Mais de meio ano depois de o juiz Carlos Alexandre ter decidido levar o caso Hells Angels a julgamento, ainda está por traduzir para sueco a decisão instrutória para que um dos arguidos, de nacionalidade sueca, possa ser notificado. Assim, o Tribunal de Loures marcou para 13 de setembro o arranque do julgamento dos 88 motards, segundo confirmou ao Observador fonte ligada ao processo.

O problema da tradução já se tinha verificado com a acusação do Ministério Público (MP) — o que provocou um atraso na fase de instrução. Agora, alia-se uma questão logística: encontrar um local para o julgamento. As salas de audiência do Tribunal de Loures, que vai julgar o caso, não têm capacidade para 88 arguidos, tendo em conta o distanciamento a que obriga a pandemia de Covid-19, mas também devido às questões de segurança a que este caso obriga.

O local ainda está, portanto, por definir, mas as datas já foram agendadas: há sessões marcadas já até novembro. Ao que o Observador apurou, no primeiro mês de julgamento, setembro, estão marcadas duas sessões por semana. A periodicidade aumenta para três sessões semanais, em outubro, e volta a ser de duas sessões por semana, em novembro.

Em outubro do ano passado, o juiz de instrução Carlos Alexandre decidiu levar a julgamento todos os membros do grupo Hells Angels, que alegadamente atacaram um grupo rival ligado ao ex-líder de extrema-direita Mário Machado num restaurante, em Loures, em março de 2018. Na altura, o magistrado determinou que um dos arguidos fosse julgado num processo separado, por um crime de consumo de estupefacientes, e não pelos 15 de que estava acusado.

Todos os 89 motards dos Hells Angels vão a julgamento. Um deles será julgado individualmente

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Assim, os 88 arguidos foram vão responder em julgamento pelos crimes de homicídio qualificado na forma tentada agravado pelo uso de arma, associação criminosa, detenção de armas e munições proibidas, ofensa à integridade física qualificada, extorsão roubo qualificado, dano qualificado, tráfico de estupefacientes e também de consumo.

O ponto central da acusação do MP é o episódio de 24 de março de 2018 em que mais de 60 membros do Hells Angels de vários Chapters (estruturas regionais do grupo) invadiram um restaurante em Prior Velho, em Loures, para atacar o ex-militante de extrema-direita Mário Machado e os seus associados. Isto porque se aperceberam que Machado tencionava criar um grupo em Portugal, o Red & Gold, e trataram de delinear um plano para o impedir, segundo o documento. Especialmente porque esse grupo era apadrinhado por outro: o Bandidos Motorcycle Club, um rival histórico do Hells Angels.

O ataque a um grupo rival que quase matou quatro pessoas e que vai levar 88 Hells Angels a julgamento

Com recurso a vários objetos e armas, terão então agredido várias pessoas, acabando por lhes causar graves ferimentos. O plano delineado previa “se necessário até a morte” dos membros do grupo rival, na tese do MP. Só que este ataque acabaria por motivar uma megaoperação da Polícia Judiciária (PJ) que, logo em julho daquele ano, colocou atrás das grades mais de meia centena de motards — entretanto libertados — e que acabaria por descobrir outros alegados crimes ligados ao grupo, como tráfico de droga.