Pode haver um Real melhor ou pior, um Real com maior fantasia ou um Real mais pragmático, mas dificilmente não há um Real. E foi  isso também que ficou bem patente na receção ao Liverpool na Liga dos Campeões, com um atropelamento sem fuga na primeira parte que permitiu criar uma boa vantagem para a partida da segunda mão. Zinedine Zidane avisou, disse e repetiu por várias vezes aquela que funciona como marca de água deste Real: nas alturas limite, na hora da verdade, nos piores momentos, os mais experientes recuperam em campo a alma da equipa e conseguem catapultar o coletivo para outra dimensão. Aliás, olhando para as mudanças que aconteceram desde o o último título europeu, esse foi o ponto que não se alterou estando o francês no comando.

Ramos e uma história com barbas no jogo entre casados e solteiros (a crónica do Barcelona-Real Madrid)

Foi assim que, nas nove jornadas que antecederam El Clássico, os merengues somaram sete vitórias e tiveram dois empates, um deles resgatado a dois minutos do final no dérbi com o Atlético no Wanda Metropolitano. E foi assim que o Real, que parecia arredado do título, reentrou na luta com apenas três pontos a menos do que uma formação colchonera a atravessar o pior período da época. Questão: essa subida do conjunto de Madrid começou a acontecer quando o Barcelona tinha iniciado a sua trajetória ascendente que conduziu os catalães a um registo de 40 pontos ganhos nos últimos 42 disputados, ficando apenas a um do Atlético e com o melhor Messi.

Joan Laporta tem feito de tudo para segurar o argentino desde que ganhou as eleições e assumiu mais uma vez o clube, 11 anos depois. No discurso de tomada de posse puxando pela influência de Cruyff no espírito blaugrana e da importância do filho pródigo no clube ao longo do século XXI, na tentativa de sondar Kun Agüero para fazer dupla com o argentino depois da saída de Luis Suárez ainda com Bartomeu no comando, na recente homenagem feita ao número 10 por se ter tornado o jogador com mais encontros oficiais pelo Barça. No entanto, e de forma prática, este poderia ser o último clássico do esquerdino em Espanha, tendo em conta que acaba contrato e não revelou a decisão de onde jogará na próxima época. Algo que nem mesmo o técnico rival gostaria de ver.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

“Não quero que seja o último clássico de Messi. Quero que fique. Está bem no Barcelona e para o Campeonato é bom que fique em Espanha”, assumiu Zidane, desvalorizando o facto de Messi já não marcar há seis jogos com o Real antes desta partida em Valdebebas. “Até pode não ter marcado mas todos sabemos o jogador que ele é. Vamos jogar contra o Barcelona, conhecemos Messi, mas todos os jogadores da equipa são bons. Vamos tentar parar as forças do Barcelona, que são muitas”, destacou. “Estamos preparados para um jogo complicado, que não será decisivo porque faltam ainda muitos encontros mas que será importante pela força que dá a quem consiga ganhar. Por isso precisamos do melhor Messi e do melhor Barcelona”, resumiu Ronald Koeman.

E não era complicado encontrar o melhor Messi quando se recordam capítulos passados no clássico, do primeiro hat-trick da carreira aos 20 anos que valeu empate à famosa goleada por 6-2 com a colocação do argentino como um falso número 9 por Pep Guardiola, passando pelas assistências no 5-0 ao Real de Mourinho ou à icónica celebração tirando a camisola e exibindo-a para as bancadas no triunfo em que chegou aos 500 golos na carreira. Num outro contexto, fora do Santiago Bernabéu e sem adeptos nas bancadas, era no capitão do Barcelona que se centravam as atenções. E apesar de ter ficado próximo de marcar até num canto olímpico que bateu no poste, Messi prolongou a maior série de jogos sem marcar ao Real Madrid (sete) e perdeu frente ao rival.

As duas novidades nas equipas não demoraram a dar nas vistas e por motivos diferentes: Zidane abdicou de ter Asensio no seu 4x3x3, reforçou o meio-campo com Fede Valverde e viu o uruguaio ter uma arrancada fantástica pelo corredor central antes de colocar na direita para o cruzamento de Lucas Vázquez e o toque de calcanhar de Benzema que inaugurou o marcador (13′); Koeman manteve a linha de três mas devolvendo Frenkie de Jong ao meio-campo, apostou em Ronald Araújo mas o defesa uruguaio foi um dos elos fracos no jogo de transições que os merengues iam conseguindo fazer. O Real Madrid foi quase sempre melhor no primeiro tempo, chegou ao 2-0 num livre direto de Kroos ainda desviado em Dest (28′), teve uma bola no poste por Valverde e só mesmo nos minutos finais houve uma reação do Barcelona, com um canto direto de Lionel Messi ao poste antes de mais uma boa oportunidade para o argentino em cima do intervalo que foi travada por Courtois.

Ao intervalo, Koeman voltou à fórmula mais habitual, abdicou da linha de três para colocar Óscar Mingueza no lado direito da defesa prescindindo de Dest e alargou o ataque com Griezmann. Os efeitos não foram imediatos mas, pouco depois, o Barcelona estava dentro do jogo com Mingueza a ir à área contrária desviar ao segundo poste um cruzamento de Jordi Alba e a reduzir para 2-1 a meia hora do final, colocando o encontro numa toada em que os catalães iam forçando o empate em ataque organizado e o Real Madrid, já com Asensio em vez de Valverde, procurava as transições para acabar de vez com a partida. Ter Stegen teve até mais trabalho do que Courtois até aos últimos dez minutos, altura em que Trincão e Braithwaite entraram e o avançado teve um lance na área com Mendy que deixou os responsáveis blaugrana em audíveis protestos, já depois de outro penálti protestado na primeira parte sobre Dembelé. O jogo estava no final mas ainda houve tempo para a expulsão de Casemiro com dois amarelos em dois minutos, uma bola na trave de Moriba e um triste adeus de Messi.