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Puuuuummmmmm. O primeiro foi às 2h45, o segundo já às 4h30, o terceiro e último às 5h30. Umas horas antes, Pep Guardiola ria-se na conferência de imprensa a propósito da questão de jogar no Westfalenstadion com mais de 80.000 espectadores sem a presença de público, dizendo que todas as equipas já se habituaram entretanto a jogar em casa ou fora com as bancadas vazias. No entanto, cerca de 20 adeptos do B. Dortmund não deixaram de tentar fazer-se ouvir (de forma literal) perto do hotel do Manchester City com aquilo que um elemento ligado ao clube inglês descreveria como “fogo de artifício de força industrial”. Não é algo propriamente novo, muito menos recomendável, mas voltou a acontecer. E funcionou como pontapé de saída para ao encontro.

Haaland não marcou mas assistiu e acabou a dar autógrafos ao árbitro assistente (apesar da derrota com o City)

“É um prazer estar na Champions e já conseguimos qualificar-nos para a próxima temporada. Treinámos, voamos para lá e estamos focados em fazer um bom jogo. Muita coisa pode acontecer, não está nada garantido. Tivemos um bom resultado mas não vamos defender, vamos dar tudo para ganhar. Se ganharmos vão dizer que lidámos bem com a pressão, se perdermos vão dizer que não. Teremos que fazer o mesmo de sempre: analisar e fazer o que for preciso para ganhar o jogo. O que lhe disse? Nada de especial, cada um deve ser líder no jogo”, destacou o treinador espanhol do City, mais uma vez passando ao lado da importância de Erling Haalanda no B. Dortmund: “Analisámos o adversário enquanto equipa, não apenas um jogador. Conhecíamos a sua qualidade”.

Ainda assim, e sem nunca ter falado agora sobre o central, Rúben Dias assumiria um papel de especial relevo na segunda mão na Alemanha, depois do triunfo por 2-1 conseguido em cima do minuto 90 na primeira mão, e foi também por isso que o português foi poupado no encontro frente ao Leeds que terminou com a segunda derrota entre 27 vitórias nos últimos 29 jogos. “Com este registo, seria um tolo se não acreditasse nos meus jogadores. Temos merecido o que já alcançámos mas sei que se formos eliminados e depois falharmos nas outras provas, seremos considerados um falhanço”, disse agora. “O Rúben tem sido muito importante até agora. Ainda faltam dois meses mas ele tem sido tão importante para não sofrermos golos, com a sua liderança e com a qualidade com que tem jogado”, destacara depois da primeira mão frente aos germânicos em Manchester.

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E por falar em portugueses, outro internacional, João Cancelo, abordou também ao canal do clube a “evolução enorme da temporada passada para esta” também pelo progresso em termos táticos que tem feito. “Adoro a maneira como Pep [Guardiola] vê o futebol e a forma como a nossa equipa joga. O nosso treinador é taticamente fantástico, pensa em cada momento do jogo de forma meticulosa e isso ajuda-nos muito. O mérito é todo da nossa equipa, do staff, de todos os que fazem os vídeos que nos são dados para ver, até dos chefs que preparam as refeições e dão um importante contributo para a nossa boa forma. Depois, existe uma forte união do grupo, com jogadores que estão sempre prontos para se ajudarem uns aos outros”, salientou o lateral ex-Juventus.

Esse era o grande ponto de curiosidade para a segunda mão, como consequência daquilo que se tinha passado no primeiro encontro: como conseguiria o Manchester City ter mais presença em zonas de finalização como não foi tão frequente e sobretudo como poderia colocar a equipa a jogar sem bola por forma a que o B. Dortmund não tivesse tanta capacidade de saída por Bellingham ou Dahoud mas sem dar a profundidade a Haaland, como aconteceu por duas ocasiões (que geraram outras tantas oportunidades). Já do lado dos germânicos, que tinham a aposta total nas provas europeias pelo quinto lugar a dez pontos da Champions na Bundesliga, a estratégia não iria diferir muito de Inglaterra – mas com a esperança do regresso aos golos do avançado norueguês.

Os alemães ainda sonharam, aproveitando uma entrada em falso do Manchester City para se colocarem na frente da eliminatória com um golo daquele que voltou a ser um dos melhores em campo, o jovem inglês Jude Bellingham. Depois, e a partir dos momentos em que os ingleses acordaram, esse sonho acabou. E a lei do mais forte imperou com mais um erro decisivo de Emre Çan e um lance de estratégia que arrumou com um jogo em que Rúben Dias voltou a ser mais forte do que Haaland num duelo que terá várias reedições nos próximos anos.

Com João Cancelo no banco perante a aposta de Kyle Walker e Zinchenko nas laterais, Pep Guardiola voltou a apostar em Bernardo Silva como falso avançado para dar mais motor ao carrossel ofensivo mas, ao contrário do que se passou na primeira mão, viu a equipa ter uma entrada amorfa sem bola que foi aproveitada da melhor forma pelo B. Dortmund para se colocar em vantagem, com Haaland a ganhar a Stones, a cruzar atrasado para o remate de Dahoud e Bellingham, à entrada da área após o ressalto, a disparar para o 1-0 tornando-se o segundo mais novo de sempre a marcar num jogo a eliminar da Champions (15′). As regras do “jogo” tinham mudado e era o Manchester City que tinha de ir à procura do golo da qualificação, perante uma formação alemã que se defendeu concentrada no corredor central para anular a construção dos ingleses e que aguentou a vantagem até ao intervalo apesar de alguns sustos como uma bola na trave de Kevin de Bruyne após erro de Morey (25′), um remate de Mahrez travado perto da linha por Bellingham (32′) e um cabeceamento perigoso de Zinchenko (37′).

Algo teria de mudar nos ingleses e mudou mesmo: a equipa mostrou-se mais móvel, mais rápida e a jogar com menos toques nas ações ofensivas, encostando o B. Dortmund ao seu meio-campo com Haaland, Reus e Knauff numa espécie de ilha na frente e chegando mesmo ao empate em mais um erro individual de Emre Çan, numa abordagem errada na tentativa de um corte que desviou a bola com o braço e permitiu a Mahrez fazer o 1-1 (55′) depois de ter culpas no primeiro golo dos ingleses em Manchester. Hummels, no seguimento de um livre lateral, ainda teve uma boa oportunidade para os germânicos mas seria mesmo o conjunto de Guardiola a chegar à reviravolta, num canto que tinha surgido após grande defesa de Marwin Hitz que teve assistência de Bernardo Silva para a entrada da área e remate colocado ao ângulo inferior de Phil Foden que fez o 2-1 (77′).