Título: Veni Vidi Vinci

Intérpretes: Franco Fagioli, Il Pomo d’Oro, ZefiraValova

Editora: Deutsche Grammophon

Ano da Edição: maio de 2020

Não se sabe que lugar ocuparia hoje Leonardo Vinci na história da música se não tivesse falecido em 1730, com apenas 34 anos, ao que consta depois de beber uma taça de chocolate envenenado, administrada por um familiar despeitado de uma dama da nobreza romana da qual o compositor se gabara de ser amante. À data, a popularidade de Vinci era tal que, ao contrário do que era usual na época, a sua morte não impediu que as suas óperas continuassem a ser levadas à cena durante algum tempo. O mais extraordinário é que Vinci se alcandorara a um lugar cimeiro na opera seria italiana, a par do seu arqui-rival Nicola Porpora, em meia dúzia de anos.

Vinci, nascido em Strongoli, na Calábria, em 1696, aprendera o seu mister em Nápoles, então o principal centro de formação de compositores e cantores de ópera da Europa, onde estudou a expensas de Girolamo Pignatelli, Príncipe de Strongoli. Tendo concluído os estudo em 1718, tornou-se mestre de capela de um nobre napolitano, o Príncipe de Sansevero, para quem compôs, no ano seguinte, a sua primeira obra teatral, Lo ceccato fàuzzo, nos moldes de um género então muito popular em Nápoles, a commedia per musica, afim da opera buffa e do intermezzo cómico. No início de carreira comporia mais uma dúzia de obras neste registo ligeiro, mas o seu prestígio seria construído sobretudo com a vintena de opere serie que compôs em apenas seis anos (entre 1724 e 1730), boa parte delas sobre libretos do aclamado Pietro Metastasio, e que foram estreadas nos mais conceituados teatros de Itália e cantadas pelas maiores estrelas do seu tempo, como o castrato Farinelli e a soprano Faustina Bordoni.

[Manuscrito de uma das óperas de Vinci, La Rosmira fedele (1725), também conhecida como Partenope]

Não temos meios de saber como soariam Farinelli e Bordoni, mas custa a crer que pudessem fazer melhor do que o contratenor argentino Franco Fagioli (n.1981), que em Veni Vidi Vinci nos dá a ouvir 12 árias de sete opere serie de Vinci, sendo a maior parte delas estreias em registo fonográfico. Tal como aconteceu com a esmagadora maioria das óperas barrocas a partir de meados do século XVIII (com exceção de algumas de Handel), as óperas de Vinci caíram num profundo olvido, que só começou a ser quebrado na segunda década do século XXI – e Franco Fagioli tem desempenhado papel de relevo nessa ressurreição, como Arbace no Artaserse dirigido por Diego Fasolis (2012, Erato) e como Cesare no Catone in Utica dirigido por Riccardo Minasi (2015, Decca), dois discos que não podem faltar em qualquer coleção de ópera. Os cúmplices de Fagioli em Veni Vidi Vinci também não poderiam trazer melhores recomendações: a orquestra de instrumentos de época Il Pomo d’Oro não só esteve de serviço aos dois discos acima mencionados como tem sido parceira regular de Fagioli, nomeadamente nos estupendos recitais que o contratenor consagrou a árias de Handel (2018, Deutsche Grammophon) e a árias para o castrato Caffarelli (2013, Naïve),

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A seleção de árias de Veni Vidi Vinci põe em evidência a versatilidade quer da invenção do compositor quer dos recursos vocais e da expressividade de Fagioli, que, se já exibia dotes invulgares quando começou a gravar regularmente música barroca no final da primeira década do século XXI, está agora no zénite das suas capacidades. Quem ainda associe, anacronicamente, “contratenor” a uma voz esganiçada, vacilante, de fôlego curto e afinação aproximativa, ficará surpreendido com Fagioli, nome que os apreciadores de música antiga já colocaram no panteão dos contratenores, ao lado de Max Emanuel Cencic e Philipe Jaroussky (outros dois paladinos da ópera de Vinci), Andreas Scholl e René Jacobs (para nomear duas referências de gerações anteriores).

Fagioli tanto surge belicoso e em disputa acesa com as trompetes na marcial ária “Vil trofeo d’un alma imbelle” (de Alessandro nell’Indie, 1730), como exprime a pungente sensação de sentir o coração vacilar entre dois amores em “Sento due fiamme in petto” (de Medo, 1728).

[“Vil trofeo d’un alma imbelle”]

[“Sento due fiamme in petto”]

Fagioli dá bastas provas da sua agilidade em duas árias de inspiração marítima, “Scherzo dell’onda instabile” (de Medo), em que a agitação da música espelha “o jogo das ondas irrequietas” que arretem furiosamente contra a costa, e na atormentada “Nave altera, che in mezzo all’onde” (de Gismondo, re di Polonia, 1727), uma “ária de tempestade”, típica da ópera barroca, em que a fúria dos elementos funciona como metáfora da tormenta que vai na alma do protagonista, e que tem a colorida e faíscante participação de duas trompas.

[“Scherzo dell’onda instabile”]

[“Nave altera, che in mezzo all’onde”]

Para encontrar Fagioli na sua faceta mais lírica e terna, há que ouvir “Quell’usignolo ch’è innamorato” (de Gismondo re di Polonia), em que a melancolia do rouxinol que canta a sua solidão (a ave é representada pelos rendilhados de duas flautas de bisel) dá lugar à esperança quando, entre o “bosque sombrio”, lhe chega aos ouvidos a resposta de alguém da sua espécie.

[“Quell’usignolo ch’è innamorato”]

O trocadilho que o título do disco faz com a famosa frase com que Júlio César terá dado conta ao Senado romano da sua expedita vitória sobre Fárnaces II é oportuno: Veni Vidi Vinci é um triunfo claro e incontestável, do compositor e dos intérpretes.