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Otimismo, determinação, força e desespero — sentimentos e noções possíveis de colocar numa coleção. Os tempos prestam-se a isso e a moda de autor será sempre um palco privilegiado para medir os humores e as vontades de quem cria. É um “ato egoísta”, como resume Hugo Costa. Esta sexta-feira, apresentou “Nimsday”, uma espécie de shot energético à base de color block e com as silhuetas urbanas a que já nos habituou.

“Queríamos que a coleção tivesse uma energia forte, um certo otimismo. Apostámos em peças camaleónicas, que se transformam com a ajuda de elásticos. Na estação passada, sentimos necessidade de passar uma mensagem de esperança. Desta vez, é de vitalidade que precisamos”, afirma o designer ao Observador, evocando uma prova de determinação e resistência, como a de Nirmal Purja Magar. O alpinista, conhecido pela rapidez com que subiu as 14 maiores montanhas do planeta (seis meses e seis dias), serviu-lhe de inspiração.

Há uma mistura de robustez e maleabilidade que continua a marcar a etiqueta Hugo Costa, ora posta em casacos cheios de volume — verdadeiros abrigos para o frio –, ora cosida num blazer reinterpretado sob a lente minimal e contemporânea do criador. O interesse pela ganga evolui em crescendo. Aqui, surge tingida de cor de laranja, opção que, juntamente com uma injeção de amarelo, aquece a coleção.

Hugo Costa com os filhos e dois manequins, no final do desfile transmitido esta sexta-feira © Ugo Camera

“Estamos a precisar que o futuro chegue muito depressa. Vivemos dos nossos resultados e o poder de compra, que já era pouco, desapareceu. Neste momento, estamos a investir na loja online e a redesenhar o site e o que financia isso tudo são os outros projetos que temos no estúdio”, explica. A conversa com Hugo Costa distancia-se rapidamente da coleção do próximo inverno. Atrás dela vem uma reinvidicação. “As pessoas têm de perceber que as peças dos designers também têm de ser compradas. Temos muita qualidade, mas que depois não é valorizada. Acham que, por ser roupa de autor, é tudo caro. Temos de chegar às pessoas e elas têm de apoiar o que é nosso. Comprem design nacional”.

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Nas últimas estações, a estratégia para a marca Hugo Costa tem passado por aumentar o leque de oferta. Na passerelle, o designer continua a mostrar o resultado do seu trabalho mais autoral, enquanto, na prática, as coleções se desdobram em itens de permanência, peças versáteis, mais comerciais, pensadas para criar alternativas quotidianas às propostas de agentes internacionais.

Sem tempo a perder no que toca a diagnosticar oportunidades no mercado, apresentou, pela primeira vez, algumas peças para criança, segmento ainda por explorar dentro da moda portuguesa de autor. “Como pai, sinto falta de peças com que me identifico e com que eles, por crescerem com o nosso imaginário, se identificam também. Acredito que é uma vertente da marca que pode funcionar muito bem a médio prazo”. Coube aos dois filhos mais velhos de Hugo Costa desfilar em primeira mão. No final, um mesmo estilo tomou conta do retrato de família, imagem que se tornará mais frequente no futuro

Os novos neutros Unflower e o regresso de Diogo Miranda

Nunca o conforto esteve tão presente na cabeça de um designer de moda. A diferença é que, enquanto uns se vergam perante a inviabilidade de criar de outra maneira, outros, independentemente se serem nomes consagrados ou talentos emergentes, sempre caminharam lado a lado com um estilo fácil e quotidiano. No caso da Unflower, marca de Ana Sousa e Joana Braga, nunca houve espaço para outra coisa que a perfeita harmonia entre materiais, desenho e funcionalidade.

Unflower © Ugo Camera

Numa coleção desenhada a pensar, simultaneamente, em homens e mulheres, salta à vista a neutralidade da paleta (onde predominam diferentes tonalidades de branco, bege e preto), avivada por texturas e pespontos. A intemporalidade é prova do amadurecimento da marca e coloca a Unflower em sintonia com a nova era do consumo.

No mesmo dia, Diogo Miranda regressou ao calendário do Portugal Fashion, depois de, na última edição, ter optado por apresentar autonomamente. E, em parte, o criador portuense seguiu a mesma fórmula. Fiel à sua silhueta clássica, sempre pronta para um cocktail ao fim da tarde, encontrou no compromisso entre elegância e extravagância um trunfo sem data de validade.

O final do desfile de Diogo Miranda, na biblioteca da Alfândega do Porto © Ugo Camera

Os robes e os apontamentos de lingerie piscam o olho à preenchida agenda de eventos caseiros. Por outro lado, os vestidos em seda, perfeitamente cintados e com decotes para todos os gostos, relembram que o mundo não vai ficar recolhido para sempre e que é só uma questão de tempo até vermos reposta a vida social de outros tempos. Num desfile gravado na biblioteca da Alfândega do Porto, o designer voltou ainda a apresentar propostas para homem.

Pé de Chumbo, uma marca global num mundo em suspenso

O mundo parou e Alexandra Oliveira, fundadora e criativa por trás da Pé de Chumbo, continua à espera que alguém volte a carregar no play. Praticamente sem showrooms e feiras (tocar nestas peças é absolutamente essencial), a marca readaptou-se como pôde — parte da pequena fábrica está a trabalhar para outras marcas, com o início da pandemia começou a produzir e a certificar material hospitalar e no final do ano passado criou uma linha de têxteis para a casa, uma aposta que se revelou promissora e à qual a designer dará continuidade já este verão.

“Se não formos a Paris, a Milão e a Nova Iorque não conseguimos mostrar o que estamos a fazer aos nossos clientes. Muitos deles estão fechados, alguns nem sequer vão reabrir, sobretudo em Itália. Estamos numa fase difícil e este inverno vai ser pior do que o anterior”, lamenta Alexandra, em conversa com o Observador. O mercado de evening wear, um ponto forte da marca, está igualmente parado, mesmo no Médio Oriente, para onde costumava escoar uma grande parte dos seus modelitos de noite. Sem festas, resta dar a volta ao texto e voltar a Pé de Chumbo para novas exigências de consumo.

Pé de Chumbo © Ugo Camera

“Foi uma coleção muito louca de fazer”, começa por descrever. “Tem muitas texturas novas e é mais prática também”. Traduzindo: menos vestidos longos e uma maior aposta em peças casuais, capazes de responder às necessidades mais banais do dia-a-dia, ainda que mantendo o brilho que a Pé de Chumbo sempre adicionou. A versatilidade é outra das premissas que orienta a marca na resposta aos novos tempos — além de um guarda-roupa feminino multifacetado, Alexandra apresentou, pela primeira vez, peças masculinas. Um desejo antigo de muitos clientes que, em plena crise, viram o seu pedido atendido.

O calendário de transmissões arrancou, esta sexta-feira, com as novas entradas na plataforma Bloom Upload — Ahcor, Huarte, Kensal e Rita Ibs participaram num desfile coletivo que serve de montra a designers ainda numa fase muito inicial dos seus percursos. No mesmo dia, estreou-se também Davii, designer que trocou o Brasil pelo Porto e que levou para a Alfândega uma coleção que contrapôs a leveza e a transparência de sedas e organzas à opacidade de longos sobretudos e capas.

O Portugal Fashion termina já este sábado. No último dia são esperados os desfiles de Marques’Almeida, Luís Onofre e Alves/Gonçalves. Até lá, veja (ou reveja) as imagens que marcaram este segundo dia na fotogaleria.