O cantor e compositor português Pedro Mafama revelou esta sexta-feira um single do seu primeiro álbum, que será editado ainda no primeiro semestre deste ano. O tema chama-se “Estaleiro” e foi revelado com um vídeo da canção. Já o disco terá como título Por Este Rio Abaixo, uma referência ao histórico Por Este Rio Acima de Fausto Bordalo Dias.

A canção teve produção instrumental de Beatoven e Pedro Da Linha e, de acordo com um comunicado à imprensa, foi influenciada quer pela tradição musical portuguesa quer por ritmos africanos e magrebinos. O próprio autor vinca, citado, que as percussões “são de entre Minho e Angola, enquanto as guitarras estão algures entre Lisboa e Tânger, e todas elas nos levam para um local que paira algures entre o grande Oceano que nos trouxe a mistura da qual somos feitos e o Mediterrâneo que nos deu os alicerces de taipa e tabique das velhas Almedinas caiadas das quais viemos”.

O vídeo que acompanha o single foi realizado por André Caniços e, refere o comunicado, “recupera uma versão contemporânea dos cenários do Teatro de Revista, cinema clássico português e dos palcos encenados nos quais cantava Amália Rodrigues ou a espanhola Lola Flores, mas também do cinema clássico egípcio dos anos 1940 a 1960, protagonizado por Asmahan, Leila Mourad ou Abdel Halim Hafez”.

É o buzinão de um navio que avisa que vai partir, rumo a um disco novo e a uma nova fase da vida. É um desejo de andar para a frente, ancorado em memórias de uma fase da minha vida em que passava os dias a vaguear pela cidade, sem rumo nem futuro, a olhar a vista do Castelo e de uma Lisboa em decadência, sentado nos miradouros da Graça onde cresci, com sonhos altos mas uma força de execução quase nula”, refere Pedro Mafama sobre a canção.

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Para a letra, Pedro Mafama foi buscar inspirações das “memórias desses tempos” em que vagueava pela cidade, suas e “e de outras pessoas com quem partilhava bancos de jardim, escadarias de igreja e esquinas de ruelas, de forma a recriar esse ambiente que guardo na minha cabeça e que se calhar já só existe dentro dela”.

O autor faz ainda uma revelação mais detalhada sobre o conteúdo lírico do single: “O refrão, por exemplo, foi feito a pensar num ex-contínuo do meu liceu antigo, a Escola Secundária de Gil Vicente, que foi combatente da guerra colonial e, claramente traumatizado por aquilo que viu e viveu em jovem, passa ainda hoje os dias a deambular sozinho por Alfama, a ver os cruzeiros a chegar e a partir. Anda pela cidade como um fantasma, preso a um tempo que nunca mais vai voltar, e sem maneira de conseguir
acompanhar um presente que já não tem lugar para ele, quanto mais olhar para o futuro”.

O álbum de estreia de Pedro Mafama, que tem vindo a revelar canções que cruzam ritmos tradicionais e antigos com técnicas de produção musical moderna e efeitos de vozes contemporâneos, será editado algures nos próximos dois meses.

O disco ainda não tem data de edição exata agendada mas já tem um conceito revelado: “Baseia-se no clássico de Fausto Bordalo Dias (‘Por Este Rio Acima’), prestando-lhe homenagem ao mesmo tempo que lhe dá uma ligeira carga de ombro para seguir o seu próprio caminho e apontar na direção contrária. O meu álbum aponta para baixo, porque a pesquisa sonora está direcionada sobretudo para sul, estabelecendo pontes entre a música portuguesa e as sonoridades dos nossos parentes distantes árabes, assim como com a música africana que nos rodeia e que em tantos momentos da história influenciou a nossa tradição musical”.

O autor de canções como “Jazigo”, “Lacrau”, “Arder Contigo” e “Brilho (Tanto Sal)” descortina ainda um pouco mais das sonoridades que se ouvirão no álbum e das histórias que cantará: “Ao som de vozes em auto-tune, pads electrónicos, percussões digitais e baixos que fazem tremer os vidros das casas antigas da Graça, Mouraria e Alfama, somos levados ‘rio abaixo’, não só pelo aviso constante de velhos homens amargurados que nos garantem que a nossa geração está perdida e que tudo se vai afundar, como também pelo fascínio do trágico e do apocalíptico, que se reflete nas letras dos temas”.