Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

Pinto da Costa à frente na primeira fila, Sérgio Conceição a seu lado. A imagem tantas vezes vista na chegada do FC Porto aos arquipélagos ou a países internacionais repetiu-se mais uma vez este sábado, com o presidente e o treinador a partilharem o primeiro banco do autocarro que iria transportar a equipa para a unidade hoteleira no Funchal antes do encontro do Nacional. No entanto, houve outra imagem que sobrou do momento, por estes dias sem a festa que os adeptos azuis e brancos faziam antes da pandemia na receção à comitiva: o líder portista segurava o telefone na horizontal, enquanto a seu lado o técnico ia dando uma espreitadela ao que se passava. Só os próprios poderão garantir ao certo o que estariam a ver mas a coincidência horária colocava como opção o acompanhamento dos últimos minutos da receção do Benfica ao Gil Vicente, marcada pela derrota do rival.

Começou a parte decisiva do Campeonato e a partir de agora tudo conta. Foi por isso que Francisco J. Marques, diretor de comunicação dos dragões, não deixou passar no Twitter logo na sexta-feira a arbitragem do jogo entre Farense e Sporting, que terminou com o regresso às vitórias dos leões pela margem mínima, escrevendo a frase “Foi uma pena que este jogo em Faro não tenha tido VAR. Se tivesse tido com certeza estes lances teriam sido corrigidos”, a propósito de dois lances polémicos na grande área verde e branca ainda na primeira parte. Foi por isso que os responsáveis azuis e brancos seguiram de forma atenta também o encontro na Luz e provavelmente também a deslocação do Sp. Braga a Vila do Conde (0-0). Contas feitas, uma vitória frente ao Nacional, que levava uma série de oito derrotas seguidas e duas goleadas com o novo técnico Manuel Machado, permitiria que o FC Porto “partisse” a classificação, ficando a seis pontos da liderança e com outros tantos de vantagem em segundo.

“Mudar o chip? Estamos atentos a tudo. Percebemos que, à medida que caminhamos para fim, diminuem os jogos e a importância e o peso dos mesmos são grandes mas não olhamos de forma muito longínqua, só para o próximo jogo. Tivemos o Tondela entre a eliminatória com o Chelsea e demos uma excelente resposta. Focamo-nos em cada treino e em cada jogo para ganhar, o que se passou e o que há de vir não é a melhor forma de encarar cada encontro”, salientara Sérgio Conceição antes da ida para a Madeira. “Qualquer jogo do Campeonato é complicado. Do último classificado, que é o Nacional, para o décimo há sete pontos de diferença, se não estou em erro [que passaram a dez depois das vitórias de Tondela e Gil Vicente]. Faltam alguns jogos e a diferença não é muito grande. A dificuldade é sempre grande. As equipas são competentes, a nossa Liga é sempre difícil, jogar na Madeira é sempre complicado”, acrescentou o treinador dos azuis e brancos.

No entanto, e de forma quase incontornável, a expressão “moral” acabou por surgir nessa conferência com os jornalistas. Contexto: uma entrevista de Pepe ao semanário Novo, onde se mostrou “envergonhado” por ter visto Jorge Jesus falar de forma crítica sobre a entrada de Eustáquio sobre Weigl que valeu vermelho direto ao jogador do P. Ferreira depois de ter deixado passar os pisões a Corona no último clássico no Dragão, e a resposta que o técnico dos encarnados teve a essas declarações, dizendo que após rever as imagens admite que não foi um lance com intenção e não comentando em específico as palavras do central deixando apenas um “Grande moral…”. “O que me saltou à vista foi uma expressão curiosa e que me deixou feliz: que gostaria de ser treinado por mim, com 28/29 anos, no auge da carreira. Esteve nesse momento no Real Madrid com os melhores do mundo. É um elogio incrível. Nesse sentido, é dar uma moral bem grande. Um jogador que ganhou três Champions e diz isso de mim… Que grande moral, fico feliz por isso”, atirou, recuperando a mesma expressão do homólogo.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Farpas e indiretas à parte, moral era também o estado de espírito que melhor descrevia a entrada do FC Porto na fase decisiva do Campeonato, atravessando a segunda melhor série de vitórias consecutivas apenas superada pelos sete triunfos na primeira volta entre a derrota em Paços de Ferreira e o empate frente ao Benfica. E era também o prolongamento desse momento que poderia colocar os dragões mais perto da liderança da prova, sem margem de erro perante a distância de nove pontos (com menos um jogo) e o facto de não ter mais confrontos diretos com o Sporting apesar de haver ainda um clássico na Luz por disputar. Mesmo com visíveis resquícios da disputada eliminatória com o Chelsea a pesarem na equipa, sobrou o resultado. E mais uma vitória.

