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O “drifter”, o nómada que vive na estrada e sem destino certo por necessidade, gosto, inadaptação ou alergia à existência em sociedade, é uma figura central da cultura americana, com muita expressão na literatura, no cinema ou na música. Os EUA são um país-continente, e a sua vastidão e características geográficas favorecem a mobilidade e a errância. Alguns milhões de americanos, e de famílias americanas, vivem vidas itinerantes permanentemente, ou durante boa parte do ano, como o comprova o variado e próspero mercado das casas móveis e autocaravanas, com modelos que vão do mais básico e acessível ao mais luxuoso e dispendioso.

Além da ficção, há inúmeros livros de reportagem, de investigação e de sociologia sobre o fenómeno do nomadismo nos EUA. Nomadland — Surviving America in the Twenty-First Century, da jornalista Jessica Bruder, especializada em subculturas, e que deu origem a “Nomadland — Sobreviver na América”, de Chloé Zhao (estreia-se na próxima segunda-feira), também candidato a seis Óscares, é apenas um deles, centrado em pessoas mais velhas que, após a crise de 2007, foram viver estrada fora, por escolha ou por necessidade. Existe mesmo na América uma subcultura de jovens “drifters”, documentada pela escritora Chris Urquhart no seu livro Dirty Kids: Chasing Freedom with America’s Nomads.

[Veja o “trailer” de “Nomadland — Sobreviver na América”:]

Em “Nomadland — Sobreviver na América”, Chloé Zhao usa a personagem ficcional de Fern (Frances McDormand), uma viúva que perdeu tudo na crise de 2007, compra uma carrinha a que chama Vanguard e se mete pela estrada fora, como fio condutor do filme. Fern vai vivendo de empregos temporários e encontrando uma série de pessoas pelo caminho, quase todas membros da grande comunidade errante americana, que lhe vão dando desde conselhos úteis sobre como sobreviver “on the road”, até ajudas pontuais. A vaga possibilidade de um interesse romântico surge na pessoa de Dave (David Strathairn), um nómada que tem família e casa para onde ir quando quer.

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[Veja uma entrevista com Chloé Zhao e Frances McDormand:]

Tendo em conta a quantidade de distinções que já recebeu (do Leão de Ouro do Festival de Veneza aos prémios principais dos Globos de Ouro e dos BAFTA) e a carga de elogios com que vem ajoujado, “Nomadland — Sobreviver na América” é um filme dececionante: superficial demais na sua componente documental e muito ténue na ficcional. Zhao não consegue senão aflorar o que significa ter uma existência errante, nem mostrar quais as suas consequências, vantagens e riscos, e explicar porque é que, além dos que foram obrigados a ela pela adversidade ou pelas circunstâncias pontuais de uma crise financeira, há pessoas que a escolhem de bom grado. Pelo espírito de aventura? Pela atração dos espaços abertos? Por não se encaixarem ou recusarem o estilo de vida sedentário convencional? Ficamos na mesma.

[Veja aspetos da rodagem do filme:]

Pelo outro lado, Fern permanece um enigma ao longo de todo o filme. Quem é ela? Uma nómada que encontrou o seu verdadeiro lugar no mundo por causa da crise, ou uma frequentadora ocasional da vida itinerante, uma pioneira dos tempos modernos ou uma eremita que tanto o pode ser numa casa confortável como numa carrinha cheia de tralha? A escassa substância da personagem faz com que Frances McDormand esteja muito pouco à vontade na sua tentativa de se misturar e confundir com as pessoas “reais” que surgem na fita. Aqui, ela é uma atriz famosa que não se consegue fazer passar por gente comum, por menos maquilhagem que use, por mais encardida que esteja, por mais baratas que sejam as roupas que veste.

[Veja uma cena do filme:]

A forma como Chloé Zhao e o diretor de fotografia Joshua James Richard olham e filmam esta subcultura do nomadismo e a experiência humana que ela representa, as pessoas que a abraçaram e as paisagens percorridas por estes americanos em constante movimento, é casualmente realista, preguiçosamente “sociológica”, pobremente política (ver a banalíssima tirada de uma das personagens contra a “tirania do dólar, do mercado e do local de trabalho” – o que não impede Fern de trabalhar num armazém da exploradora e super-capitalista Amazon para poder pagar as despesas) e, do ponto de vista visual, de um paisagismo sensaborão.

“Nomadland — Sobreviver na América” é um exercício cinematográfico de turismo do não-conformismo, daquele género que comove e indigna as elites mediáticas e culturais e os bem-pensantes em geral. E que estes grupos adoram elogiar e premiar, do alto dos seus confortáveis, seguros e privilegiados estilos de vida. Vão ver “Sem Eira nem Beira”, de Agnès Varda, para perceberem a diferença entre o artigo genuíno e a contrafação.

“Nomadland — Sobreviver na América” estreia-se nos cinemas na próxima segunda-feira, dia 19