“Eles não me dão privacidade, até o meu amigo Gary me está a perturbar. É assim a minha vida…”. Quando ia arrumando no porta bagagens do carro os seus pertences pessoais como um enorme quadro com o filho José Mário, José Mourinho agarrou no telefone e decidiu fazer um curto vídeo com o telemóvel. Para recordar? Não, era mesmo para partilhar com os quase dois milhões de seguidores no Instagram, como o próprio assumiria de seguida. Mas mais do que as palavras que teve ou não teve, foi numa reação que o português disse tudo.

Caiu mais uma bomba no Tottenham: Mourinho despedido a menos de uma semana de disputar final da Taça da Liga

“Deve doer antes de uma final da Taça da Liga… Tu apuraste-te para a final da Taça da Liga, Jose…”. Mourinho fechou o porta bagagens, fez aquele jeito com a boca de quem quer dizer muito mas não pode dizer nada e deu um abraço a Gary Cotterill, jornalista da Sky News que estava presente e que continuou a tentar, falando naquilo que Mourinho conseguiu fazer no Tottenham, recordando de novo a qualificação para a Taça da Liga, assumindo os problemas de uma defesa que já estava no plantel quando chegou aos londrinos, no final de 2019.

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– Tu conheces-me, tu conheces-me… Sabes que não vou dizer nada…
– Ok mas vamos ver-te em breve certo? Um pouco de férias, um pouco de descanso, recarregar baterias, apanhar um pouco de sol…
– Não preciso, não preciso de paragens nem de recarregar baterias…
– De volta ao futebol assim que seja possível?
– Eu estou sempre no futebol…

De forma quase esperada, José Mourinho foi despedido do Tottenham. De forma inevitável, José Mourinho disse sem dizer o que tinha de ser dito. De forma surpreendente, José Mourinho saiu a seis dias de disputar a final da Taça da Liga, frente ao Manchester City, que poderia dar aos londrinos o primeiro título desde 2008.

José e a sua equipa técnica estiveram connosco em alguns dos momentos mais desafiantes do clube. O José é um verdadeiro profissional que demonstrou enorme resiliência durante a pandemia. A nível pessoal, gostei de trabalhar com ele e lamento que as coisas não tivessem acontecido. Não funcionou como ambos tínhamos imaginado. Será sempre bem-vindo aqui e gostaríamos de agradecer-lhe a ele e à sua comissão pela sua contribuição”, destacou o presidente Daniel Levy.

A questão dos resultados desportivos é a explicação mais óbvia para a saída. Após os meses iniciais que de forma indelével ficaram marcados pela pandemia, o Tottenham teve um bom início de temporada e chegou mesmo a liderar a Premier League, posição que perdeu apenas em Anfield numa derrota frente ao Liverpool em cima do minuto 90. Apesar do embate desse desaire, os spurs ainda conseguiram recuperar mas começaram a afundar-se de vez em janeiro, de novo no seguimento de uma derrota com o campeão inglês mas em casa. Nos últimos 14 jogos da Premier League, e no seguimento de três encontros sem vencer, a equipa perdeu sete. Pelo meio, saiu da Taça de Inglaterra após um eletrizante 5-4 no prolongamento com o Everton e foi afastado de forma no mínimo surpreendente da Liga Europa na Croácia, diante do Dínamo Zagreb. E esta pode ser uma justificação.

Um outro ponto muito falado esta segunda-feira foi a entrada do Tottenham no grupo de 12 “dissidentes” que no domingo à noite anunciaram a criação de uma Superliga Europeia. A versão de que José Mourinho mostrara a sua discordância pela decisão a Daniel Levy e que no seguimento disso o presidente dos londrinos teria aberto a porta à saída foi ventilada mas sem fundamento – embora o técnico nunca tenha mostrado problemas em dizer que não concordava com esse modelo. No entanto, o facto de os spurs decidirem entrar no grupo de fundadores da prova e as garantias que asseguraram com isso podem de facto ter contribuído para precipitar o cenário de saída, dando margem para começar já a projetar uma era diferente a partir da próxima época.

No entanto, terão existido outras razões para a saída do técnico português 17 meses e 86 jogos depois de assumir o comando do Tottenham, outrora rival da cidade nas duas passagens que teve pelo Chelsea. E nos bastidores há agora de tudo um pouco, como escreve o The Athletic. “Ele sugou a cultura do clube”, disse uma das fontes.

De acordo com a publicação, houve quase um momento de viragem de algo que já não andava bem na palestra ao intervalo do encontro da equipa frente ao Manchester City no Etihad, quando se mostrou satisfeito com os 45 minutos iniciais da equipa que não tinham registado nenhum remate, nenhum canto e apenas 36% de posse de bola. “Você acha mesmo que isto foi bom?”, terá comentado um dos jogadores. Não era. Não foi. E não seria após o reatamento, com o Tottenham a perder por 3-0 num jogo que poderia ter registado números ainda mais dilatados no final e que mostrou bem o momento que a equipa atravessava – e todos os seus problemas.

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A questão dos treinos aborrecidos, nomeadamente o episódio de uma sessão em que esteve a trabalhar até à exaustão lançamentos laterais defensivos antes de um jogo com o Liverpool sem que os jogadores percebessem o porquê da insistência, foi desmentida (ou relativizada). No entanto, havia uma imagem que perdurava há muito em campo: muitas vezes a equipa não sabia o que fazer consoante os momentos do jogo. Ou seja, e como refere o The Athletic, com Mauricio Pochettino a equipa tinha um modelo, tinha uma identidade e trabalhava todas as semanas em cima disso para melhorar; com José Mourinho, além de haver esquemas táticos e abordagens diferentes, as grandes preocupações centravam-se na parte defensiva sem o mesmo trabalho da parte atacante. E com esse acrescento de nunca ter realizado a vontade de ter um dos centrais pedidos: Rúben Dias ou Skriniar.

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Depois, um outro ponto abordado diz respeito à ligação, ou à falta dela, do plantel com João Sacramento, adjunto que ocupou a vaga de Rui Faria depois de o número 2 ter decidido arriscar uma carreira como técnico principal e com quem não haveria a ligação necessária que existia nas outras equipas com o treinador que arriscou uma aventura no Qatar pelo Al Duhail que entretanto chegou ao fim em janeiro de 2020. A forma como fazia a análise dos adversários e a parte do trabalho físico do plantel são elogios deixados a Sacramento, algo que quase se tornava secundário perante aquilo que algumas fontes descreveram como “falta de inteligência emocional”.

Por fim, as constantes críticas abertas que fazia em termos públicos aos jogadores quando os resultados não saíam, algo que nem sempre acontecia no plano interno. O encontro com o Crystal Palace a meio de dezembro, um dos muitos em que o Tottenham esteve em vantagem mas acabou por ceder o empate nos últimos minutos, terá sido um turning point em relação a esses reparos, que deixaram de ser vistos como uma forma de espicaçar os jogadores depois de um resultado menos conseguido e passaram a ser encarados como um mero atirar de culpas para o lado dos atletas. Elementos como Harry Kane, Höjberg, Lucas Moura ou Lloris sempre foram grandes defensores do português no balneário mas nas últimas semanas o próprio Mourinho terá percebido que tinha cada vez menos “aliados” dentro e fora de campo, algo que também terá contribuído para a sua saída.