Taremi reforçou o estatuto de melhor marcador da equipa, marcando pelo terceiro jogo consecutivo e chegando aos 18 golos esta temporada. Pepe e Mbemba voltaram a ter uma exibição imperial, não só a dominar na sua zona mas também a tentar dobrar muitas vezes lacunas de posicionamento pelas laterais ou à frente na área. No entanto, foi das mãos (e pés de Marchesín) que saíram todos os sinais para o triunfo: defendeu logo a abrir uma grande penalidade, evitou ainda antes do intervalo, voltou a ter nova boa intervenção no segundo tempo. Mais do que isso, mostrou e prolongou aquilo que faz hoje mover o FC Porto: moral. Como num cruzamento em que antecipou onde a bola ia cair e saiu de forma dominadora (50′), como numa tentativa na profundidade em que saiu de forma destemida fora da área e saiu a jogar com os pés (60′). Foi de trás que veio aquele resto de gasolina num tanque da equipa que esta semana acaba quase seco para levar a equipa para a frente.

Mantendo a mesma disposição tática que iniciou o encontro frente ao Chelsea com dinâmicas diferentes e ainda posicionamentos mais altos, Sérgio Conceição lançou Luis Díaz e Taremi na frente e até começou o encontro com duas boas aproximações pela esquerda sem último passe para finalização mas seria o Nacional a conseguir surpreender nos minutos iniciais, explorando da melhor forma as transições pelo lado direito do ataque tendo João Camacho e/ou Marco Matias como principal referência. E foi num desses lances que beneficiou da primeira oportunidade flagrante da partida, com João Camacho a entrar bem na área e a ser derrubado por Zaidu para uma grande penalidade batida por Eber Bessa mas bem travada por Marchesín, argentino que defendeu o primeiro castigo máximo desde que chegou ao FC Porto no segundo penálti perdido pelos insulares na Liga (6′).

Sérgio Conceição dava sinais de alguma impaciência no banco, pedindo outra capacidade ao meio-campo não só em posse mas sobretudo sem bola. Manuel Machado alterara mais de metade da equipa em relação ao último onze com o Santa Clara e mostrou uma equipa com mais capacidade em todos os aspetos do jogo, conseguindo equilibrar e ter até a chance flagrante do encontro apesar de ter perdido por lesão Marco Matias, mas essa boa entrada acabaria por ruir naquilo que colocou o Nacional na última posição: o detalhe, a desconcentração, o erro próprio. Foi assim que António Filipe, após receber um atraso, demorou demasiado tempo a bater a bola na frente ou ao lado, viu essa tentativa intercetada por Taremi e Corona assistiu depois o iraniano para o 1-0 (20′), naquele que foi o terceiro encontro seguido do avançado que leva 18 golos na época de estreia a marcar e o sétimo passe para golo de Corona no Campeonato, igualando Everton Cebolinha no topo desse parâmetro.

O FC Porto estava em vantagem, tinha o domínio da posse e começava a perceber melhor a forma de sair do Nacional mas nem por isso evitou mais oportunidades dos insulares, como aconteceu numa diagonal de Gorré da esquerda para o meio para remate rasteiro e nova intervenção de qualidade de Marchesín (25′) e numa saída pela direita que voltou a encontrar João Camacho nas costas de Zaidu para a tentativa cruzada que saiu perto do poste da baliza dos azuis e brancos (36′). António Filipe, que errara no primeiro golo, continuava sem muito trabalho mas chegou ao intervalo com um susto, numa boa incursão de Grujic em terrenos mais adiantados antes da assistência para o remate de Taremi que saiu muito perto do alvo nos descontos do primeiro tempo.

As indicações de Sérgio Conceição eram bem percetíveis para tentar melhorar o rendimento da equipa: Grujic a descer mais para a zona entre os centrais para começar aí a construção com maior segurança, Zaidu a subir menos vezes por ter sempre João Camacho a tentar explorar a profundidade nas suas costas, Sérgio Oliveira mais perto de Taremi quase a funcionar como segundo avançado bom bola, mais jogo por dentro dos dois alas. No entanto, e à exceção de um remate muito por cima de Uribe num lance onde Luis Díaz foi carregado perto da área, o FC Porto continuou a ter pouco jogo ofensivo de qualidade e voltou a apanhar um susto com Gorré a combinar com Riascos numa diagonal, a beneficiar de um ressalto e a rematar para nova defesa de Marchesín (56′), que pouco depois teria uma saída importante da área para anular mais um lance prometedor (60′).

Manuel Machado percebia que podia mesmo chegar ao empate e voltou a mexer na equipa, lançando Rochez para criar mais dificuldades a Zaidu e colocando Rúben Micael em busca de outro critério em posse. Apesar da boa capacidade de saída, o Nacional não voltou a conseguir mais situações de tiro e o FC Porto, que lançou de uma assentada Romário Baró, Marega e Toni Martínez, também não fugiu ao autêntico marasmo em termos ofensivos que se foi alastrando ao longo do segundo tempo. Nos últimos cinco minutos ainda houve um remate com algum perigo de Nanu, um lance em que Marega e Uribe remataram contra os defesas insulares e um golo bem anulado a Toni Martínez mas o resultado estava mesmo feito, com os dragões a somarem três pontos.