Uma, duas, três. Sem medos e com frontalidade, Mohammed al-Oreibi al-Majid al-Khalifa, chamado a presidir o coletivo de juízes que em agosto de 2006 começou a julgar o ex-presidente iraquiano pelos ataques que no final da década de 1980 fizeram 180 mil mortos entre a população curda no país, expulsou Saddam Hussein, por desrespeito para com o seu tribunal, nada menos do que três vezes no espaço de uma semana.

“Você é o acusado, eu sou o juiz”, disse na última ocasião, perante o olhar aparentemente divertido do homem que entre 1979 e 2003, ano em que foi deposto, na sequência da invasão americana do país, foi presidente do Iraque.

Tal como não deu início ao julgamento — foi escolhido para substituir o anterior presidente, considerado demasiado brando, por assumir em tribunal que o réu não teria sido um ditador —, Mohammed al-Oreibi al-Majid al-Khalifa, de origem xiita, então com apenas 34 anos, também não levaria a termo o julgamento por genocídio de Saddam Hussein, condenado à morte por outros crimes e executado no penúltimo dia desse ano, sem que o processo chegasse ao fim.

Ficou ainda assim conhecido como o juiz que ousou fazer frente ao ditador iraquiano — e é assim que agora, quase 15 anos depois, está a ser recordado pela imprensa internacional, na hora da morte. Internado num hospital em Bagdade, Mohammed al-Oreibi al-Majid al-Khalifa não resistiu à Covid-19 e morreu na passada sexta-feira, dia 2 de abril. Tinha 52 anos e já se tinha retirado de funções. “Defrontou os símbolos do antigo regime ditatorial e o seu governante e, por isso, permanecerá imortal no coração dos iraquianos em geral e dos juízes em particular”, elogiou em comunicado o Conselho Superior da Magistratura do Iraque.

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No final de setembro de 2006, enquanto decorria o julgamento — que também sentou no banco dos réus Ali Hassam al-Majid, o primo do ditador iraquiano mais conhecido como Ali, o Químico —, um cunhado e um sobrinho de Mohammed al-Oreibi al-Majid al-Khalifa foram assassinados num bairro na zona noroeste da capital iraquiana, mas o juiz manteve-se no seu posto.

Um ano depois, seria ele a confirmar a pena de morte por enforcamento do primo de Saddam, pelo massacre de mais de 180 mil curdos, entre 1987 e 1988.