quem presta ajuda humanitária pede um reforço de ‘stocks’ que, para já, não se sabe de onde virá, alertando em especial para o impacto da desnutrição infantil, que terá reflexos por muitos anos. Além de comida (o kit habitual inclui arroz, milho ou feijão e óleo), faltam os itens não alimentares (roupa, abrigo e utensílios básicos para cozinhar) e medicamentos.

Antibióticos fazem parte de qualquer lista de necessidades, além de antidiarreicos (baseados em zinco) e antimaláricos, específicos para Cabo Delgado onde a cólera está sempre à espreita e a malária está entre as principais causas de morte. “O que está em armazém não chega”, disse a fonte ligada à ONU, temendo o impacto acrescido dos deslocados pelo ataque a Palma.

Em declarações feitas à Lusa 20 dias antes do ataque a Palma, a coordenadora residente das Nações Unidas em Moçambique, Myrta Kaulard, classificou como “muito grave” a falta de recursos financeiros para acudir à crise humanitária, reflexo do impacto da Covid-19 nos principais países doadores. “O problema dos recursos financeiros é muito grave”, referiu.

Aquela responsável chega esta terça-feira a Pemba para acompanhar a situação juntamente com as autoridades moçambicanas.

Na quarta-feira dezenas de civis foram mortos pelo grupo armado que atacou a vila, segundo o Ministério da Defesa moçambicano. A violência está a provocar uma crise humanitária com mais de duas mil mortes.

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O movimento terrorista Estado Islâmico reivindicou, na segunda-feira, o controlo da vila de Palma, junto à fronteira com a Tanzânia.

Vários países têm oferecido apoio militar no terreno a Maputo para combater estes insurgentes, cujas ações já foram reivindicadas pelo autoproclamado Estado Islâmico, mas, até ao momento, ainda não existiu abertura para isso, embora existam relatos e testemunhos que apontam para a existência de empresas de segurança e de mercenários na zona.