No comício que encerrou a contra-cimeira “STOP Pobreza, STOP Precariedade”, organizada pelo Bloco de Esquerda, que aconteceu precisamente no mesmo dia em que arrancou a Cimeira Social Europeia, a coordenadora bloquista não poupou criticas às “palavras ocas” e às “meias intenções” que, segundo Catarina Martins, se fizeram ouvir na Alfândega do Porto.

“Há outra Europa além daquela que está na Alfândega, uma Europa que todos os dias está nas lutas dos movimentos e na construção da alternativa. Uma Europa que sabe que não vale a pena lágrimas de crocodilo sobre a pobreza e as dificuldades da vida”, afirmou, sublinhando as “palavras ocas” e as “meias intenções” de quem “não tem propostas e determinação na ação”.

Para Catarina Martins, “vivemos um tempo perigoso”, em que “a pandemia ameaça a saúde e a pobreza ameaça a vida”, por isso, não tem dúvidas de que a Europa “é um território desigual” e que as opções que foram tomadas na resposta à pandemia e à crise estão a aprofundar uma desigualdade “que vem de longe”. “Esta Europa que prefere proteger as patentes das vacinas a proteger os seus cidadãos, é a mesma Europa que garantiu sempre a impunidade dos de cima e que se alimenta da pobreza dos debaixo.”

Num discurso muito aplaudido na Praça da Alegria, no Porto, a líder do Bloco de Esquerda afirma que também no combate à pobreza “sobram as palavras de ocasião e falta a ação”, recordando que no início de 2020 “quase 100 milhões de pessoas estavam em risco de pobreza”. “Os líderes europeus vieram hoje propor que nos resignemos com mais 70 milhões de pobres e quase um quinto da população desempregada na próxima década”, acusa, acrescentando que “anunciar reduzir 15 milhões de pobres na Europa, enquanto se esconde que se quer manter mais de 70 milhões, não é um avanço é um retrocesso, uma resignação”.

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O partido não esqueceu o cenário nacional e garante que Portugal é também um país desigual, onde a pandemia “cava mais fundo” as diferenças, mas que antes dela “uma em cada cinco pessoas estava em risco de pobreza”. Catarina Martins criticou o programa de recuperação e resiliência e explicou porquê. “Programas de recuperação que obrigam à redução de serviços públicos essenciais como o Serviço Nacional de Saúde, que escondem reformas que desregulam mais o trabalho, nunca serão programas de recuperação, mas sim programas para aprofundar a crise.”

“Não se pode prometer na Europa o combate à pobreza e recusar em Portugal os apoios a quem está a cair na pobreza. Se até o Governo reconhece a insuficiência do seu orçamento, este é o tempo de responder”, alerta a coordenadora do Bloco, realçando a ideia de que “não se responde a uma crise máxima com uma política de mínimos”, muito menos num tempo “de urgência, perigoso e de ameaça”.

“Hoje, no Porto, caíram todas as máscaras”

Minutos antes, no púlpito improvisado sobre a calçada, Sérgio Aires, candidato do Bloco de Esquerda à Câmara Municipal do Porto, não perdeu a oportunidade de fazer campanha, ironizando com a escolha da cidade para a realização da Cimeira Social Europeia, o Porto. “De facto, seria difícil encontrar uma cidade que tão bem representasse todo o cinismo e farsa a que assistimos com a renovada programação do pilar dos direitos sociais”, disse, atirando farpas à governação de Rui Moreira.

O sociólogo foi mais longe e afirmou que esta sexta-feira “caíram todas as máscaras”, realçando que para muitos a pobreza “é entendida como um efeito colateral”, “deve ser acolchoada, controlada e assistida, mas não muito mais do que isso”. “Enquanto e onde houver pobreza, a democracia não está completa” concluiu.

Também o deputado José Soeiro recordou que o Porto acolhe esta sexta-feira duas cimeiras, uma com metas ambiciosas, outra nem por isso, realçando que a contra-cimeira bloquista ergue-se para dizer que “a pobreza não é para manter, mas para erradicar”, pois esse “tem de ser o objetivo”.

Para Soeiro, a Alfândega do Porto e a Praça da Alegria são palcos de dois eventos diferentes, duas escolhas possíveis. “São dois caminhos possíveis, mas antagónicos, que estão em aberto. Nenhum está ainda pré terminado, ninguém decidiu ainda o nosso futuro e não há inevitabilidades”, por isso deixa a esperança de uma Europa mais igualitária, “que não é apenas possível ser construída, como já está a ser construída”.

Outro dos protagonistas da noite foi Heinz Bierbaum, presidente do Partido da Esquerda Europeia, que alertou para a crise económica, social e política da União Europeia, “resultado da política neoliberal dominante”, e que a pandemia gravou. “Se esta política continuar, as desigualdades sociais aumentarão e a Europa não terá futuro. É preciso mudar radicalmente a política europeia.”

A proteção dos trabalhadores, a transformação ecológica e a solidariedade internacional parecem ser pilares fundamentais para o plano de ação defendido pelo partido e Heinz Bierbaum pede que o mesmo seja feito em ações e mobilizações e não apenas “com um documento em papel”.

Enquanto na Alfândega do Porto se reuniam 24 chefes de Estado e de Governo na Cimeira Social Europeia, pela cidade foram muitos os protestos organizados por polícias, enfermeiros, lesados do BES ou funcionários da justiça que se fizeram ouvir, apesar dos condicionamentos de trânsito e da segurança apertada. Marcada está também uma manifestação da CGTP para este sábado, na Praça do Marquês, no Porto.