Uma equipa de investigadores britânica avisa que os certificados de imunidade, os “livres-trânsito” para quem foi vacinado contra a Covid-19 ou recuperou da infeção com o coronavírus, podem trazer mais prejuízos que benefícios, noticiou o jornal The Guardian.

Existem indícios que algumas pessoas, nomeadamente adultos jovens, podem procurar infetar-se deliberadamente para terem um teste serológico (de anticorpos) positivo e poderem passar a ter acesso a determinados eventos ou espaços que exijam esse certificado. O mesmo pode acontecer com trabalhadores precários a quem seja exigido um certificado para trabalhar, referem os autores no artigo publicado na plataforma medRxiv.

Certificado de vacinação. Que problemas científicos e éticos enfrenta?

Os certificados que requerem que a pessoa tenha sido vacinada ou tenha feito um teste podem aumentar as desigualdades, porque os grupos mais marginalizados ou mais carenciados têm menos acesso a estes recursos (ou mais desconfiança) e veem-se privados de poderem fazer determinadas coisas por falta do certificado.

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Ainda, a posse do certificado pode levar a um relaxamento das medidas de prevenção da infeção por acharem que já não se encontram em risco.

Preocupações de ordem ética e legal também foram levantadas. Incluindo privacidade, restrição das liberdades civis, perda de coesão social pela criação de uma nova hierarquia, discriminação contra alguns grupos sociais, e crime, incluindo falsificação, fraude ou obtenção de documentação ou dados ilicitamente”, escrevem os autores no artigo.

Claro que existem vantagens, como enumeram os especialistas: poderem, eventualmente, incentivar a vacinação e permitirem que as pessoas viajem e retomem parte das suas atividades sociais. De facto, escrevem: “Pode ser considerado pouco ético restringir os movimentos de pessoas que significam pouco risco para os outros”.

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Os investigadores, da área da Psicologia e Comportamento, admitem que os dados disponíveis são escassos e de pouca qualidade, mas apontam o estudo como a primeira abordagem a potenciais riscos que devem ser acautelados.

Sugerem, por isso, que é preciso avaliar a implementação de uma medida como os certificados em tempo real, para que possa ser ajustada rapidamente em caso de necessidade.

Percebermos os benefícios da certificação de saúde no caso da Covid-19 dependerá em parte da compreensão dos possíveis impactos comportamentais e sociais como base para a conceção de sistemas que mitiguem os potenciais danos”, escrevem os autores.

Os especialistas estão ligados a órgãos de aconselhamento do governo britânico, mas declararam ter escrito o artigo a título pessoal.