Jorge Mendes, Pini Zahavi, Mino Raiola e Jonathan Barnett. Este até podia ser o início de uma anedota clássica: um português, um israelita, um italo-holandês e um inglês entram num bar. Mas não. São os nomes, os quatro nomes, dos principais empresários que nesta altura gerem os principais jogadores dos principais campeonatos do mundo. E esta semana, a revista The Athletic acabou por ter uma ideia original. Ao invés de entrevistar só um, juntou dois — e entrevistou Raiola e Barnett em conjunto.

A conversa começou com o fio condutor que os une: a ideia de que a FIFA atrapalha mais do que ajuda. “A FIFA não entende que não somos crianças, não conduzimos negócios pequenos”, começa o inglês. O italo-holandês, porém, vai mais longe e defende que o organismo que regula o futebol mundial não devia sequer existir. “Quando existem novos escândalos a cada ano que passa, não é uma coincidência, é um padrão. Não posso aceitar que uma organização que tem gente na prisão seja responsável por regular a minha vida e os meus negócios”, atira Raiola, que recebe o apoio de Barnett logo de seguida. “Falam de corrupção e branqueamento de capitais mas nem sequer dão o exemplo. A montanha de ouro está a cair lentamente”, acrescenta.

Quem são os atores do mercado que não se veem mas mexem em tudo (a Erin Brockovich, o Bond, o Moneyball e um Indiana Jones)

A diferença de gerações — Raiola é 17 anos mais novo do que Barnett — faz com que o primeiro tenha menos ressalvas em dizer aquilo que realmente pensa, ao passo que o segundo é sempre mais comedido. “Não estou aqui para ser amado e para agradar e todo o mundo. Estou aqui para ser amado pela minha família e para agradar aos meus jogadores, o resto não me importa uma m****. Não acho que olhem para nós como criminosos, as pessoas sabem que somos parte da indústria”, atira o empresário de Ibrahimovic, que utiliza precisamente o caso do avançado sueco para ser sarcástico sobre as mais-valias que retira das carreiras dos clientes. “Deve jogar mais três ou quatro anos para ele. E depois tem de jogar mais oito onde o dinheiro seja todo para mim. Portanto, tem de jogar pelo menos até aos 50”, diz o agente. E os mal-entendidos com Guardiola, durante o tempo de Ibrahimovic no Barcelona? “O meu livro com o Guardiola está encerrado. Todos sabem o que pensamos um do outro. Mas é um grande treinador”, completa Raiola.

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O exemplo de Ibrahimovic leva Jonathan Barnett a lembrar-se de Luke Shaw, que teve muitos problemas com José Mourinho e agora é praticamente imprescindível no Manchester United de Solskjaer. “Tivemos de reconstruir a sua confiança, estivemos com ele. Não lhe dissemos: ‘Tens de deixar o United, tens de ir embora porque temos de fazer dinheiro’. Não o forçámos a nada. Ele queria ficar e foi isso que fizemos. E hoje é um grande jogador”, revela o inglês. A história recorda Mino Raiola de um outro jogador do Manchester United — o jogador que tantas novelas protagonizou nos últimos anos, sempre com o empresário no centro dos problemas.

Real Madrid v Manchester United - International Champions Cup

Luke Shaw teve muitos problemas durante a passagem de Mourinho pelo Manchester United mas é agora imprescindível para Solskjaer

“Em Inglaterra, como alguns ex-jogadores ficam nervosos quando falo de Pogba e do United, olham para mim como um criminoso. Quando o Alex Ferguson foi embora, o dono do United disse-me que eu é que tinha razão, que o Ferguson não acreditava no Pogba”, conta, de forma a justificar a saída do médio francês para a Juventus, onde acabou por dar nas vistas antes de regressar a Old Trafford naquela que foi, à altura, a maior transferência de sempre. “Já tive alturas em que consegui um negócio recorde e, dois meses depois, o treinador não falava com o jogador. Nem o presidente do clube sabia o que se passava. Mas que raio? Às vezes acontece e há que trabalhar com isso”, acrescenta, sem detalhar de quem falava mas com pormenores que encaixam precisamente no percurso de Pogba. Ainda assim, Mino Raiola garante que o mérito dos agentes é encontrar equipas para os jogadores que não têm mercado — até porque, no caso de Pogba, até o seu “sobrinho de cinco anos conseguia encontrar-lhe uma equipa”.

Mas se Raiola opta por falar no passado, Barnett usa-o para explicar o futuro. “Em 1966, quando Inglaterra ganhou o Mundial, oito ou nove jogadores tiveram de vender a medalha. Agora, garanto que nenhum teria de o fazer”, indica o inglês, que tem certezas de que a agência que lidera, a ICM Stellar, será uma das grandes agitadores do próximo mercado de verão. “Vai ser mais duro, por causa da pandemia. Mas espero fazer três ou quatro operações que vão romper muitos recordes. Espero que aconteçam. Temos aquele que é provavelmente o melhor jogador jovem do mundo, o [Eduardo] Camavinga. Temos o Grealish, o Konaté, …”, explicou o empresário, cuja carteira de clientes inclui ainda Gareth Bale, Mason Mount, Sergiño Dest e Saúl.

Erling Haaland, o “menino-homem” que é o próximo Ibrahimovic, quer ser campeão no Leeds e se tornou a estrela do mercado de inverno

Já Mino Raiola, que para além de Ibrahimovic e Pogba é o responsável pelas carreiras de De Ligt, Lukaku e Insigne, tem nas mãos um dos jogadores mais mediáticos da atualidade: Erling Haaland, que em dezembro de 2019 assinou pelo Borussia Dortmund e que tem interessados no Chelsea, no Manchester City e no Real Madrid. O pacto inicial com os alemães indicava que o avançado ia ficar em Dortmund pelo menos até ao verão de 2022, para solidificar a carreira antes de saltar para um gigante europeu, mas o empresário não deixa de ter a sensação, mais de um ano depois, de que foi demasiado cuidadoso — abrindo a porta a uma saída do norueguês já no final da temporada.

“Talvez tenha sido demasiado cuidadoso com o Haaland quando disse: ‘Vamos primeiro para Dortmund antes de ir para outro sítio qualquer’. Este miúdo pode ir para qualquer equipa, para onde quiser, no nível em que está. E podia tê-lo feito no ano passado. Mas algumas equipas diziam ‘ah, ele estava no RB Salzburgo, será que consegue fazer o mesmo noutro clube?’. Tudo aconteceu mais rápido do que o esperado e ele é o jogador do momento. Às vezes é melhor sair quando toda a gente diz que o jogador deve ficar. Vamos ver o que acontece”, termina.